sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Contabilidade criativa
Deve-se admitir que a criatividade no trato das contas públicas no Brasil não vem de hoje. O tal do superávit primário, que não se vê em nenhum outro lugar do mundo, já existia no governo FHC. Agora, o que a equipe econômica atual vem fazendo é incrível. É dinheiro que o Tesouro empresta para o BNDES para comprar ativos aqui, injetar ali, emprestar acolá. E a dívida pública continua a mesma, segundo as autoridades. Daqui a pouco isto aqui vira a Argentina, cujas estatísticas e contas ninguém mais leva a sério.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Ideia de jerico
"A gente vai na noite anterior e espalha um monte de folhetos e santinhos nas imediações das seções eleitorais. No dia seguinte, o eleitor vai pegar um do chão e votar no nosso candidato. Não tem erro." Alguém conseguiu votar em uma seção eleitoral onde isso não ocorreu? Parece que não se dão conta de que vão sujar a cidade, entupir bueiros. Ora, qual é o problema? Ninguém é multado, não vão obrigar o candidato porcalhão a pagar pela limpeza. Fica por isso mesmo. Só em São Paulo, recolheram 170 toneladas de material de campanha das ruas. É o Brasil que me enche de orgulho!
sábado, 2 de outubro de 2010
O negócio é o viés
Antes que a minha mãe ou algum outro leitor reclame de eu ter escrito em inglês, segue uma tradução livre, bem livre.
Uma das principais manchetes no site da CNN hoje é “Ex-guerrilheira concorre à presidência no Brasil”. O link vai cair num artigo com o título “Ex-guerrilheira marxista concorre para ser a primeira presidente do Brasil”. Fico pensando que sensação uma frase como essa provoca ao norte do Rio Grande. Os americanos de direita podem até pensar: “Ai meu Deus, o Brasil vai virar uma Venezuela. Temos que fazer alguma coisa. Calma, o bicho não é tão feio quanto parece. É certo que a Dilma e o PT têm um quê de socialismo, o que é um eufemismo, mas os tempos são outros. O mais importante é que estou convicto de que existem pesos e contrapesos suficientes para evitar que eles transformem o país em algo que possa ser fonte de preocupação. A outra possibilidade é que a CNN estava apenas tentando atrair a atenção dos leitores. Alguma coisa como “Candidata do Lula rumo à vitória no Brasil” não teria surtido o mesmo efeito que o título escolhido, pois muitos dos americanos que apenas olham para o seu umbigo provavelmente pensariam, “Quem é esse tal de Lula? E daí?” Não, ainda acho que, mais do que qualquer outra coisa, foi viés mesmo.
Uma das principais manchetes no site da CNN hoje é “Ex-guerrilheira concorre à presidência no Brasil”. O link vai cair num artigo com o título “Ex-guerrilheira marxista concorre para ser a primeira presidente do Brasil”. Fico pensando que sensação uma frase como essa provoca ao norte do Rio Grande. Os americanos de direita podem até pensar: “Ai meu Deus, o Brasil vai virar uma Venezuela. Temos que fazer alguma coisa. Calma, o bicho não é tão feio quanto parece. É certo que a Dilma e o PT têm um quê de socialismo, o que é um eufemismo, mas os tempos são outros. O mais importante é que estou convicto de que existem pesos e contrapesos suficientes para evitar que eles transformem o país em algo que possa ser fonte de preocupação. A outra possibilidade é que a CNN estava apenas tentando atrair a atenção dos leitores. Alguma coisa como “Candidata do Lula rumo à vitória no Brasil” não teria surtido o mesmo efeito que o título escolhido, pois muitos dos americanos que apenas olham para o seu umbigo provavelmente pensariam, “Quem é esse tal de Lula? E daí?” Não, ainda acho que, mais do que qualquer outra coisa, foi viés mesmo.
It’s all about bias
One of the top stories on CNN's website today is “Ex-guerrilla vies for Brazil's presidency”. The link takes you to a story entitled “Former Marxist guerrilla vying to be Brazil's first female president.” It leaves me wondering what kind of feelings that provokes north of the Rio Grande. Right-wing Americans might even think, "Oh! My God, Brazil is turning into Venezuela. We have to do something about it!" Easy, that’s not as bad as it looks. Ms. Rousseff and her Workers’ Party certainly have a red, socialist tinge, to put it mildly, but times have changed. More importantly, I strongly believe there are enough checks and balances in place to keep them from turning the country into anything that could be cause for concern. The other possibility is that CNN just went for the attention grabber. Something in the vein of “Lula-groomed candidate poised to take victory in Brazil” would not have produced the same effect as the title they chose, as many navel-gazing Americans would likely go, "Who is Lula anyway? Who cares?" Nope, I still think it's more about bias than anything else.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Mas que lambança
Esta eleição vai entrar para a história, mas não propriamente pelos candidatos ou pelas campanhas que se viram até aqui. Para falar a verdade, fiquei meio decepcionado com o que vi, ou melhor, com o que não vi. Talvez o problema seja que a minha principal referência é a eleição de 1989, a primeira eleição direta desde aquele em que se elegeu Jânio Quadros. A de 1989 foi uma festa. Todos queriam mostrar que apoiavam este ou aquele candidato. Era bóton na roupa, bandeira para todo lado, adesivos nas janelas, nos carros. Vi muito pouco disso. Parece que o conformismo dominou a população. Claro, os meios hoje são outros. Muito da campanha passou para o Twitter, o Facebook, o email, mas, mesmo assim, Dilma já entrou praticamente vencedora e Serra e os demais já começaram meio que derrotados.
Mas eu dizia que esta eleição vai entrar para a história. É por causa da lambança que fizeram. Vamos às urnas no domingo sem sabermos ao certo de que documento precisaremos. A rigor, com a decisão de ontem do STF, basta levar um documento com foto; o título de eleitor, que muita gente ficou na fila para tirar na última hora, não vale nada. Mas e se um mesário desinformado resolve criar caso e não deixar um eleitor sem título votar? Isso vai dar confusão. O mais lamentável dessa história toda é que isso tudo não precisava ter ocorrido. Todos os partidos haviam concordado que o título e um documento com foto eram necessários. Mas aí o PT (e não é porque foi o PT, fosse quem fosse) se dá conta de que corre risco de perder votos e resolve entrar com aquela ação de inconstitucionalidade aos 45 do segundo tempo. Grande PT!
Mas a lambança não fica só aí. Votaremos no domingo, mas a decisão final poderá ser no tapetão, e o que é pior, do STF. O seu candidato pode ganhar, mas não levar. Se um candidato ficha suja for eleito e o STF decidir, sabe lá Deus quando, que a Lei da Ficha Limpa já vale a partir de agora, como é que fica aquele sistema louco do quociente eleitoral? A contagem seria toda alterada, imagino. Li há pouco que o TSE vai divulgar à parte os votos de quem teve a candidatura barrada por causa da nova lei. Por via das dúvidas, o melhor é só comemorar depois que o Supremo chegar a uma decisão. E o meu medo é que, na hora do desempate, já saberemos quem poderá ser beneficiado caso a lei passe a valer a partir deste pleito ou do próximo. Isso pode, por que não, influenciar a decisão. É esperar para ver.
Mas eu dizia que esta eleição vai entrar para a história. É por causa da lambança que fizeram. Vamos às urnas no domingo sem sabermos ao certo de que documento precisaremos. A rigor, com a decisão de ontem do STF, basta levar um documento com foto; o título de eleitor, que muita gente ficou na fila para tirar na última hora, não vale nada. Mas e se um mesário desinformado resolve criar caso e não deixar um eleitor sem título votar? Isso vai dar confusão. O mais lamentável dessa história toda é que isso tudo não precisava ter ocorrido. Todos os partidos haviam concordado que o título e um documento com foto eram necessários. Mas aí o PT (e não é porque foi o PT, fosse quem fosse) se dá conta de que corre risco de perder votos e resolve entrar com aquela ação de inconstitucionalidade aos 45 do segundo tempo. Grande PT!
Mas a lambança não fica só aí. Votaremos no domingo, mas a decisão final poderá ser no tapetão, e o que é pior, do STF. O seu candidato pode ganhar, mas não levar. Se um candidato ficha suja for eleito e o STF decidir, sabe lá Deus quando, que a Lei da Ficha Limpa já vale a partir de agora, como é que fica aquele sistema louco do quociente eleitoral? A contagem seria toda alterada, imagino. Li há pouco que o TSE vai divulgar à parte os votos de quem teve a candidatura barrada por causa da nova lei. Por via das dúvidas, o melhor é só comemorar depois que o Supremo chegar a uma decisão. E o meu medo é que, na hora do desempate, já saberemos quem poderá ser beneficiado caso a lei passe a valer a partir deste pleito ou do próximo. Isso pode, por que não, influenciar a decisão. É esperar para ver.
O debate da Globo
Achei o debate morno, chato, anticlimático. Esperava um pouco mais, pois era o encerramento da campanha, a última chance de deixar sua marca e buscar uma virada ou consolidar a vitória. Está certo que o formato meio que engessa, mas faltou contundência. Plínio até que tentou atacar, mas ele mais diverte do que realmente impressiona. E suas ideias, como recorrer ao calote na dívida, são o fim da picada. Podem funcionar na cabeça dele, mas na vida real não. O Brasil e tantos outros países precisam se endividar porque o que arrecadam não cobre as despesas. Se você dá um calote, vai ficar mais caro para conseguir encontrar financiamento. Ora, não pegou emprestado? Então paga.
Quanto aos outros três, Dilma foi pouco ameaçada e mostrou-se atrapalhada na hora de falar. Mas não foi nada que lhe vá tirar votos no domingo. Serra falou bem, tentou mostrar sua experiência, mas não teve coragem de cutucar Dilma como deveria, sobretudo em vista da necessidade de arrancar-lhe votos para buscar um segundo turno. Marina foi um pouco mais incisiva, mas ficou aquém do que eu esperava. E no fim das contas, ninguém falou em Erenice Guerra, corrupção nos Correios, tráfico de influência na Casa Civil, censura à imprensa, loteamento de cargos no próximo governo. Foi prudência demais para o meu gosto.
Na verdade, o debate foi praticamente uma extensão do que se viu na campanha. Uma campanha para prefeito, como disse várias vezes a jornalista Lucia Hippolito. Foi construção de escola, de casa popular, compra de ambulância, bolsa-isso, bolsa-aquilo, coisas que ficariam melhores numa campanha municipal. Pouco se discutiram programas de governo. Temas macro, como política econômica e política externa, que se esperariam numa disputa presidencial, pouco apareceram. Mas isso é o que o Brasil comporta. Só dá para falar em coisas comezinhas senão nossa massa de semiletrados não consegue acompanhar e aí lá se vão os votos pelo ralo.
Quanto aos outros três, Dilma foi pouco ameaçada e mostrou-se atrapalhada na hora de falar. Mas não foi nada que lhe vá tirar votos no domingo. Serra falou bem, tentou mostrar sua experiência, mas não teve coragem de cutucar Dilma como deveria, sobretudo em vista da necessidade de arrancar-lhe votos para buscar um segundo turno. Marina foi um pouco mais incisiva, mas ficou aquém do que eu esperava. E no fim das contas, ninguém falou em Erenice Guerra, corrupção nos Correios, tráfico de influência na Casa Civil, censura à imprensa, loteamento de cargos no próximo governo. Foi prudência demais para o meu gosto.
Na verdade, o debate foi praticamente uma extensão do que se viu na campanha. Uma campanha para prefeito, como disse várias vezes a jornalista Lucia Hippolito. Foi construção de escola, de casa popular, compra de ambulância, bolsa-isso, bolsa-aquilo, coisas que ficariam melhores numa campanha municipal. Pouco se discutiram programas de governo. Temas macro, como política econômica e política externa, que se esperariam numa disputa presidencial, pouco apareceram. Mas isso é o que o Brasil comporta. Só dá para falar em coisas comezinhas senão nossa massa de semiletrados não consegue acompanhar e aí lá se vão os votos pelo ralo.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Paul McCartney
Li hoje no jornal que o Paul McCartney vem tocar no Brasil em novembro. Maravilha! Mais uma chance de ver um dos melhores compositores que já apareceram por aí e o líder da melhor banda da história. Pensei em levar a Clarissa, que está começando a conhecer os Beatles. Primeiro foi a música do filme da abelhinha (Bee Movie), Here Comes the Sun. Num dia desses a peguei cantarolando “I’d like to be, under the sea, in an octopus’s garden...”. Ela me disse que estava aprendendo a música na escola. Outra que vem fazendo sucesso aqui é When I’m Sixty-four.
Mas eu ia dizendo que pensei em levá-la ao show do Paul. Mudei de ideia rapidinho. Para começar, o ingresso deve sair uma nota. Se o do Rush já foi caro, não quero nem imaginar. Shows são muito caros no Brasil. Concordo que não sai barato trazer um artista de fora com aquela parafernália toda, mas a turma mete a faca. É o custo Brasil. E para terminar, vai ser muita gente. Em outros lugares, até daria para ir, a despeito da multidão. A coisa é organizadinha, você estaciona perto do local do show ou vai de metrô, fica todo o mundo sentadinho. Mas aqui na Pindorama ainda estamos longe disso. E ainda tem o fato de brasileiro ser mal-educado, índio, no sentido pejorativo da palavra. Vai ser aquele empurra-empurra, aquela confusão. É um risco que uma criança de sete anos não precisa correr. Espero que, no futuro, ela me perdoe por não tê-la levado.
Mas eu ia dizendo que pensei em levá-la ao show do Paul. Mudei de ideia rapidinho. Para começar, o ingresso deve sair uma nota. Se o do Rush já foi caro, não quero nem imaginar. Shows são muito caros no Brasil. Concordo que não sai barato trazer um artista de fora com aquela parafernália toda, mas a turma mete a faca. É o custo Brasil. E para terminar, vai ser muita gente. Em outros lugares, até daria para ir, a despeito da multidão. A coisa é organizadinha, você estaciona perto do local do show ou vai de metrô, fica todo o mundo sentadinho. Mas aqui na Pindorama ainda estamos longe disso. E ainda tem o fato de brasileiro ser mal-educado, índio, no sentido pejorativo da palavra. Vai ser aquele empurra-empurra, aquela confusão. É um risco que uma criança de sete anos não precisa correr. Espero que, no futuro, ela me perdoe por não tê-la levado.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Droga de eleição
Esta eleição está uma droga, convenhamos. Campanhas desanimadas, o Tiririca, a Mulher Pera (ê), o marido safado que renuncia à candidatura em favor da mulher, as dúvidas causadas pelos impasses do STF, que não resolve nada. Pelo jeito, os fichas-sujas vão concorrer. E se forem eleitos? Bom, até aí nada demais, sempre foram eleitos. Mas, se forem cassados depois, vai ser um rebu danado. Um documento ou dois na hora de votar? Isso já havia sido resolvido entre todos os partidos há um ano, e aí vem o PT bagunçar o coreto porque se deu conta de que muitos de seus eleitores podem ser impedidos de votar. Ai, Brasil...
O pior é que, desde a volta das eleições diretas, sempre tivemos pleitos que, de modo geral, transcorreram muito bem. Servimos de modelo de democracia para vários países, inclusive os EUA, onde houve aquele caso ridículo na Flórida, na eleição do Bush Filho. Lembram-se? Precisaram decidir a eleição no tapetão. Chegaram à insanidade de discutir se eram válidos os cartões de votação que haviam sido mal perfurados e haviam ficado com aquele pedacinho de papel pendurado. Pensando bem, não sei se piores somos nós ou eles. Os americanos, supostamente mais inteligentes, espertos e aculturados que nós, latinos, mulatos inzoneiros e semiletrados, elegeram presidente um pateta que nem o Bush. Não dá mesmo para entender a cabeça dos eleitores. Que venha o 3 de outubro para provar que estou certo.
O pior é que, desde a volta das eleições diretas, sempre tivemos pleitos que, de modo geral, transcorreram muito bem. Servimos de modelo de democracia para vários países, inclusive os EUA, onde houve aquele caso ridículo na Flórida, na eleição do Bush Filho. Lembram-se? Precisaram decidir a eleição no tapetão. Chegaram à insanidade de discutir se eram válidos os cartões de votação que haviam sido mal perfurados e haviam ficado com aquele pedacinho de papel pendurado. Pensando bem, não sei se piores somos nós ou eles. Os americanos, supostamente mais inteligentes, espertos e aculturados que nós, latinos, mulatos inzoneiros e semiletrados, elegeram presidente um pateta que nem o Bush. Não dá mesmo para entender a cabeça dos eleitores. Que venha o 3 de outubro para provar que estou certo.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
A remuneração dos tradutores e outras coisinhas afins
Caro leitor, este artigo está, digamos assim, um tantinho desestruturado. O que era para ser apenas respostas breves aos comentários feitos pelo colega Víctor Gonzales sobre o texto “A remuneração dos tradutores”, acabou ficando maior do que eu esperava. Assim, em vez de simplesmente dar minha resposta no campo para comentários daquele artigo, resolvi juntar os parágrafos abaixo e publicá-los como um novo texto. Além disso, minhas respostas abordam vários pontos importantes que teriam menos visibilidade se aparecessem apenas como um comentário. Então vamos a elas.
Será que a falta de união é exclusiva dos tradutores? Provavelmente não. Acredito que, em todas as profissões, vai haver um puxando o tapete do outro, um querendo roubar o cliente do outro, defender seu território. Será que se fala de preços em outras profissões tanto assim quanto se pensa? Para falar a verdade, não sei. Mas não consigo imaginar médicos se reunindo num simpósio e discutindo quanto devem cobrar por uma consulta ou escritórios de advocacia se consultando para saber quanto devem cobrar de honorários.
Cobrar por palavra, lauda, caractere (com ou sem espaço), peso, baciada, metro... Tanto faz. É apenas uma convenção. Para ser sincero, acho que saímos perdendo nessa história. Eu preferiria pegar o original, avaliar a dificuldade, estimar o tempo que vou levar para fazer o serviço e dar um preço fechado. Menos transparente? Por quê? Vamos supor que você contrate um pedreiro para construir um muro em volta da sua casa. Você o acusaria de pouco transparente se ele não te cobrasse pelo número de tijolos? Não acho que as diferentes formas de cobrança de um serviço de tradução sejam empecilho. O subjetivismo talvez seja o mesmo quando se compara um médico que cobra 150 reais e outro que cobra 300 reais por consulta.
No que diz respeito a novatos cobrarem barato, muita calma nessa hora. Coloque-se no lugar de um novato. Ao iniciar na profissão, quem tem peito para já sair cobrando caro? Você pode até entrar no mercado com seu preço lá em cima, mas quem vai decidir se aquele preço é cabível, não é você; são os clientes. Às vezes cola, mas é mais provável que você vá ouvir dos clientes que ainda está muito verde para cobrar aquilo tudo. Quanto a se valer de um revisor, lembre-se de que você precisa pagar pelo serviço dele e isso pode acabar reduzindo demais a sua margem de lucro. Você pode também trabalhar junto com um colega e um revisar o trabalho do outro, mas vão ter que dividir o que ganharem.
Os estudantes de tradução devem adotar uma postura mais ativa. Não podem esperar que as coisas vão ser dadas de mão beijada. Tem que correr atrás, se informar, ir a palestras e congressos, participar de listas de discussão, grupos virtuais, redes sociais. Isso tudo ajuda a entender como funciona a profissão e o mercado e dá visibilidade a quem está começando. Não sei lhe dizer exatamente por que havia poucos estudantes no evento do ProZ, mas não o tome como regra. Frequento eventos como esse desde 1998 e os estudantes sempre comparecem. Normalmente, são presença mais forte em eventos organizados por instituições de ensino, mas também vão aos mais voltados para tradutores.
Quanto ao problema de os tradutores da mesma língua se enxergarem como verdadeiros parceiros e não como concorrentes, é difícil separar as duas coisas, sobretudo no caso dos que ainda não se firmaram no mercado. Todos os tradutores que trabalham com a mesma língua que eu são meus concorrentes, claro, mas, acima de tudo, são parceiros e possíveis fontes de serviço. Nós somos de carne e osso e nosso dia tem apenas 24 horas. É mais comum do que alguns imaginam ver-se em situações em que é impossível dar cabo do serviço sozinho. Da mesma forma que isso ocorre com você, também ocorre com um colega, que pode lhe pedir socorro. É preciso apenas que você esteja preparado para ajudar quando esse pedido chegar.
Em minha palestra no evento do ProZ, há duas semanas, falei sobre essa questão dos pares. Admiti que é mais difícil ser recomendado por um colega que traduz para a mesma língua que a nossa, mas não é impossível. Eu, por exemplo, vou passar o nome de uma colega que estava lá no ProZ para um cliente meu. Ela se encaixa bem no perfil de tradutor de que eles precisam. Claro, vou recomendá-la porque ela me parece ser uma pessoa séria e competente. Se eu não tivesse essa percepção, não a recomendaria. Afinal, a minha reputação está em jogo também quando indico alguém. E tampouco se esqueça de que, não raro, recomendações vêm de colegas especializados em áreas que não a sua e de tradutores que trabalham com outras línguas.
Será que a falta de união é exclusiva dos tradutores? Provavelmente não. Acredito que, em todas as profissões, vai haver um puxando o tapete do outro, um querendo roubar o cliente do outro, defender seu território. Será que se fala de preços em outras profissões tanto assim quanto se pensa? Para falar a verdade, não sei. Mas não consigo imaginar médicos se reunindo num simpósio e discutindo quanto devem cobrar por uma consulta ou escritórios de advocacia se consultando para saber quanto devem cobrar de honorários.
Cobrar por palavra, lauda, caractere (com ou sem espaço), peso, baciada, metro... Tanto faz. É apenas uma convenção. Para ser sincero, acho que saímos perdendo nessa história. Eu preferiria pegar o original, avaliar a dificuldade, estimar o tempo que vou levar para fazer o serviço e dar um preço fechado. Menos transparente? Por quê? Vamos supor que você contrate um pedreiro para construir um muro em volta da sua casa. Você o acusaria de pouco transparente se ele não te cobrasse pelo número de tijolos? Não acho que as diferentes formas de cobrança de um serviço de tradução sejam empecilho. O subjetivismo talvez seja o mesmo quando se compara um médico que cobra 150 reais e outro que cobra 300 reais por consulta.
No que diz respeito a novatos cobrarem barato, muita calma nessa hora. Coloque-se no lugar de um novato. Ao iniciar na profissão, quem tem peito para já sair cobrando caro? Você pode até entrar no mercado com seu preço lá em cima, mas quem vai decidir se aquele preço é cabível, não é você; são os clientes. Às vezes cola, mas é mais provável que você vá ouvir dos clientes que ainda está muito verde para cobrar aquilo tudo. Quanto a se valer de um revisor, lembre-se de que você precisa pagar pelo serviço dele e isso pode acabar reduzindo demais a sua margem de lucro. Você pode também trabalhar junto com um colega e um revisar o trabalho do outro, mas vão ter que dividir o que ganharem.
Os estudantes de tradução devem adotar uma postura mais ativa. Não podem esperar que as coisas vão ser dadas de mão beijada. Tem que correr atrás, se informar, ir a palestras e congressos, participar de listas de discussão, grupos virtuais, redes sociais. Isso tudo ajuda a entender como funciona a profissão e o mercado e dá visibilidade a quem está começando. Não sei lhe dizer exatamente por que havia poucos estudantes no evento do ProZ, mas não o tome como regra. Frequento eventos como esse desde 1998 e os estudantes sempre comparecem. Normalmente, são presença mais forte em eventos organizados por instituições de ensino, mas também vão aos mais voltados para tradutores.
Quanto ao problema de os tradutores da mesma língua se enxergarem como verdadeiros parceiros e não como concorrentes, é difícil separar as duas coisas, sobretudo no caso dos que ainda não se firmaram no mercado. Todos os tradutores que trabalham com a mesma língua que eu são meus concorrentes, claro, mas, acima de tudo, são parceiros e possíveis fontes de serviço. Nós somos de carne e osso e nosso dia tem apenas 24 horas. É mais comum do que alguns imaginam ver-se em situações em que é impossível dar cabo do serviço sozinho. Da mesma forma que isso ocorre com você, também ocorre com um colega, que pode lhe pedir socorro. É preciso apenas que você esteja preparado para ajudar quando esse pedido chegar.
Em minha palestra no evento do ProZ, há duas semanas, falei sobre essa questão dos pares. Admiti que é mais difícil ser recomendado por um colega que traduz para a mesma língua que a nossa, mas não é impossível. Eu, por exemplo, vou passar o nome de uma colega que estava lá no ProZ para um cliente meu. Ela se encaixa bem no perfil de tradutor de que eles precisam. Claro, vou recomendá-la porque ela me parece ser uma pessoa séria e competente. Se eu não tivesse essa percepção, não a recomendaria. Afinal, a minha reputação está em jogo também quando indico alguém. E tampouco se esqueça de que, não raro, recomendações vêm de colegas especializados em áreas que não a sua e de tradutores que trabalham com outras línguas.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A remuneração dos tradutores
Há algumas semanas, estou com um texto no forno sobre esse assunto, que sempre provoca muita discussão e causa bastante polêmica. Outros compromissos, como trabalho e a participação como palestrante num evento de tradução em São Paulo não me permitiram concluí-lo antes, mas nada como um empurrãozinho para fazer você terminar um texto. Logo mais à noite, o colega e amigo Danilo Nogueira discutirá esse mesmo assunto na já tradicional reunião da Sala 7 (com repeteco no sábado). Como acredito que nós dois pensamos de forma muito semelhante sobre esse tema, é melhor publicar logo as minhas opiniões para depois não ser acusado de estar me aproveitando das ideias dele.
Há algumas semanas um comentário meu no Twitter suscitou uma breve discussão entre colegas tradutores sobre remuneração. Fiz esse comentário após ler o tweet do colega João Roque Dias, tradutor técnico português, que dizia o seguinte: “No Peanuts! for Translators: If You Are Not a Monkey, Stop Working for Peanuts: http://bit.ly/bLyagj Read and Retweet!” A ideia é que os tradutores não devem aceitar trabalhar por mixaria. Tenho comigo que circular essas mensagens para que os tradutores, ou outros profissionais, não trabalhem por mixaria é fácil. Definir o que é mixaria é que são elas.
Eis o principal problema quando se discute remuneração de tradutores. Ora, a mixaria para um pode ser o suficiente para pagar as contas do outro e manter o cobrador afastado. Fazendo um paralelo com o que dizia o folclórico Dadá Maravilha (“Não existe gol feio, feio é não fazer gol”), costumo dizer que mais feio do que trabalhar por pouco é não ter com que pagar as contas. Isto sim é um problema. Cada um sabe das suas contas, das suas dívidas, de onde o calo aperta, e ninguém deve dizer ao outro que não deve trabalhar por x ou por y reais ou dólares. Mas alguns aspectos precisam ser relevados nessa discussão.
Vamos supor que o tradutor A cobre x centavos por palavra e o tradutor B cobre x + 3 centavos. Quem ganha mais? Depende. O tradutor A pode simplesmente digitar mais rápido e produzir um número de palavras suficiente para lhe garantir um rendimento maior. Ou talvez ele seja desleixado e não pesquise o suficiente, preferindo simplesmente adotar a primeira solução que lhe vem à cabeça. Por outro lado, ele pode ser melhor tradutor ou receber trabalhos que consegue fazer bem e com facilidade, sem precisar parar a toda hora para consultar o dicionário. Cada caso é um caso.
Outro ponto que deve ser levantado diz respeito a criticar quem trabalha por pouco. Cuidado, pois é fácil cometer injustiças. Há quem trabalhe por pouco por desconhecimento do mercado, por não saber que há quem pague bem por traduções bem feitas e que a qualidade do seu trabalho poderia ser mais bem remunerada. Há quem tenha medo de aumentar seus preços e ver seus clientes irem atrás de quem cobre menos. Na minha opinião, dois tipos de tradutores merecem crítica. Um é o que traduz de graça, por diletantismo e de forma pouco profissional, se esquecendo de que muitos traduzem para garantir o pão de cada dia. O outro é o que faz dumping, ou seja, cobra pouco para derrubar os concorrentes. Este presta um desserviço à profissão e não nos ajuda em nada.
Mas então o que fazer para que todos os tradutores recebam uma remuneração justa? Vamos tabelar! Nem pensar. Isso dá bode ao sul e ao norte do Equador. Quem já foi a um congresso da ATA, a Associação Americana de Tradutores, sabe que esse assunto não se discute lá. Chegue numa rodinha e pergunte quando este ou aquele cobra. Você vai ficar falando sozinho. Aqui no Brasil, o Sintra, o Sindicato Nacional dos Tradutores, é polo passivo numa ação iniciada pela Secretaria de Direito Econômico por causa da sua “lista de valores de referência praticados”. Ou seja, lá ou cá, estabelecer preços não dá certo.
O caminho é buscar sempre aumentar seus preços e procurar trabalhar com clientes que pagam mais. Isso me remete a um artigo que li recentemente que falava em price makers e price takers, ou seja quem dita e quem aceita os preços. Segundo a autora, você tem que ditar os preços. Claro, isso é muito mais fácil na teoria do que na prática. Se você está numa situação financeira confortável, tem outras fontes de renda, seu cônjuge ganha bem, é mais fácil fazer finca-pé e exigir mais. Mas se esse não é o seu caso e, sobretudo, se você está começando na profissão, o mais provável é que o mercado, ou seja, os clientes ditem os preços.
Que tal um exemplo da vida real? Na semana passada, mantive contato com um possível cliente que me ofereceu um pagamento que provavelmente não chegaria a um quinto do que meus melhores clientes me pagariam. Como você reagiria? Nada de espinafrar o cliente. Não sabemos o dia de amanhã. Na época das vacas magras, talvez esse cliente possa me salvar. Ainda não discuti preços com ele, mas vou chegar lá, vou mostrar meu pedigree e tentar aumentar o valor por palavra. Se não conseguir, nada de ser descortês. A melhor resposta que posso dar a eles é simplesmente ir trabalhar para outro cliente que pague mais.
Para encerrar, se você consegue cobrar alto dos seus clientes, regozije-se, mas não critique o outro que ganha menos. Em vez de perdermos tempo criticando, devemos buscar aumentar nossos preços, o que ajudará a melhorar a qualidade do mercado como um todo e ajudará os demais tradutores. Se você acha que está ganhando pouco, se aperfeiçoe e busque clientes melhores. No imenso mercado de tradução, ainda há quem procure qualidade e não apenas o menor preço. E não se esqueça: a mixaria para você é o feijão com arroz na mesa do outro. Sejamos humildes e trabalhemos para melhorar as condições para todos.
Há algumas semanas um comentário meu no Twitter suscitou uma breve discussão entre colegas tradutores sobre remuneração. Fiz esse comentário após ler o tweet do colega João Roque Dias, tradutor técnico português, que dizia o seguinte: “No Peanuts! for Translators: If You Are Not a Monkey, Stop Working for Peanuts: http://bit.ly/bLyagj Read and Retweet!” A ideia é que os tradutores não devem aceitar trabalhar por mixaria. Tenho comigo que circular essas mensagens para que os tradutores, ou outros profissionais, não trabalhem por mixaria é fácil. Definir o que é mixaria é que são elas.
Eis o principal problema quando se discute remuneração de tradutores. Ora, a mixaria para um pode ser o suficiente para pagar as contas do outro e manter o cobrador afastado. Fazendo um paralelo com o que dizia o folclórico Dadá Maravilha (“Não existe gol feio, feio é não fazer gol”), costumo dizer que mais feio do que trabalhar por pouco é não ter com que pagar as contas. Isto sim é um problema. Cada um sabe das suas contas, das suas dívidas, de onde o calo aperta, e ninguém deve dizer ao outro que não deve trabalhar por x ou por y reais ou dólares. Mas alguns aspectos precisam ser relevados nessa discussão.
Vamos supor que o tradutor A cobre x centavos por palavra e o tradutor B cobre x + 3 centavos. Quem ganha mais? Depende. O tradutor A pode simplesmente digitar mais rápido e produzir um número de palavras suficiente para lhe garantir um rendimento maior. Ou talvez ele seja desleixado e não pesquise o suficiente, preferindo simplesmente adotar a primeira solução que lhe vem à cabeça. Por outro lado, ele pode ser melhor tradutor ou receber trabalhos que consegue fazer bem e com facilidade, sem precisar parar a toda hora para consultar o dicionário. Cada caso é um caso.
Outro ponto que deve ser levantado diz respeito a criticar quem trabalha por pouco. Cuidado, pois é fácil cometer injustiças. Há quem trabalhe por pouco por desconhecimento do mercado, por não saber que há quem pague bem por traduções bem feitas e que a qualidade do seu trabalho poderia ser mais bem remunerada. Há quem tenha medo de aumentar seus preços e ver seus clientes irem atrás de quem cobre menos. Na minha opinião, dois tipos de tradutores merecem crítica. Um é o que traduz de graça, por diletantismo e de forma pouco profissional, se esquecendo de que muitos traduzem para garantir o pão de cada dia. O outro é o que faz dumping, ou seja, cobra pouco para derrubar os concorrentes. Este presta um desserviço à profissão e não nos ajuda em nada.
Mas então o que fazer para que todos os tradutores recebam uma remuneração justa? Vamos tabelar! Nem pensar. Isso dá bode ao sul e ao norte do Equador. Quem já foi a um congresso da ATA, a Associação Americana de Tradutores, sabe que esse assunto não se discute lá. Chegue numa rodinha e pergunte quando este ou aquele cobra. Você vai ficar falando sozinho. Aqui no Brasil, o Sintra, o Sindicato Nacional dos Tradutores, é polo passivo numa ação iniciada pela Secretaria de Direito Econômico por causa da sua “lista de valores de referência praticados”. Ou seja, lá ou cá, estabelecer preços não dá certo.
O caminho é buscar sempre aumentar seus preços e procurar trabalhar com clientes que pagam mais. Isso me remete a um artigo que li recentemente que falava em price makers e price takers, ou seja quem dita e quem aceita os preços. Segundo a autora, você tem que ditar os preços. Claro, isso é muito mais fácil na teoria do que na prática. Se você está numa situação financeira confortável, tem outras fontes de renda, seu cônjuge ganha bem, é mais fácil fazer finca-pé e exigir mais. Mas se esse não é o seu caso e, sobretudo, se você está começando na profissão, o mais provável é que o mercado, ou seja, os clientes ditem os preços.
Que tal um exemplo da vida real? Na semana passada, mantive contato com um possível cliente que me ofereceu um pagamento que provavelmente não chegaria a um quinto do que meus melhores clientes me pagariam. Como você reagiria? Nada de espinafrar o cliente. Não sabemos o dia de amanhã. Na época das vacas magras, talvez esse cliente possa me salvar. Ainda não discuti preços com ele, mas vou chegar lá, vou mostrar meu pedigree e tentar aumentar o valor por palavra. Se não conseguir, nada de ser descortês. A melhor resposta que posso dar a eles é simplesmente ir trabalhar para outro cliente que pague mais.
Para encerrar, se você consegue cobrar alto dos seus clientes, regozije-se, mas não critique o outro que ganha menos. Em vez de perdermos tempo criticando, devemos buscar aumentar nossos preços, o que ajudará a melhorar a qualidade do mercado como um todo e ajudará os demais tradutores. Se você acha que está ganhando pouco, se aperfeiçoe e busque clientes melhores. No imenso mercado de tradução, ainda há quem procure qualidade e não apenas o menor preço. E não se esqueça: a mixaria para você é o feijão com arroz na mesa do outro. Sejamos humildes e trabalhemos para melhorar as condições para todos.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
A nova Seleção
E estreia a nova Seleção, do Mano Menezes. Dizem as más línguas que os cariocas, para manter os costumes locais, estão chamando o novo técnico de Mermão Menezes. Mano ou Mermão, deu gosto ver o time com que ele vai sair para a partida. Ramires e Paulo Henrique Ganso na meia-cancha, municiando três atacantes: Neymar, Pato, Robinho. Que maravilha! É um começo promissor. Contudo, infelizmente algumas coisas não mudaram.
Entra ano, sai ano, sai um técnico, vem outro, mas nós torcedores brasileiros, os principais interessados na Seleção, continuamos sem poder acompanhar os seus craques de perto. Por uma série de razões, como restrições impostas pelas equipes europeias ao número de amistosos que seus jogadores podem disputar fora do continente por suas seleções e o fato de que a programação dos amistosos da Seleção está vendida para uma empresa “das Arábias”, praticamente só podemos ver o Brasil jogar ao vivo nas eliminatórias. Nos próximos quatro anos, em que não disputaremos o torneio porque vamos sediar o mundial, nem essa chance teremos.
O jeito é apelar para a TV. Mas o jogo de hoje à noite, a tão esperada estreia de Ganso e Neymar, jogadores que tantos quisemos ver com a amarelinha já na Copa da África do Sul, o povão não vai poder ver nem pela TV. A partida não será transmitida pela TV aberta, mas somente pelo SporTV, canal de TV por cabo. É uma pena. Terá sido decisão da Globo, para não atrapalhar a sagrada novela das oito, que agora começa as 21h? Tenha sido deste ou daquele, foi uma decisão lamentável. Sabe, não cheguei a ver as feras que defenderam a Amarelinha e ganharam os três primeiros mundiais pela Seleção, mas já sou velho o suficiente para me gabar de que sou da época em que a Seleção ainda jogava amistosos aqui no Brasil. Bons tempos aqueles.
Entra ano, sai ano, sai um técnico, vem outro, mas nós torcedores brasileiros, os principais interessados na Seleção, continuamos sem poder acompanhar os seus craques de perto. Por uma série de razões, como restrições impostas pelas equipes europeias ao número de amistosos que seus jogadores podem disputar fora do continente por suas seleções e o fato de que a programação dos amistosos da Seleção está vendida para uma empresa “das Arábias”, praticamente só podemos ver o Brasil jogar ao vivo nas eliminatórias. Nos próximos quatro anos, em que não disputaremos o torneio porque vamos sediar o mundial, nem essa chance teremos.
O jeito é apelar para a TV. Mas o jogo de hoje à noite, a tão esperada estreia de Ganso e Neymar, jogadores que tantos quisemos ver com a amarelinha já na Copa da África do Sul, o povão não vai poder ver nem pela TV. A partida não será transmitida pela TV aberta, mas somente pelo SporTV, canal de TV por cabo. É uma pena. Terá sido decisão da Globo, para não atrapalhar a sagrada novela das oito, que agora começa as 21h? Tenha sido deste ou daquele, foi uma decisão lamentável. Sabe, não cheguei a ver as feras que defenderam a Amarelinha e ganharam os três primeiros mundiais pela Seleção, mas já sou velho o suficiente para me gabar de que sou da época em que a Seleção ainda jogava amistosos aqui no Brasil. Bons tempos aqueles.
A crise do português
Estou muito propenso a escrever no meu currículo que sou bom de crase e regência. A coisa está feia por aí. Todo o mundo erra nisso. Jornalistas, publicitários, secretárias, professores, advogados e, claro, tradutores estão escrevendo muito mal. Tradutor, mais especificamente, se esquece de que, antes de qualquer coisa, antes de ser usuário de CAT tools, ele é, por definição, um escritor. Infelizmente, o mercado impõe sua vontade cada vez mais. Tem de usar CAT tools. Escrever bem é secundário, é um detalhe, não faz tanta falta assim. Concordo que sem as ferramentas certas não dá, mas o texto e a sua qualidade estão ficando cada vez mais para escanteio. O problema é que, assim, o tradutor se aproxima cada vez mais da máquina. E, claro, a tradução de máquina é mais barata do que a humana. Quem traduz mal vai acabar ficando para trás e sendo purgado do mercado. Quer sobreviver e pegar trabalho bom? Vai aprender português.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Criticar é fácil
É perfeitamente compreensível que os brasileiros que acompanham a Fórmula 1 e torçam por nossos pilotos estejam chateados com a cachorrada perpetrada ontem na Alemanha. Mas os tempos mudaram, o esporte não é mais aquele de Émerson, Piquet e Senna. A maioria está criticando o Felipe Massa injustamente, está empurrando um bêbado ladeira abaixo. Bater em quem não pode se defender é muito fácil. Nessas horas, algumas coisas passam despercebidas.
Não se pode criticar sem estar a par de tudo o que ocorre. Alguém já viu o contrato que a Ferrari firma com seus pilotos? Deve conter cláusulas estabelecendo que a equipe deva ser colocada em primeiro lugar. Imagino que, se o piloto não obedecer, corre o risco de pagar uma multa polpuda e até de perder o emprego. Deve ser fácil conseguir outro posto numa equipe de ponta da F1. Há tantas, não é? E são tão poucos pilotos. Dirigir um carro daqueles é um privilégio e o piloto se vê obrigado a aceitar muita coisa para fazê-lo.
Cria-se uma situação desconfortável, claro. O piloto quer ganhar a corrida, mas tem de respeitar o contrato que assinou, ou seja, tem que engolir esses sapos. Quem nunca teve vontade de ir lá e dizer umas poucas e boas para o chefe? Fácil, não é? Mas o teu emprego, o dinheirinho que você leva para casa no fim do mês, é mais importante. Você pensa bem, engole em seco, e baixa a crista. Isso também ocorre em casa, nos relacionamentos, amorosos ou não. Faz parte da vida. Mas sempre aparecem os inconsequentes para criticar a falta de coragem. É o que estamos vendo.
O grande problema é que nós torcedores nos iludimos achando que as corridas são decididas tão somente no braço de cada piloto. Há dinheiro e interesses demais envolvidos. As críticas deveriam ser dirigidas à Ferrari e a quem organiza o esporte, que permite essas cachorradas e não faz as regras serem cumpridas. Se não é para ter jogo de equipe, que não haja. A solução para a vergonha de ontem deveria ter sido a pronta desclassificação da Ferrari, o que puniria indevidamente o Massa, mas antes assim. Que se dê o exemplo para que não ocorra de novo. Mas não vai ser o caso. O todo-poderoso da FIA é o francês Jean Todt, ex-dirigente da Ferrari. Vai acabar em pizza... à italiana.
Não se pode criticar sem estar a par de tudo o que ocorre. Alguém já viu o contrato que a Ferrari firma com seus pilotos? Deve conter cláusulas estabelecendo que a equipe deva ser colocada em primeiro lugar. Imagino que, se o piloto não obedecer, corre o risco de pagar uma multa polpuda e até de perder o emprego. Deve ser fácil conseguir outro posto numa equipe de ponta da F1. Há tantas, não é? E são tão poucos pilotos. Dirigir um carro daqueles é um privilégio e o piloto se vê obrigado a aceitar muita coisa para fazê-lo.
Cria-se uma situação desconfortável, claro. O piloto quer ganhar a corrida, mas tem de respeitar o contrato que assinou, ou seja, tem que engolir esses sapos. Quem nunca teve vontade de ir lá e dizer umas poucas e boas para o chefe? Fácil, não é? Mas o teu emprego, o dinheirinho que você leva para casa no fim do mês, é mais importante. Você pensa bem, engole em seco, e baixa a crista. Isso também ocorre em casa, nos relacionamentos, amorosos ou não. Faz parte da vida. Mas sempre aparecem os inconsequentes para criticar a falta de coragem. É o que estamos vendo.
O grande problema é que nós torcedores nos iludimos achando que as corridas são decididas tão somente no braço de cada piloto. Há dinheiro e interesses demais envolvidos. As críticas deveriam ser dirigidas à Ferrari e a quem organiza o esporte, que permite essas cachorradas e não faz as regras serem cumpridas. Se não é para ter jogo de equipe, que não haja. A solução para a vergonha de ontem deveria ter sido a pronta desclassificação da Ferrari, o que puniria indevidamente o Massa, mas antes assim. Que se dê o exemplo para que não ocorra de novo. Mas não vai ser o caso. O todo-poderoso da FIA é o francês Jean Todt, ex-dirigente da Ferrari. Vai acabar em pizza... à italiana.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Emprego a dar com pau
Estava eu aqui pensando com os meus botões: se o governo conseguir iniciar e tocar todas as obras previstas para a Copa e as Olimpíadas, não vai haver peão que chegue. Vão pegar gente em tudo que é lugar para trabalhar nas obras. Se bobear, vamos precisar importar peão do mundo inteiro. Se você está desempregado, faça um curso de pedreiro, de mestre de obras, e fique de olho nos classificados. Emprego é que não vai faltar. Enquanto isso, vou me preparando para ver a Copa na Inglaterra, o plano B da FIFA.
Ideia de jerico
Autoridades paulistanas querem cadastrar os flanelinhas e guardadores de carro da cidade. É a mais completa ideia de jerico. Querem dar caráter oficial a uma atividade ilegal que nada mais é do que uma transferência de renda sob coação, uma extorsão. , ou seja, um crime. Por que, ao estacionar em área pública, tenho que dar dinheiro a um sujeito que está na rua dizendo que vai “tomar de conta” do meu carro? Ele vai se responsabilizar legalmente e financeiramente se ocorrer algo com o carro? Não vai. Isso não é coisa de país civilizado. Vai um sujeito ficar na rua cobrando para as pessoas poderem estacionar lá nos EUA, por exemplo. Vai preso por vagabundagem.
Na verdade, existe lei federal, de 1975, que prevê a profissão do flanelinha, vejam só. São os “guardadores e lavadores autônomos de veículos automotores”. Após registro e o cumprimento de algumas exigências, o sujeito pode exercer a profissão. Tem mais: o pagamento pelo serviço é opcional e o flanelinha é responsável pelo carro e pelos objetos nele deixados. Uma coisa dessas só funciona na cabeça dos nossos legisladores. É o que mencionei no artigo das sacolas. Criam-se leis estapafúrdias que, na prática, são difíceis ou impossíveis de serem cumpridas. Quem vai fiscalizar o cumprimento dessa e de outras leis? Ah, Brasil!
Na verdade, existe lei federal, de 1975, que prevê a profissão do flanelinha, vejam só. São os “guardadores e lavadores autônomos de veículos automotores”. Após registro e o cumprimento de algumas exigências, o sujeito pode exercer a profissão. Tem mais: o pagamento pelo serviço é opcional e o flanelinha é responsável pelo carro e pelos objetos nele deixados. Uma coisa dessas só funciona na cabeça dos nossos legisladores. É o que mencionei no artigo das sacolas. Criam-se leis estapafúrdias que, na prática, são difíceis ou impossíveis de serem cumpridas. Quem vai fiscalizar o cumprimento dessa e de outras leis? Ah, Brasil!
A lei das sacolas plásticas
É ponto pacífico que as sacolas plásticas, quando descartadas sem qualquer cuidado, provocam danos ao meio ambiente. Qualquer iniciativa para conter esse problema é bem-vinda, mas tenho minhas dúvidas quanto à lei que passou a valer no Rio na semana passada. Para mim, ela cria obrigações demais, será de difícil cumprimento e vai ser mais uma das tantas leis que não vai pegar. Será mais uma prova de que nós brasileiros pegamos uma boa ideia de fora, mas metemos os pés pelas mãos na hora de colocá-la em prática.
Fundamentalmente, a nova lei obriga os comerciantes do estado do Rio a deixarem de oferecer sacolas plásticas. A pergunta que vem logo à mente é: como os consumidores vão levar as compras para casa? O brasileiro até leva uma sacola, bolsa, carrinho quando vai à feira ou a uma quitanda, mas ainda não tem esse costume quando vai ao supermercado. É um habito que vai levar algum tempo para ser adotado, imagino. Eu, por exemplo, tenho duas bolsas no carro, mas quase nunca me lembro de levá-las para o supermercado quando vou fazer compras.
A lei tem detalhes que tornam seu cumprimento difícil. Caso o comerciante não se enquadre, está previsto que o consumidor que levar uma bolsa de casa tem direito a três centavos de desconto a cada cinco itens que comprar e que 50 sacolas, em qualquer estado, podem ser trocadas por um quilo de feijão ou arroz. Vai se criar a indústria da caça ao saco. Além disso, os comerciantes são obrigados a afixar placas educativas no seu estabelecimento explicando que as sacolinhas levam até 100 anos para se decomporem no meio ambiente. E claro, há uma multa, e como não, que vai de 200 reais a 20 mil reais para o comerciante que cumprir a lei. Confusão demais para o meu gosto.
Não acho que as sacolinhas, sobretudo as de supermercado, devam ser abolidas, pois já fazem parte da nossa cultura. Atire a primeira pedra quem não as usa para colocar naquele lixinho da cozinha ou no lixo do banheiro. Nos Estados Unidos, elas realmente se acumulam e ficam sem uso, pois normalmente o recipiente para o lixo é bem maior e vai no armário embaixo da pia. Concordo que trazemos bem mais sacolas do supermercado do que realmente precisamos, mas aí é só reciclá-las. Ou seja, o problema maior não é o uso que você faz das sacolas, mas sim como você se desfaz delas.
Outro ponto importante é que vão fiscalizar o cumprimento da lei. Brasileiro gosta desse negócio de fiscalização. É bem tupiniquim ser fiscalizado Precisamos ter alguém fungando no nosso cangote, olhando se não estamos fazendo alguma coisa errada, pois não sabemos andar na linha sem que alguém nos discipline. O pior é que certamente não haverá fiscais suficientes e logo esse ímpeto fiscalizador passa. Vai tudo voltar a ser como era antes e terão sido gastos recursos e energia à toa. Já vimos esse filme mais de uma vez.
Se eu fosse dono de supermercado, estaria furioso. A grande maioria das obrigações recai sobre quem vende. Vão ter que designar funcionário para receber as sacolas e contá-las, arranjar um lugar para guardá-las, educar os consumidores por meio das tais placas. A impressão que me dá é que fazem essas leis sem parar para pensar nas consequências na prática. Isso me lembra a lei recente que estabelece que as crianças até determinada idade devem andar no carro presas numa cadeirinha própria. Aprovaram a lei, mas não olharam antes se o mercado comportaria essa mudança. Foram forçados a suspendê-la.
Por que não seguiram o exemplo dos Estados Unidos? Em Washington, por exemplo, adotaram uma solução bem simples: cobrar cinco centavos por sacola. Claro, um bom tempo antes da imposição da cobrança, os supermercados passaram a oferecer bolsas reutilizáveis que o consumidor podia adquirir e, assim, fazer a sua parte. Criou-se uma única obrigação para o comerciante: contar quantas sacolas o consumidor levava para casa. E ainda se tem a vantagem de “fazer doer no bolso das pessoas”, o método mais fácil para forçar alguém a abandonar um mau hábito ou a adotar uma nova prática.
Infelizmente, mais uma vez começamos com o pé esquerdo. Agora é torcer para que, os demais estados ou o governo federal, caso este deseje fazer uma lei única para as sacolas plásticas, mirem o que foi feito no Rio e tentem fazer diferente. Claro, vai haver uma grita geral no começo (além de pagar pelas compras, tenho que pagar pelas sacolinhas?!), mas isso num instante se ajeita e o povo toma consciência do problema e adota a nova solução. É esperar para ver.
Fundamentalmente, a nova lei obriga os comerciantes do estado do Rio a deixarem de oferecer sacolas plásticas. A pergunta que vem logo à mente é: como os consumidores vão levar as compras para casa? O brasileiro até leva uma sacola, bolsa, carrinho quando vai à feira ou a uma quitanda, mas ainda não tem esse costume quando vai ao supermercado. É um habito que vai levar algum tempo para ser adotado, imagino. Eu, por exemplo, tenho duas bolsas no carro, mas quase nunca me lembro de levá-las para o supermercado quando vou fazer compras.
A lei tem detalhes que tornam seu cumprimento difícil. Caso o comerciante não se enquadre, está previsto que o consumidor que levar uma bolsa de casa tem direito a três centavos de desconto a cada cinco itens que comprar e que 50 sacolas, em qualquer estado, podem ser trocadas por um quilo de feijão ou arroz. Vai se criar a indústria da caça ao saco. Além disso, os comerciantes são obrigados a afixar placas educativas no seu estabelecimento explicando que as sacolinhas levam até 100 anos para se decomporem no meio ambiente. E claro, há uma multa, e como não, que vai de 200 reais a 20 mil reais para o comerciante que cumprir a lei. Confusão demais para o meu gosto.
Não acho que as sacolinhas, sobretudo as de supermercado, devam ser abolidas, pois já fazem parte da nossa cultura. Atire a primeira pedra quem não as usa para colocar naquele lixinho da cozinha ou no lixo do banheiro. Nos Estados Unidos, elas realmente se acumulam e ficam sem uso, pois normalmente o recipiente para o lixo é bem maior e vai no armário embaixo da pia. Concordo que trazemos bem mais sacolas do supermercado do que realmente precisamos, mas aí é só reciclá-las. Ou seja, o problema maior não é o uso que você faz das sacolas, mas sim como você se desfaz delas.
Outro ponto importante é que vão fiscalizar o cumprimento da lei. Brasileiro gosta desse negócio de fiscalização. É bem tupiniquim ser fiscalizado Precisamos ter alguém fungando no nosso cangote, olhando se não estamos fazendo alguma coisa errada, pois não sabemos andar na linha sem que alguém nos discipline. O pior é que certamente não haverá fiscais suficientes e logo esse ímpeto fiscalizador passa. Vai tudo voltar a ser como era antes e terão sido gastos recursos e energia à toa. Já vimos esse filme mais de uma vez.
Se eu fosse dono de supermercado, estaria furioso. A grande maioria das obrigações recai sobre quem vende. Vão ter que designar funcionário para receber as sacolas e contá-las, arranjar um lugar para guardá-las, educar os consumidores por meio das tais placas. A impressão que me dá é que fazem essas leis sem parar para pensar nas consequências na prática. Isso me lembra a lei recente que estabelece que as crianças até determinada idade devem andar no carro presas numa cadeirinha própria. Aprovaram a lei, mas não olharam antes se o mercado comportaria essa mudança. Foram forçados a suspendê-la.
Por que não seguiram o exemplo dos Estados Unidos? Em Washington, por exemplo, adotaram uma solução bem simples: cobrar cinco centavos por sacola. Claro, um bom tempo antes da imposição da cobrança, os supermercados passaram a oferecer bolsas reutilizáveis que o consumidor podia adquirir e, assim, fazer a sua parte. Criou-se uma única obrigação para o comerciante: contar quantas sacolas o consumidor levava para casa. E ainda se tem a vantagem de “fazer doer no bolso das pessoas”, o método mais fácil para forçar alguém a abandonar um mau hábito ou a adotar uma nova prática.
Infelizmente, mais uma vez começamos com o pé esquerdo. Agora é torcer para que, os demais estados ou o governo federal, caso este deseje fazer uma lei única para as sacolas plásticas, mirem o que foi feito no Rio e tentem fazer diferente. Claro, vai haver uma grita geral no começo (além de pagar pelas compras, tenho que pagar pelas sacolinhas?!), mas isso num instante se ajeita e o povo toma consciência do problema e adota a nova solução. É esperar para ver.
Um primor de texto
De perto ninguém é normal, já dizia Caetano. Tenho cá minhas esquisitices também. Uma delas é guardar jornal. Mas como assim? No fim do dia, não jogo o jornal fora se eu não o tiver lido. Guardo para ler quando puder. Na verdade, não leio o jornal exatamente por causa das notícias. Gosto dos comentários, das análises, dos editoriais. Ali está o melhor do jornal. Afinal de contas, nos dias de hoje é mais rápido receber as notícias pela Internet e pela TV. Mas com essa mania, às vezes se acumula uma pilha grande, da qual não me desfaço sem pelo menos dar uma passada de olho para ver se está indo embora algo importante. Sabe que vale a pena? Na terça-feira à noite, encontrei uma maravilha de crônica do João Ubaldo Ribeiro publicada no Estadão de domingo. Um primor de texto. Se eu simplesmente tivesse me desfeito do jornal, nunca teria lido aquela beleza. Bom, para quem ainda não leu, dê uma olhada aqui e se delicie.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Bairrismo
Vai um exemplo da rivalidade entre paulistas e cariocas? Concluída a nona rodada do Campeonato Brasileiro, Flamengo e Cruzeiro estão empatados em pontos, número de vitórias, saldo de gols e gols marcados. Se você olhar a tabela, por exemplo, no G1 (da Globo, carioca), o Flamengo aparece em quarto e o Cruzeiro em quinto. Já no caderno de esportes do Estadão, a chamada do artigo diz: "Fla bate lanterna e Cruzeiro chega ao G-4". Quem está certo? O G1. Se o campeonato acabasse hoje, o atual campeão brasileiro ficaria à frente e iria para a pré-Libertadores porque tem menos cartões vermelhos do que o time de Belo Horizonte. Mas, claro, o Estadão, um jornal de São Paulo, ignora os critérios de desempate e põe lá um time mineiro na frente do carioca. Encher a bola de um time do Rio é que eles não encheriam, naturalmente. Pequenez, ainda mais porque já é a segunda rodada seguida em que isso ocorre.
Nota: Acabei de notar que, na tabela, o Estadão colocou o Flamengo acima do Cruzeiro, embora empatados em quarto. Não está perfeito, mas dá pra passar.
Nota: Acabei de notar que, na tabela, o Estadão colocou o Flamengo acima do Cruzeiro, embora empatados em quarto. Não está perfeito, mas dá pra passar.
sábado, 17 de julho de 2010
Tradução, apenas um serviço (1)
Na sexta-feira da semana passada, feriado de Nove de Julho aqui no estado de São Paulo, estivemos no Shopping Iguatemi. Passamos na Livraria Cultura e a Érica aproveitou para encomendar uns livros de que precisará para ministrar um curso neste semestre que se aproxima. A Cultura nos avisaria quando os livros chegassem para podermos apanhá-los (eu sei, eles também poderiam mandá-los para nossa casa, estamos cientes dessa opção, mas isso não vem ao caso). Aproveitamos a ocasião para comprar uns outros livros e já deixamos os da Érica pagos. Bastaria a ela trazer o comprovante para apanhá-los.
Na quarta-feira precisei ir ao Iguatemi para resolver outro assunto. Estava sem o referido comprovante, mas achei por bem dar um pulo na Cultura e ver se conseguia eu mesmo apanhar um dos livros, que já havia chegado. Fui à seção onde ficam os livros reservados e, para a minha surpresa, a funcionária me permitiu levar o livro. Bastou apenas me identificar e passar no caixa para desmagnetizar a etiqueta. Que maravilha! Mais uma vez eu ia à Cultura e saía de lá satisfeito. Para falar a verdade, não me lembro de uma vez sequer em que saí de uma loja deles tendo do que me queixar.
Mas por que estou contando essa história? Será que a Cultura está pagando um jabazinho ao João Vicente? E que raios isso tem a ver com tradução e com o título? Tem muito a ver. Estou iniciando com este texto uma série em que tento traçar paralelos entre a tradução e os mais diversos serviços prestados por aí. Já tenho mais dois ou três na manga e, certamente, outros virão. Afinal, na essência, a tradução guarda semelhanças com qualquer outro serviço. Nos parágrafos seguintes, quero me concentrar na satisfação do cliente.
Nosso mercado é disputado e a concorrência é grande. Para sobressair, não basta fazer a tradução direitinho e entregá-la no prazo combinado. Isso é o mínimo que se espera. É preciso ir mais longe, é preciso provocar no seu cliente sensação semelhante à que a Livraria Cultura me provocou. Da mesma forma que sempre volto à Cultura quando preciso de livros, o cliente satisfeito também voltará ao seu escritório, seja ele um cliente direto ou uma agência. Essa satisfação pode assumir diversas formas, mas destaco duas com base na minha experiência na quarta-feira.
Primeiro, a mais simples: a livraria resolveu o meu problema. Quando o cliente tem um problema, no nosso caso, a necessidade de ter um documento traduzido, o que ele mais quer é que lhe encontrem uma solução. Se for um problema sério, a solução vem para o primeiro plano e outros aspectos importantes, inclusive preço, podem até se tornar secundários. Segundo, a livraria resolveu meu problema de maneira fácil e rápida. Saí de lá naquele dia pensando “como é fácil trabalhar com esse pessoal”. Ora, quem não gosta de facilidade?! Cliente não quer aborrecimento, não se esqueça. No seu trabalho diário, almeje essa facilidade sempre, pois ela pode fazer a diferença na hora de perder ou manter um cliente. Até a próxima.
Na quarta-feira precisei ir ao Iguatemi para resolver outro assunto. Estava sem o referido comprovante, mas achei por bem dar um pulo na Cultura e ver se conseguia eu mesmo apanhar um dos livros, que já havia chegado. Fui à seção onde ficam os livros reservados e, para a minha surpresa, a funcionária me permitiu levar o livro. Bastou apenas me identificar e passar no caixa para desmagnetizar a etiqueta. Que maravilha! Mais uma vez eu ia à Cultura e saía de lá satisfeito. Para falar a verdade, não me lembro de uma vez sequer em que saí de uma loja deles tendo do que me queixar.
Mas por que estou contando essa história? Será que a Cultura está pagando um jabazinho ao João Vicente? E que raios isso tem a ver com tradução e com o título? Tem muito a ver. Estou iniciando com este texto uma série em que tento traçar paralelos entre a tradução e os mais diversos serviços prestados por aí. Já tenho mais dois ou três na manga e, certamente, outros virão. Afinal, na essência, a tradução guarda semelhanças com qualquer outro serviço. Nos parágrafos seguintes, quero me concentrar na satisfação do cliente.
Nosso mercado é disputado e a concorrência é grande. Para sobressair, não basta fazer a tradução direitinho e entregá-la no prazo combinado. Isso é o mínimo que se espera. É preciso ir mais longe, é preciso provocar no seu cliente sensação semelhante à que a Livraria Cultura me provocou. Da mesma forma que sempre volto à Cultura quando preciso de livros, o cliente satisfeito também voltará ao seu escritório, seja ele um cliente direto ou uma agência. Essa satisfação pode assumir diversas formas, mas destaco duas com base na minha experiência na quarta-feira.
Primeiro, a mais simples: a livraria resolveu o meu problema. Quando o cliente tem um problema, no nosso caso, a necessidade de ter um documento traduzido, o que ele mais quer é que lhe encontrem uma solução. Se for um problema sério, a solução vem para o primeiro plano e outros aspectos importantes, inclusive preço, podem até se tornar secundários. Segundo, a livraria resolveu meu problema de maneira fácil e rápida. Saí de lá naquele dia pensando “como é fácil trabalhar com esse pessoal”. Ora, quem não gosta de facilidade?! Cliente não quer aborrecimento, não se esqueça. No seu trabalho diário, almeje essa facilidade sempre, pois ela pode fazer a diferença na hora de perder ou manter um cliente. Até a próxima.
E a Copa se foi (não exatamente)
Junho e este início de julho foram meses bastante atribulados para mim. Quase uma semana depois da derradeira final, a maioria não quer mais saber da Copa, mas eu não poderia deixar de fazer meus comentários finais.
A Espanha mereceu ser campeã, embora não tenho jogado um futebol de primeira. É um time eficiente e deu para o gasto diante de uma seleção holandesa que entrou mais disposta a bater do que a jogar bola, lembrando a Holanda do primeiro tempo contra o Brasil. Durante todo o torneio, a Espanha não chegou a empolgar, mas não tomem isso como despeito ou choro de mau perdedor. Deixo essa distinção para o nosso presidente, que deveria ter ido à final da Copa, mas não o fez simplesmente porque o Brasil havia sido ejetado antes. Feio, descortês. Um chefe de Estado não faz isso.
No geral, não vou guardar lembranças boas desta Copa. Como positivo, destaco a escolha justíssima do uruguaio Forlán como melhor jogador do torneio, pois ele carregou o time nas costas durante todo o mundial. A grande decepção ficou por conta da Alemanha. Depois de apresentar um futebol de encher os olhos e golear Inglaterra e Argentina, os alemães se esqueceram de jogar contra a Espanha. Mas vai ficar mesmo na lembrança a má arbitragem. Não me lembro de uma Copa com tantos erros dos juízes e bandeiras. Que a FIFA tome uma providência e modernize o futebol.
Mas como indiquei no título, o assunto Copa não vai desaparecer. A Copa da África se foi, mas a Copa de 2014, a nossa Copa, vamos ouvir falar dela à exaustão até a bola efetivamente rolar. Infelizmente, até agora é só notícia ruim. Estamos com tudo atrasado, mas parece imperar a ideia de que “se os africanos conseguiram a gente também consegue”. Para ficar aqui na região, São Paulo, a maior, mais importante e mais rica cidade do país, ainda não sabe se terá o jogo de abertura. O Morumbi está descartado, o estádio que o Corínthians planeja construir é pequeno e, tudo conspira contra, o terreno onde querem construir o “Piritubão” está contaminado e, segundo a Cetesb, seriam necessários três anos para descontaminá-lo.
Diante das críticas da FIFA, Lula, o mau perdedor, o boquirroto do Planalto, sai com quatro pedras na mão e diz que não somos idiotas, que sabemos o que precisa ser feito e que tudo estará pronto. Idiotas somos nós, que já vimos esse filme e vamos assistir a uma continuação ainda pior. Os Jogos Pan-americanos tiveram o orçamento estourado em quase oito vezes, mas mesmo assim não aprendemos a lição. Claro, é bom lembrar que gastar mais que o orçado é comum a Copas e Olimpíadas, mas oito vezes me parece demais. Tudo que é feito a toque de caixa sai mais caro. Fiquemos de olho, pois estamos a caminho de fazer a Copa mais cara da história, provavelmente mais cara do que as que virão depois.
A Espanha mereceu ser campeã, embora não tenho jogado um futebol de primeira. É um time eficiente e deu para o gasto diante de uma seleção holandesa que entrou mais disposta a bater do que a jogar bola, lembrando a Holanda do primeiro tempo contra o Brasil. Durante todo o torneio, a Espanha não chegou a empolgar, mas não tomem isso como despeito ou choro de mau perdedor. Deixo essa distinção para o nosso presidente, que deveria ter ido à final da Copa, mas não o fez simplesmente porque o Brasil havia sido ejetado antes. Feio, descortês. Um chefe de Estado não faz isso.
No geral, não vou guardar lembranças boas desta Copa. Como positivo, destaco a escolha justíssima do uruguaio Forlán como melhor jogador do torneio, pois ele carregou o time nas costas durante todo o mundial. A grande decepção ficou por conta da Alemanha. Depois de apresentar um futebol de encher os olhos e golear Inglaterra e Argentina, os alemães se esqueceram de jogar contra a Espanha. Mas vai ficar mesmo na lembrança a má arbitragem. Não me lembro de uma Copa com tantos erros dos juízes e bandeiras. Que a FIFA tome uma providência e modernize o futebol.
Mas como indiquei no título, o assunto Copa não vai desaparecer. A Copa da África se foi, mas a Copa de 2014, a nossa Copa, vamos ouvir falar dela à exaustão até a bola efetivamente rolar. Infelizmente, até agora é só notícia ruim. Estamos com tudo atrasado, mas parece imperar a ideia de que “se os africanos conseguiram a gente também consegue”. Para ficar aqui na região, São Paulo, a maior, mais importante e mais rica cidade do país, ainda não sabe se terá o jogo de abertura. O Morumbi está descartado, o estádio que o Corínthians planeja construir é pequeno e, tudo conspira contra, o terreno onde querem construir o “Piritubão” está contaminado e, segundo a Cetesb, seriam necessários três anos para descontaminá-lo.
Diante das críticas da FIFA, Lula, o mau perdedor, o boquirroto do Planalto, sai com quatro pedras na mão e diz que não somos idiotas, que sabemos o que precisa ser feito e que tudo estará pronto. Idiotas somos nós, que já vimos esse filme e vamos assistir a uma continuação ainda pior. Os Jogos Pan-americanos tiveram o orçamento estourado em quase oito vezes, mas mesmo assim não aprendemos a lição. Claro, é bom lembrar que gastar mais que o orçado é comum a Copas e Olimpíadas, mas oito vezes me parece demais. Tudo que é feito a toque de caixa sai mais caro. Fiquemos de olho, pois estamos a caminho de fazer a Copa mais cara da história, provavelmente mais cara do que as que virão depois.
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