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quinta-feira, 9 de junho de 2011
E o inverno ainda nem chegou
Tem feito frio aqui (muito frio, diria o brasileiro típico). A mínima tem estado na casa de oito, nove graus Celsius. Não temos aquecimento, então só nos resta meter uma meia no pé e vestir calça comprida, blusa. Quem sente mais frio veste até mais de uma. Seria bom se tivéssemos calefação aqui em casa, mas esse é um luxo pelo qual pouquíssimos podem pagar no Brasil, embora as casas sejam bem menores do que as dos Estados Unidos. Mas não nos esqueçamos de que a minha conta de luz é mais alta do que a que eu pagava nos EUA, onde eu podia ficar numa boa dentro de casa, de short e camiseta, fizesse um frio polar ou um calor senegalês lá fora. O interessante é que o inverno é mais rigoroso nos EUA, mas a gente consegue aproveitá-lo mais, brincando na neve, esquiando. No Brasil, se comparamos, o inverno é ameno, mas ainda faz frio suficiente para incomodar, e a estação acaba se tornando muito mais um inconveniente do que uma diversão.
Is it winter yet?
It's been chilly here (the average Brazilian would say very cold). Lows have been in the upper 40s (Fahrenheit, of course). There's no heating, so all we can do is put socks on and wear one or more additional layers of clothes, depending on your endurance. I wish we could have heating, but an insulated home is a luxury very, very few can afford in Brazil, even though the average house is significantly smaller than in the U.S. But let us not forget that my energy bill is higher than what I used to pay in the U.S., where I could sit comfortably at home wearing shorts whether it was freezing cold or unbearably hot outside. Now here's an interesting point. Winters may be harsher in the U.S., but you get to enjoy them. In Brazil, even though winters are comparably mild, they are still harsh enough to be a nuisance, and the experience is upsetting rather than enjoyable.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Está nos olhos de quem vê
Acabei de ler sobre o caso da Sarah Lavigne, mãe e fotógrafa americana que teve o seu perfil retirado do Facebook porque havia fotos dela amamentando o filho. Iniciou-se uma campanha no próprio Facebook para que o perfil dela fosse restaurado, o que já ocorreu, ao que parece.
Essa coisa dos americanos em geral com a amamentação era algo que me incomodava profundamente. Lá nos EUA, a amamentação é coisa para ser feita às escondidas, como se fosse algo indecente. Como tivemos a Clarissa e o Rodrigo lá, vi o problema de perto. Muitas mães vão para o banheiro amamentar o filho. Já imaginou? Comer no banheiro? Outras, com quem travei contato no consultório do pediatra das crianças, tiravam o leite com uma bombinha e punham em mamadeiras mesmo quando podiam oferecer o seio à criança.
Eu me lembro de vários casos interessantes. Uma conhecida, num voo entre São Paulo e Washington, amamentava o filho quando passou uma senhora e jogou-lhe uma manta em cima para “cobrir aquela indecência”. Nós próprios passamos por um caso interessante. Estávamos em uma festa no jardim da casa de amigos brasileiros que moravam lá nos EUA já havia muito tempo. Érica precisou amamentar o Rodrigo e se retirou para a sala de visita, pois lá estava mais tranquilo. Calhou de o filho dos donos da casa, americano, com seus 10, 11 anos, acredito, entrar na sala. O menino ficou branco, estático, como se estivesse vendo coisa de outro mundo. Coitado, para ele, era.
Se você vai a uma loja de artigos de bebê, você vê lá uns panarecos horríveis que eles vendem para preservar a privacidade do ato. Cheguei até a tirar fotos desses troços nas lojas, mas não tenho tempo para procurá-las agora em meio a milhares de fotos. A mãe se enrola naquilo e mete a criança lá dentro para poder amamentar sem que ninguém veja o que está ocorrendo. Imagina que desconforto para o bebê, o calor ali dentro. Coitadinho.
No fim das contas, e o que mais me incomoda, é que essa papagaiada toda ocorre no país que mais produz pornografia no mundo. O que para nós é a coisa mais natural que uma mãe pode fazer é tratada como se fosse um atentado ao pudor. É preciso uma cabecinha muito perturbada para ver indecência em uma mãe amamentando um filho.
Essa coisa dos americanos em geral com a amamentação era algo que me incomodava profundamente. Lá nos EUA, a amamentação é coisa para ser feita às escondidas, como se fosse algo indecente. Como tivemos a Clarissa e o Rodrigo lá, vi o problema de perto. Muitas mães vão para o banheiro amamentar o filho. Já imaginou? Comer no banheiro? Outras, com quem travei contato no consultório do pediatra das crianças, tiravam o leite com uma bombinha e punham em mamadeiras mesmo quando podiam oferecer o seio à criança.
Eu me lembro de vários casos interessantes. Uma conhecida, num voo entre São Paulo e Washington, amamentava o filho quando passou uma senhora e jogou-lhe uma manta em cima para “cobrir aquela indecência”. Nós próprios passamos por um caso interessante. Estávamos em uma festa no jardim da casa de amigos brasileiros que moravam lá nos EUA já havia muito tempo. Érica precisou amamentar o Rodrigo e se retirou para a sala de visita, pois lá estava mais tranquilo. Calhou de o filho dos donos da casa, americano, com seus 10, 11 anos, acredito, entrar na sala. O menino ficou branco, estático, como se estivesse vendo coisa de outro mundo. Coitado, para ele, era.
Se você vai a uma loja de artigos de bebê, você vê lá uns panarecos horríveis que eles vendem para preservar a privacidade do ato. Cheguei até a tirar fotos desses troços nas lojas, mas não tenho tempo para procurá-las agora em meio a milhares de fotos. A mãe se enrola naquilo e mete a criança lá dentro para poder amamentar sem que ninguém veja o que está ocorrendo. Imagina que desconforto para o bebê, o calor ali dentro. Coitadinho.
No fim das contas, e o que mais me incomoda, é que essa papagaiada toda ocorre no país que mais produz pornografia no mundo. O que para nós é a coisa mais natural que uma mãe pode fazer é tratada como se fosse um atentado ao pudor. É preciso uma cabecinha muito perturbada para ver indecência em uma mãe amamentando um filho.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Cadastro positivo 2
Se você chegou aqui sem ter lido o Cadastro positivo original, logo abaixo, vá lê-lo e depois volte. Senão, a coisa vai ficar meio sem pé nem cabeça.
Numa discussão no Facebook sobre esse assunto, surgiram alguns aspectos importates. A consulta de crédito ao SPC, ao Serasa, já é feita pelas empresas há bastante tempo, como mencionou a colega Val Ivonica. A questão é que essa consulta era feita a um cadastro do qual o seu nome só constava se você era mau pagador. Agora, com o cadastro positivo, a ideia é o contrário: se você é bom pagador, o seu nome vai constar do cadastro como tal. Ocorreu-me também um exemplo prático, que ajuda a entender melhor como a coisa funciona nos EUA.
Se uma pessoa chega aos Estados Unidos e vai morar lá por muito tempo, é orientada a arranjar um cartão de crédito e a começar a, digamos assim, tomar dinheiro emprestado. Vai comprar um carro? Não compre à vista, mesmo que você disponha do dinheiro. Compre a prazo e vá pagando o empréstimo direitinho. Assim, você vai construindo seu histórico de crédito e aumentando um número conhecido como FICO. Quando você for comprar uma casa, uma das coisas que vão olhar é esse número. Se ele for alto, você pode ver a taxa de juros cair 0,5%, até mesmo 1%, dependendo da conjuntura. Se você pensar numa casa de 500 mil dólares e um empréstimo de 30 anos, 0,5% fazem uma bela diferença e você economiza bem mais do que teria economizado se houvesse pagado o carro à vista.
Como eu mencionei, a nossa cultura é bem diferente: corra dos juros e, se puder juntar o dinheiro para fazer a compra mais tarde, à vista, faça-o. É esperar para ver como o cadastro positivo vai se encaixar nessa realidade.
Numa discussão no Facebook sobre esse assunto, surgiram alguns aspectos importates. A consulta de crédito ao SPC, ao Serasa, já é feita pelas empresas há bastante tempo, como mencionou a colega Val Ivonica. A questão é que essa consulta era feita a um cadastro do qual o seu nome só constava se você era mau pagador. Agora, com o cadastro positivo, a ideia é o contrário: se você é bom pagador, o seu nome vai constar do cadastro como tal. Ocorreu-me também um exemplo prático, que ajuda a entender melhor como a coisa funciona nos EUA.
Se uma pessoa chega aos Estados Unidos e vai morar lá por muito tempo, é orientada a arranjar um cartão de crédito e a começar a, digamos assim, tomar dinheiro emprestado. Vai comprar um carro? Não compre à vista, mesmo que você disponha do dinheiro. Compre a prazo e vá pagando o empréstimo direitinho. Assim, você vai construindo seu histórico de crédito e aumentando um número conhecido como FICO. Quando você for comprar uma casa, uma das coisas que vão olhar é esse número. Se ele for alto, você pode ver a taxa de juros cair 0,5%, até mesmo 1%, dependendo da conjuntura. Se você pensar numa casa de 500 mil dólares e um empréstimo de 30 anos, 0,5% fazem uma bela diferença e você economiza bem mais do que teria economizado se houvesse pagado o carro à vista.
Como eu mencionei, a nossa cultura é bem diferente: corra dos juros e, se puder juntar o dinheiro para fazer a compra mais tarde, à vista, faça-o. É esperar para ver como o cadastro positivo vai se encaixar nessa realidade.
Cadastro positivo
Discute-se atualmente no Brasil o tal cadastro positivo de consumidores. Mas do que se trata? Bom, até hoje, para ter o nome limpo na praça e acesso a crédito, basta pagar suas dívidas em dia. Assim, você evita que o seu nome vá para o SPC, para o Serasa. Ou seja, se o seu nome não aparece na lista, você está tranquilo. Mas o cadastro positivo vem para mudar isso. A ideia, semelhante ao que se vê em países como os Estados Unidos, é que o consumidor deve construir um histórico de crédito, ou seja, fazer dívidas e honrá-las, pagando tudo direitinho. Assim, você mostra que tem capacidade de tomar empréstimos e pagá-los. Mas será que isso dá certo aqui no Brasil?
Eu tenho sérias dúvidas. Se compararmos o Brasil com os Estados Unidos, por exemplo, temos ambientes bem diferentes. Aqui, vocês hão de concordar, comprar a crédito é dureza. A maioria da população compra dessa maneira, mas o faz de mau grado. Quem gosta de pagar até o dobro do preço à vista por um produto? Quem pode e tem um pouquinho de traquejo ainda consegue poupar, investir o dinheiro e comprar à vista, pois o negócio é evitar as taxas de juros escorchantes cobradas no Brasil. Ou seja, toma-se emprestado apenas em último caso. Como é que se constrói um histórico de crédito se não se toma emprestado? E essa história de que um bom histórico de crédito lhe permitirá obter taxas mais baixas dos vendedores não me convence.
Isso tudo me faz pensar em outra diferença entre Estados Unidos e Brasil. Comprar na terra do Tio Sam é muito fácil, uma coisa prazerosa. Compra-se feliz, pois você sabe que está levando um produto de boa qualidade, a um preço razoável e a uma taxa de juros que não te tira o couro. Quando comprei o último carro que tive nos Estados Unidos, paguei 2,99% de juros... ao ano. No ápice da crise, um ex-colega de FMI me apareceu de carro novo. Perguntei-lhe quanto havia pagado de juros. Caí pra trás ao ouvir 0,89% ao ano e quase corri à loja para aproveitar essa pechincha. Aqui, 0,99% ao mês já é um bom negócio. Desse jeito, é aquele sofrimento na hora de entregar o nosso suado dinheiro para o vendedor. O produto não é lá essas coisas, o preço é alto e ainda vamos pagar uma boa grana de juros. Você sai da loja tentando se convencer de que fez um bom negócio. Se a sensação na hora de comprar fosse menos dolorosa, compraríamos ainda mais, o que aumentaria a atividade econômica e traria vários benefícios. Mas, infelizmente, parece que ninguém pensa nisso.
Eu tenho sérias dúvidas. Se compararmos o Brasil com os Estados Unidos, por exemplo, temos ambientes bem diferentes. Aqui, vocês hão de concordar, comprar a crédito é dureza. A maioria da população compra dessa maneira, mas o faz de mau grado. Quem gosta de pagar até o dobro do preço à vista por um produto? Quem pode e tem um pouquinho de traquejo ainda consegue poupar, investir o dinheiro e comprar à vista, pois o negócio é evitar as taxas de juros escorchantes cobradas no Brasil. Ou seja, toma-se emprestado apenas em último caso. Como é que se constrói um histórico de crédito se não se toma emprestado? E essa história de que um bom histórico de crédito lhe permitirá obter taxas mais baixas dos vendedores não me convence.
Isso tudo me faz pensar em outra diferença entre Estados Unidos e Brasil. Comprar na terra do Tio Sam é muito fácil, uma coisa prazerosa. Compra-se feliz, pois você sabe que está levando um produto de boa qualidade, a um preço razoável e a uma taxa de juros que não te tira o couro. Quando comprei o último carro que tive nos Estados Unidos, paguei 2,99% de juros... ao ano. No ápice da crise, um ex-colega de FMI me apareceu de carro novo. Perguntei-lhe quanto havia pagado de juros. Caí pra trás ao ouvir 0,89% ao ano e quase corri à loja para aproveitar essa pechincha. Aqui, 0,99% ao mês já é um bom negócio. Desse jeito, é aquele sofrimento na hora de entregar o nosso suado dinheiro para o vendedor. O produto não é lá essas coisas, o preço é alto e ainda vamos pagar uma boa grana de juros. Você sai da loja tentando se convencer de que fez um bom negócio. Se a sensação na hora de comprar fosse menos dolorosa, compraríamos ainda mais, o que aumentaria a atividade econômica e traria vários benefícios. Mas, infelizmente, parece que ninguém pensa nisso.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
O Natal deles
Hoje se comemora nos Estados Unidos o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day). Daqui a algumas horas, normalmente por volta das 17h, os americanos se sentarão à mesa para comer o chamado Thanksgiving Dinner. É, talvez, a festa mais importante para eles. Para mim, é como se fosse uma ceia de Natal. Ora, em que outra ocasião aqui no Brasil as famílias se reúnem em volta da mesa para se confraternizar e desfrutar de um belo peru?
Uma lembrança que guardo das quintas-feiras como a de hoje é a quantidade monstruosa de encartes das mais diversas lojas que vinham junto com o jornal. Neles, podia-se conferir todas as ofertas do comércio no dia seguinte. Era uma das diversões do dia, enquanto se esperava o jantar ficar pronto. E tome laptop, videogame, TV de tela plana com descontos de 50% ou mais. As ofertas eram realmente imperdíveis, mas o sujeito tinha que ter muita coragem para enfrentar o frio (por volta de zero grau) e a multidão enlouquecida, desesperada para comprar tudo o que via pela frente.
E a coisa não era fácil. Afinal de contas, para aproveitar as melhores ofertas era preciso chegar primeiro. As lojas normalmente abriam às 5h da matina e muitos acampavam na porta desde a noite anterior. Era gente que não acabava mais. Houve um ano, acho que 2008, quando um funcionário do Walmart morreu pisoteado pelo povão. O pior foi que ninguém interrompeu as compras, mesmo depois que circulou a notícia de que um funcionário havia morrido. Não justifica, mas é bom lembrar-se de que ir às compras é o esporte favorito do americano. O Black Friday é a final da Copa do Mundo para eles.
Mas que história é essa de Black Friday? Sexta-feira Negra? Talvez azul, mas negra não. Diz-se que, originalmente, a última sexta-feira de novembro foi assim batizada pelo Departamento de Polícia da Filadélfia porque aquele era o dia de mais congestionamento no trânsito e movimento nas ruas. Em outras palavras, um dia negro para quem tinha que tomar conta da população. Isso foi lá pelos anos 60, se não me engano. Anos depois, surgiu outra teoria. Chamavam de black porque era o dia em que muitos comerciantes conseguiam vender o suficiente para sair do vermelho. Enquanto aqui a gente usa a cor azul para representar números positivos, lá eles falam em preto. Mas vermelho é vermelho aqui e lá. E vendem muito mesmo. Eu me lembro de ter lido uma vez um artigo que mencionava que naquele dia entravam milhões e milhões de dólares só nos caixas do Walmart. Era uma cifra espantosa.
Interessante também foi ver nesses anos como os comerciantes e a vontade de comprar foram corroendo a tradição. Já há lojas que abrem na noite da quinta-feira. Você enche o bucho de peru, toma lá uma ou duas taças de vinho, pega o casaco e vai à luta atrás das melhores promoções. O comércio pela Internet tampouco deixa barato. As promoções começam já no início da semana. E nos últimos anos, crescem as vendas no que eles chamam de Cyber Monday. O raciocínio é que, ao voltar ao trabalho na segunda-feira, as pessoas vão sentar à frente do computador e aproveitar para fazer umas comprinhas pela Internet. E tome descontos para atrair o freguês. E isso é só o início da temporada de compras de fim de ano.
Nós, particularmente, nunca tivemos coragem de tentar pegar as ofertas da madrugada. Era muito trampo para pouco benefício. Normalmente, passávamos o olho nos encartes do jornal na noite anterior e tomávamos nota de uma ou outra promoção. Algumas iam até as 10h, até o meio-dia. Fazíamos um roteirozinho e saíamos depois do café, sem pressa. Nos últimos anos, eu ia sozinho ou deixávamos as crianças com alguém. Entrar numa Macy’s, por exemplo, num Black Friday, com duas crianças a tiracolo, é jogar pedra na cruz. As aglomerações e filas foram sempre enormes, mesmo em 2008 e 2009, com o fantasma da crise financeira à solta.
Mas o bom mesmo era o jantar, sobretudo na casa da Glaura, grande amiga e cozinheira de mão cheia. E tinha a pecan pie feita pelo Henrique, que era de primeira. Daria um dedinho do pé por uma torta daquelas. Algumas vezes o jantar foi lá em casa. Apesar de brasileiros, não havia motivo para não seguirmos a tradição local. Neste ano, para a data não passar em branco, vamos fazer um Thanksgiving Dinner na casa de amigos americanos, aqui na cidade mesmo. Não vai ser hoje, mas sim no domingo. Ora, vocês queriam o quê? Quinta-feira, aqui em terras tupiniquins, é dia de trabalho.
Uma lembrança que guardo das quintas-feiras como a de hoje é a quantidade monstruosa de encartes das mais diversas lojas que vinham junto com o jornal. Neles, podia-se conferir todas as ofertas do comércio no dia seguinte. Era uma das diversões do dia, enquanto se esperava o jantar ficar pronto. E tome laptop, videogame, TV de tela plana com descontos de 50% ou mais. As ofertas eram realmente imperdíveis, mas o sujeito tinha que ter muita coragem para enfrentar o frio (por volta de zero grau) e a multidão enlouquecida, desesperada para comprar tudo o que via pela frente.
E a coisa não era fácil. Afinal de contas, para aproveitar as melhores ofertas era preciso chegar primeiro. As lojas normalmente abriam às 5h da matina e muitos acampavam na porta desde a noite anterior. Era gente que não acabava mais. Houve um ano, acho que 2008, quando um funcionário do Walmart morreu pisoteado pelo povão. O pior foi que ninguém interrompeu as compras, mesmo depois que circulou a notícia de que um funcionário havia morrido. Não justifica, mas é bom lembrar-se de que ir às compras é o esporte favorito do americano. O Black Friday é a final da Copa do Mundo para eles.
Mas que história é essa de Black Friday? Sexta-feira Negra? Talvez azul, mas negra não. Diz-se que, originalmente, a última sexta-feira de novembro foi assim batizada pelo Departamento de Polícia da Filadélfia porque aquele era o dia de mais congestionamento no trânsito e movimento nas ruas. Em outras palavras, um dia negro para quem tinha que tomar conta da população. Isso foi lá pelos anos 60, se não me engano. Anos depois, surgiu outra teoria. Chamavam de black porque era o dia em que muitos comerciantes conseguiam vender o suficiente para sair do vermelho. Enquanto aqui a gente usa a cor azul para representar números positivos, lá eles falam em preto. Mas vermelho é vermelho aqui e lá. E vendem muito mesmo. Eu me lembro de ter lido uma vez um artigo que mencionava que naquele dia entravam milhões e milhões de dólares só nos caixas do Walmart. Era uma cifra espantosa.
Interessante também foi ver nesses anos como os comerciantes e a vontade de comprar foram corroendo a tradição. Já há lojas que abrem na noite da quinta-feira. Você enche o bucho de peru, toma lá uma ou duas taças de vinho, pega o casaco e vai à luta atrás das melhores promoções. O comércio pela Internet tampouco deixa barato. As promoções começam já no início da semana. E nos últimos anos, crescem as vendas no que eles chamam de Cyber Monday. O raciocínio é que, ao voltar ao trabalho na segunda-feira, as pessoas vão sentar à frente do computador e aproveitar para fazer umas comprinhas pela Internet. E tome descontos para atrair o freguês. E isso é só o início da temporada de compras de fim de ano.
Nós, particularmente, nunca tivemos coragem de tentar pegar as ofertas da madrugada. Era muito trampo para pouco benefício. Normalmente, passávamos o olho nos encartes do jornal na noite anterior e tomávamos nota de uma ou outra promoção. Algumas iam até as 10h, até o meio-dia. Fazíamos um roteirozinho e saíamos depois do café, sem pressa. Nos últimos anos, eu ia sozinho ou deixávamos as crianças com alguém. Entrar numa Macy’s, por exemplo, num Black Friday, com duas crianças a tiracolo, é jogar pedra na cruz. As aglomerações e filas foram sempre enormes, mesmo em 2008 e 2009, com o fantasma da crise financeira à solta.
Mas o bom mesmo era o jantar, sobretudo na casa da Glaura, grande amiga e cozinheira de mão cheia. E tinha a pecan pie feita pelo Henrique, que era de primeira. Daria um dedinho do pé por uma torta daquelas. Algumas vezes o jantar foi lá em casa. Apesar de brasileiros, não havia motivo para não seguirmos a tradição local. Neste ano, para a data não passar em branco, vamos fazer um Thanksgiving Dinner na casa de amigos americanos, aqui na cidade mesmo. Não vai ser hoje, mas sim no domingo. Ora, vocês queriam o quê? Quinta-feira, aqui em terras tupiniquins, é dia de trabalho.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
E tome dólar...
Com a taxa de juros já no chão, só resta às autoridades americanas aumentar a liquidez da economia. É isso ou enfrentar uma nova recessão, coisa que ninguém no mundo gostaria de ver. Agora, com essa injeção de US$ 600 bilhões nos próximos meses, quero ver qual é o coelho que o Mantega vai tirar da cartola para conter a subida do real. Não vai ter elevação do IOF que chegue. Mas não vão pensando que torço contra. Quero mais é que o dólar suba mesmo.
sábado, 2 de outubro de 2010
O negócio é o viés
Antes que a minha mãe ou algum outro leitor reclame de eu ter escrito em inglês, segue uma tradução livre, bem livre.
Uma das principais manchetes no site da CNN hoje é “Ex-guerrilheira concorre à presidência no Brasil”. O link vai cair num artigo com o título “Ex-guerrilheira marxista concorre para ser a primeira presidente do Brasil”. Fico pensando que sensação uma frase como essa provoca ao norte do Rio Grande. Os americanos de direita podem até pensar: “Ai meu Deus, o Brasil vai virar uma Venezuela. Temos que fazer alguma coisa. Calma, o bicho não é tão feio quanto parece. É certo que a Dilma e o PT têm um quê de socialismo, o que é um eufemismo, mas os tempos são outros. O mais importante é que estou convicto de que existem pesos e contrapesos suficientes para evitar que eles transformem o país em algo que possa ser fonte de preocupação. A outra possibilidade é que a CNN estava apenas tentando atrair a atenção dos leitores. Alguma coisa como “Candidata do Lula rumo à vitória no Brasil” não teria surtido o mesmo efeito que o título escolhido, pois muitos dos americanos que apenas olham para o seu umbigo provavelmente pensariam, “Quem é esse tal de Lula? E daí?” Não, ainda acho que, mais do que qualquer outra coisa, foi viés mesmo.
Uma das principais manchetes no site da CNN hoje é “Ex-guerrilheira concorre à presidência no Brasil”. O link vai cair num artigo com o título “Ex-guerrilheira marxista concorre para ser a primeira presidente do Brasil”. Fico pensando que sensação uma frase como essa provoca ao norte do Rio Grande. Os americanos de direita podem até pensar: “Ai meu Deus, o Brasil vai virar uma Venezuela. Temos que fazer alguma coisa. Calma, o bicho não é tão feio quanto parece. É certo que a Dilma e o PT têm um quê de socialismo, o que é um eufemismo, mas os tempos são outros. O mais importante é que estou convicto de que existem pesos e contrapesos suficientes para evitar que eles transformem o país em algo que possa ser fonte de preocupação. A outra possibilidade é que a CNN estava apenas tentando atrair a atenção dos leitores. Alguma coisa como “Candidata do Lula rumo à vitória no Brasil” não teria surtido o mesmo efeito que o título escolhido, pois muitos dos americanos que apenas olham para o seu umbigo provavelmente pensariam, “Quem é esse tal de Lula? E daí?” Não, ainda acho que, mais do que qualquer outra coisa, foi viés mesmo.
It’s all about bias
One of the top stories on CNN's website today is “Ex-guerrilla vies for Brazil's presidency”. The link takes you to a story entitled “Former Marxist guerrilla vying to be Brazil's first female president.” It leaves me wondering what kind of feelings that provokes north of the Rio Grande. Right-wing Americans might even think, "Oh! My God, Brazil is turning into Venezuela. We have to do something about it!" Easy, that’s not as bad as it looks. Ms. Rousseff and her Workers’ Party certainly have a red, socialist tinge, to put it mildly, but times have changed. More importantly, I strongly believe there are enough checks and balances in place to keep them from turning the country into anything that could be cause for concern. The other possibility is that CNN just went for the attention grabber. Something in the vein of “Lula-groomed candidate poised to take victory in Brazil” would not have produced the same effect as the title they chose, as many navel-gazing Americans would likely go, "Who is Lula anyway? Who cares?" Nope, I still think it's more about bias than anything else.
terça-feira, 6 de abril de 2010
iPad
Daqui de longe, a olho nu, o iPad me parece mais um iPod tamanho-família, um iPodão (Touch, claro). O pior é ver a turma fazer fila e comemorar a compra como se fosse o nascimento de um filho. Já virou mania adquirir o aparelho mais moderno simplesmente para não ficar de fora. E se for da Apple, a histeria parece ser maior. Aquilo deixou de ser empresa há muito tempo. Virou um culto, uma seita. A loja de Nova Iorque, na esquina do Central Park, é a Meca deles. Olha, se o Steve Jobs engarrafasse lama, pusesse aquele logotipo da Apple no vasilhame e vendesse, acho que gente à beça compraria e os mais fanáticos ainda beberiam o conteúdo. Deixemos a poeira baixar e aguardemos uma nova versão.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Com ou sem nota?
Minha cunhada, a quem sou muito grato, nos passou alguns móveis para que não ficássemos sem nada, esperando nossa mudança chegar. Nessa pequena mudança que chegou aqui na semana passada, vieram sofá, colchão, mesa e cadeiras de jantar, geladeira, fogão, mas ficou faltando o tampo de vidro de uma mesa de escritório. Logo isso! E eu precisando de uma mesa para começar a montar a minha bodeguinha e voltar a trabalhar.
Telefonei para uma vidraçaria daqui da cidade para ver quanto sairia para fazer esse vidro. A moça me deu lá um preço e disse que era sem nota. Se eu quisesse com nota, o marido dela teria que acrescer uma taxa a esse valor. Depois de oito anos nos EUA sem ter ouvido uma coisa dessas, isso soa até engraçado. É bem a cara do Brasil. Como a emissão da nota fiscal obriga a emissor a pagar o imposto, não emiti-la é uma das formas que temos de driblar o fisco. Lá nos EUA, onde os impostos também causam irritação, há até quem pegue um avião e jogue-o contra o prédio da Receita de lá, como fez aquele idiota em Austin. Cada um com seu problema e com sua solução.
No fim das contas, tem-se um círculo vicioso. Procura-se evadir e elidir porque os impostos são escorchantes. Mas os impostos são altos porque pouca gente paga. Será que, se fossem mais baixos, mais gente pagaria? Tenho minhas dúvidas, sobretudo se pensarmos na índole do brasileiro e imaginarmos que talvez os impostos nunca seriam baixos o suficiente. Para piorar, é no mínimo desestimulante pagar impostos e ver onde o nosso dinheiro vai parar. Salários de servidores públicos que não servem, bolso de vagabundo e por aí vai. Um amigo nos EUA dizia que tinha prazer em pagar imposto lá, pois ao menos tínhamos um retorno do governo na forma de serviços de qualidade. Ainda falta muito para chegarmos a esse estágio.
Telefonei para uma vidraçaria daqui da cidade para ver quanto sairia para fazer esse vidro. A moça me deu lá um preço e disse que era sem nota. Se eu quisesse com nota, o marido dela teria que acrescer uma taxa a esse valor. Depois de oito anos nos EUA sem ter ouvido uma coisa dessas, isso soa até engraçado. É bem a cara do Brasil. Como a emissão da nota fiscal obriga a emissor a pagar o imposto, não emiti-la é uma das formas que temos de driblar o fisco. Lá nos EUA, onde os impostos também causam irritação, há até quem pegue um avião e jogue-o contra o prédio da Receita de lá, como fez aquele idiota em Austin. Cada um com seu problema e com sua solução.
No fim das contas, tem-se um círculo vicioso. Procura-se evadir e elidir porque os impostos são escorchantes. Mas os impostos são altos porque pouca gente paga. Será que, se fossem mais baixos, mais gente pagaria? Tenho minhas dúvidas, sobretudo se pensarmos na índole do brasileiro e imaginarmos que talvez os impostos nunca seriam baixos o suficiente. Para piorar, é no mínimo desestimulante pagar impostos e ver onde o nosso dinheiro vai parar. Salários de servidores públicos que não servem, bolso de vagabundo e por aí vai. Um amigo nos EUA dizia que tinha prazer em pagar imposto lá, pois ao menos tínhamos um retorno do governo na forma de serviços de qualidade. Ainda falta muito para chegarmos a esse estágio.
O negócio é frouxo mesmo
No domingo de noitinha, estava eu num Carrefour bairro, na fila do caixa. À minha frente, dois rapazinhos, de piercing, barba por fazer, roupa preta meio alternativa, cara de poucos amigos. Portavam umas latas de cerveja e uma latinha de pinga. Aparentavam ter por volta de 18 anos. Fiquei esperando o procedimento da caixa. Será que ela pediria a identidade dos dois? Não fez nada; imperturbável, passou as compras. Eu quase abri a boca para chamar-lhe a atenção e perguntar se ela não verificaria a idade dos dois, mas achei por bem me calar.
Nos EUA, o caixa certamente teria inquirido os dois. Eu frequentava um supermercado em que, nos caixas, ficava afixado um aviso bem claro: se você aparentar ter menos de 35 anos, lhe pediremos identificação. Num outro, acho que o Wegmans, lhe pediam a identidade ao comprar bebida alcoólica qualquer que fosse a sua idade. Nós, macacos de auditório dos americanos, deveríamos copiar essas coisas, mas os maus exemplos parecem exercer fascínio maior. Esculhambação este Brasil.
Nos EUA, o caixa certamente teria inquirido os dois. Eu frequentava um supermercado em que, nos caixas, ficava afixado um aviso bem claro: se você aparentar ter menos de 35 anos, lhe pediremos identificação. Num outro, acho que o Wegmans, lhe pediam a identidade ao comprar bebida alcoólica qualquer que fosse a sua idade. Nós, macacos de auditório dos americanos, deveríamos copiar essas coisas, mas os maus exemplos parecem exercer fascínio maior. Esculhambação este Brasil.
Celular
Há umas duas semanas, fiz um tour pelas lojas das operadoras de celular para me inteirar dos planos. Enquanto ouvia a explicação de cada vendedora, não conseguia me livrar da sensação de que seria logrado. Como é caro e complicado servico de celular aqui! Lá nos EUA, pagava 90 dólares por mês. O plano era dos mais simples, mas nos atendia bem. Eram 450 minutos para dividir com a Érica, ligações gratuitas do meu celular para o dela e vice-versa e acessso ilimitado à Internet pelo iPhone (desses US$ 90, US$ 30 eram para o plano de dados). E ainda podia fazer ligações sem tarifa alguma no fim de semana e à noite e os minutos que não eram usados eram acrescidos ao saldo do mês seguinte. Ah! Não havia nada de roaming. Os minutos valiam para o país inteiro e não me cobravam mais porque eu estava ligando de Washington, Boston ou Nova Iorque. Aqui, já estou me preparando para morrer nuns 300 reais ou mais por mês. Como praticamente todo o resto que vi neste meu primeiro mês de volta ao Brasil, celular é caro, muito caro.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Tempo louco
Enquanto a gente passa um calor do cão aqui no interior paulista, a neve vem causando estragos em Washington e região. Houve uma forte nevasca da sexta para o sábado, mais forte do que a que pegamos em dezembro, pelo que sei. A cidade está “fechada” desde a sexta. Ontem uma amiga nos escreveu para contar que, em algumas casas na vizinhança dela, o telhado simplesmente havia cedido e vindo abaixo por causa do peso da neve, que havia se transformado em gelo. Uma ex-colega do trabalho me disse que havia faltado energia na casa dela por um dia inteiro. Falta de energia significa nada de aquecimento. Aí o negócio é se agasalhar da melhor maneira possível. Para agravar a situação, viria mais neve de ontem para hoje. Oxalá esse inverno passe logo.
Mas voltando ao calor, eis um negócio que eu não suporto. Costumo me queixar à beça do tempo daqui, desse calor terceiro-mundista. Mas peraí! Por que terceiro-mundista? Tudo bem, também faz calor no primeiro mundo, admitamos. Eu me lembro de uma vez em que estive em Nova Iorque, em julho de 1998, dias após aquela desastrosa final do Mundial da França. Foi verão para ninguém botar defeito. Andávemos pela cidade tentando passar por baixo das marquises para pegar uma sombrinha. Quando dava, passávamos por dentro de uma loja para podermos aproveitar um pouquinho de ar refrigerado.
Mas o ponto em que eu queria chegar é que há uma diferença crucial entre os dois calorões: lá nos EUA, você só sente calor se quiser ou se precisar. Basta entrar numa casa ou prédio ou loja, o que seja. Praticamente todo lugar tem ar condicionado, o que tem lá seus problemas, o que é assunto para outro dia. Aqui no Brasil, a gente sabe bem que não é assim. Quem tem a casa todinha à prova de calor, com todos os cômodos refrigerados? Eu não conheço. No máximo são um ou dois cômodos da casa com ar condicionado, pois a conta de luz é proibitiva. No fim, salvo raras exceções, como uma repartição ou um escritório, passa-se calor o dia inteiro. E tome ventilador e banho para aliviar. É a isso que me refiro quando falo em calor terceiro-mundista.
Mas voltando ao calor, eis um negócio que eu não suporto. Costumo me queixar à beça do tempo daqui, desse calor terceiro-mundista. Mas peraí! Por que terceiro-mundista? Tudo bem, também faz calor no primeiro mundo, admitamos. Eu me lembro de uma vez em que estive em Nova Iorque, em julho de 1998, dias após aquela desastrosa final do Mundial da França. Foi verão para ninguém botar defeito. Andávemos pela cidade tentando passar por baixo das marquises para pegar uma sombrinha. Quando dava, passávamos por dentro de uma loja para podermos aproveitar um pouquinho de ar refrigerado.
Mas o ponto em que eu queria chegar é que há uma diferença crucial entre os dois calorões: lá nos EUA, você só sente calor se quiser ou se precisar. Basta entrar numa casa ou prédio ou loja, o que seja. Praticamente todo lugar tem ar condicionado, o que tem lá seus problemas, o que é assunto para outro dia. Aqui no Brasil, a gente sabe bem que não é assim. Quem tem a casa todinha à prova de calor, com todos os cômodos refrigerados? Eu não conheço. No máximo são um ou dois cômodos da casa com ar condicionado, pois a conta de luz é proibitiva. No fim, salvo raras exceções, como uma repartição ou um escritório, passa-se calor o dia inteiro. E tome ventilador e banho para aliviar. É a isso que me refiro quando falo em calor terceiro-mundista.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
E Washington ficou para trás
Deixamos Washington no sábado, 16 de janeiro. Ufa! Foi uma pedreira. Após a partida do contêiner, chegamos a imaginar que teríamos umas duas semanas tranquilas para passear e curtir a cidade que tão bem nos acolheu por oito anos. Estávamos redondamente enganados e nem imaginávamos o que teríamos pela frente. Foi um período cansativo, de muito aborrecimento e problemas com a empresa de mudança, que infelizmente ainda não chegaram todos ao fim. Mas deixemos isso pra lá.
As lembranças que queremos guardar são as dos amigos, muitos, que fizemos nesses oito anos. Pessoas que estiveram com a gente até quase o último momento. São grandes amizades, que durarão para sempre. Também guardarei com carinho a rica experiência profissional e de vida que adquiri nesses oito anos, experiência esta que vai me ajudar na minha caminhada futura. Por tudo isso e muito mais, só tenho a agradecer à cidade. Obrigado, Washington!
Em nossos dois últimos dias em Washington houve, claro, momentos de emoção. Na sexta-feira, Clarissa foi ao seu último dia na escola em que estudava. Uns dias antes, ela havia dito que não queria chorar na frente dos coleguinhas. Ao deixá-la de manhã, era eu quem pelejava para controlar as lágrimas. Imaginava o que passava pela cabecinha dela. Mas foi só ela sair do carro que eu não me segurei. Fiz o caminho de volta às lágrimas. Mas não posso pôr a culpa só na Clarissa. Também havia naquele choro emoções só minhas, que eu havia contido nos últimos dois meses.
Mas houve também um momento no mínimo cômico. No caminho de volta, passei na lavanderia, pois precisava apanhar umas camisas que enviaria na mudança que seguiria por avião. Entrei no estabelecimento, peguei as camisas e me despedi do senhor coreano que me atendia na maioria das vezes em que eu ia lá. Agradeci a ele os anos de serviços prestados e lhe disse que estava indo embora para o Brasil. Em meio a isso tudo, tive novamente que conter o choro. Já imaginaram que patético? Chorar ao se despedir do coreano da lavanderia?! É nisso que dá deixar as emoções todas para a última hora.
Já no avião, rumo a Orlando, também precisei me segurar. Clarissa certamente foi quem mais sentiu ter de deixar Washington. Ela gostava muito da escola e estava muito apegada aos colegas de classe. Enquanto o avião taxiava, Clarissa olhava pela janela, chorava e vinha se encostar no meu ombro. E eu ali, me segurando, tentando ser forte para apenas confortá-la e tentar de alguma forma fazê-la perceber que dias melhores viriam. Mas aí ela voltava para a janela e chorava mais. Isso se repetiu até um pouco depois da decolagem. Foi duro. Mas agora isso são águas passadas. Na segunda-feira que vem, na nova escola, ela descobrirá novos amigos, que se juntarão aos antigos, e tudo acabará bem.
Nos próximos dias, Orlando e a Disney, um encontro curioso e minhas primeiras impressões do Brasil. Até lá.
As lembranças que queremos guardar são as dos amigos, muitos, que fizemos nesses oito anos. Pessoas que estiveram com a gente até quase o último momento. São grandes amizades, que durarão para sempre. Também guardarei com carinho a rica experiência profissional e de vida que adquiri nesses oito anos, experiência esta que vai me ajudar na minha caminhada futura. Por tudo isso e muito mais, só tenho a agradecer à cidade. Obrigado, Washington!
x - x - x - x
Em nossos dois últimos dias em Washington houve, claro, momentos de emoção. Na sexta-feira, Clarissa foi ao seu último dia na escola em que estudava. Uns dias antes, ela havia dito que não queria chorar na frente dos coleguinhas. Ao deixá-la de manhã, era eu quem pelejava para controlar as lágrimas. Imaginava o que passava pela cabecinha dela. Mas foi só ela sair do carro que eu não me segurei. Fiz o caminho de volta às lágrimas. Mas não posso pôr a culpa só na Clarissa. Também havia naquele choro emoções só minhas, que eu havia contido nos últimos dois meses.
Mas houve também um momento no mínimo cômico. No caminho de volta, passei na lavanderia, pois precisava apanhar umas camisas que enviaria na mudança que seguiria por avião. Entrei no estabelecimento, peguei as camisas e me despedi do senhor coreano que me atendia na maioria das vezes em que eu ia lá. Agradeci a ele os anos de serviços prestados e lhe disse que estava indo embora para o Brasil. Em meio a isso tudo, tive novamente que conter o choro. Já imaginaram que patético? Chorar ao se despedir do coreano da lavanderia?! É nisso que dá deixar as emoções todas para a última hora.
Já no avião, rumo a Orlando, também precisei me segurar. Clarissa certamente foi quem mais sentiu ter de deixar Washington. Ela gostava muito da escola e estava muito apegada aos colegas de classe. Enquanto o avião taxiava, Clarissa olhava pela janela, chorava e vinha se encostar no meu ombro. E eu ali, me segurando, tentando ser forte para apenas confortá-la e tentar de alguma forma fazê-la perceber que dias melhores viriam. Mas aí ela voltava para a janela e chorava mais. Isso se repetiu até um pouco depois da decolagem. Foi duro. Mas agora isso são águas passadas. Na segunda-feira que vem, na nova escola, ela descobrirá novos amigos, que se juntarão aos antigos, e tudo acabará bem.
Nos próximos dias, Orlando e a Disney, um encontro curioso e minhas primeiras impressões do Brasil. Até lá.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Terrorismo de verdade
Quando se fala em terrorismo, pensa-se logo no ocorrido no 11 de setembro ou nos episódios recentes em Londres, um dia após o anúncio da cidade como sede das próximas olimpíadas, Madri, onde uma série de explosões no sistema de metrô mataram quase duas centenas de pessoas, e Bombaim, na Índia, onde ataques coordenados a lugares públicos como hotéis e um hospital vitimaram mais de 170. Perto desses episódios, é difícil imaginar que duas pessoas poderiam espalhar o terror e deixar uma região metropolitana inteira de joelhos. Pois foi exatamente isso o que ocorreu em 2002, provando que não é necessário seqüestrar um avião ou lançar mão de explosivos para semear o terror. Bastam dois idiotas com uma idéia errada na cabeça.
Essa história teve provavelmente o seu último capítulo. Foi executado na noite de ontem, com uma injeção letal, John Allen Muhammad, que entrou para a história por ter orquestrado uma série de atentados na região de Washington em outubro de 2002. Num período de três semanas, Muhammad e o então menor Lee Boyd Malvo mataram 10 pessoas e feriram outras três sem nenhuma ligação entre elas e aterrorizaram uma região que ainda se recuperava dos ataques terroristas de 11 de setembro do ano anterior.
Os assassinos escolhiam suas vítimas aleatoriamente e as alvejavam de dentro do porta-malas de um carro. No início, foram sete pessoas no espaço de dois dias, cinco delas no mesmo dia. O medo se espalhou rapidamente, pois os assassinos não se concentraram numa determinada área. Antes, começaram no estado de Maryland e depois seguiram para Virgínia, passando pelo Distrito de Colúmbia, onde mataram um homem. Qualquer um poderia ser uma vítima; bastava estar na rua. Dois episódios ficaram na minha memória.
Naquele ano, morávamos em Crystal City, na cidade de Arlington. Felizmente, o meu trajeto até o trabalho era bastante tranqüilo porque eu não precisava sair à rua. Nosso prédio tinha uma saída que dava para uma galeria subterrânea de lojas e serviços que levava até a estação de metrô. Eram seis estações até a minha. Para minha sorte, o prédio em que trabalhava ficava exatamente sobre a estação de metrô. Uma escada rolante fazia a comunicação entre a estação e a entrada do prédio. Em meio àquele terror, era tudo de que eu precisava.
Mas um dia, tive que ir ao prédio principal do Fundo, a dois quarteirões de onde eu trabalhava. Naquela altura, já havia ocorrido o assassinato no Distrito de Colúmbia. O que havia de comum entre as vítimas era que, no momento em que foram alvejadas, estavam paradas ou andando despreocupadamente. O negócio era não ficar parado para não dar chance ao sujeito. Ao chegar perto do cruzamento da 19th St. com a Pennsylvania, o sinal estava fechado e eu teria que esperar. Não teve outra: fiquei zanzando de um lado para o outro. Se ele tivesse que atirar em mim, eu não seria um alvo fácil.
Num sábado, iríamos a uma festa na casa de uma amiga em Germantown, Maryland, que ficava razoavelmente longe da nossa casa. O problema era que a gasolina do carro não daria para irmos e voltarmos e, ninguém esquecia, uma das vítimas havia sido morta enquanto abastecia o seu táxi. Que dureza! Não podíamos deixar de ir à festa, então não houve saída. Fomos ao posto onde costumávamos abastecer. Vale lembrar que aqui, como na maioria dos estados americanos, não há frentistas nos postos. É o próprio motorista quem abastece. Mas eu não vou me esquecer da cena nunca mais. Uma senhora parou, desceu, enfiou a mangueira de abastecimento no carro e voltou rapidinho pra dentro do veículo, onde ficou toda encolhidinha. Eu, um tantinho mais corajoso, fiquei do lado de fora, mas me vali do mesmo expediente: andei pra lá e pra cá enquanto tentava adivinhar onde o safado poderia estar escondido.
Pode-se dizer que o mais perto que os assassinos estiveram de nós foi quando mataram uma senhora no estacionamento do Home Depot da Arlington Boulevard onde fizemos compras algumas vezes. Assim como em todos os outros casos, era a pessoa errada no lugar errado. Enfim, quando John Muhammad e Lee Malvo foram presos, houve um misto de alívio, claro, e surpresa, pois ninguém imaginava as circunstâncias em que os crimes ocorreram nem que um adulto e um menor podiam ter iludido a polícia por tanto tempo. Com a morte de Muhammad, restou Malvo. Como era menor quando cometeu os crimes — atirou em três pessoas, inclusive na senhora do Home Depot —, não pôde receber a pena capital, mas passará o resto de seus dias na cadeia.
Essa história teve provavelmente o seu último capítulo. Foi executado na noite de ontem, com uma injeção letal, John Allen Muhammad, que entrou para a história por ter orquestrado uma série de atentados na região de Washington em outubro de 2002. Num período de três semanas, Muhammad e o então menor Lee Boyd Malvo mataram 10 pessoas e feriram outras três sem nenhuma ligação entre elas e aterrorizaram uma região que ainda se recuperava dos ataques terroristas de 11 de setembro do ano anterior.
Os assassinos escolhiam suas vítimas aleatoriamente e as alvejavam de dentro do porta-malas de um carro. No início, foram sete pessoas no espaço de dois dias, cinco delas no mesmo dia. O medo se espalhou rapidamente, pois os assassinos não se concentraram numa determinada área. Antes, começaram no estado de Maryland e depois seguiram para Virgínia, passando pelo Distrito de Colúmbia, onde mataram um homem. Qualquer um poderia ser uma vítima; bastava estar na rua. Dois episódios ficaram na minha memória.
Naquele ano, morávamos em Crystal City, na cidade de Arlington. Felizmente, o meu trajeto até o trabalho era bastante tranqüilo porque eu não precisava sair à rua. Nosso prédio tinha uma saída que dava para uma galeria subterrânea de lojas e serviços que levava até a estação de metrô. Eram seis estações até a minha. Para minha sorte, o prédio em que trabalhava ficava exatamente sobre a estação de metrô. Uma escada rolante fazia a comunicação entre a estação e a entrada do prédio. Em meio àquele terror, era tudo de que eu precisava.
Mas um dia, tive que ir ao prédio principal do Fundo, a dois quarteirões de onde eu trabalhava. Naquela altura, já havia ocorrido o assassinato no Distrito de Colúmbia. O que havia de comum entre as vítimas era que, no momento em que foram alvejadas, estavam paradas ou andando despreocupadamente. O negócio era não ficar parado para não dar chance ao sujeito. Ao chegar perto do cruzamento da 19th St. com a Pennsylvania, o sinal estava fechado e eu teria que esperar. Não teve outra: fiquei zanzando de um lado para o outro. Se ele tivesse que atirar em mim, eu não seria um alvo fácil.
Num sábado, iríamos a uma festa na casa de uma amiga em Germantown, Maryland, que ficava razoavelmente longe da nossa casa. O problema era que a gasolina do carro não daria para irmos e voltarmos e, ninguém esquecia, uma das vítimas havia sido morta enquanto abastecia o seu táxi. Que dureza! Não podíamos deixar de ir à festa, então não houve saída. Fomos ao posto onde costumávamos abastecer. Vale lembrar que aqui, como na maioria dos estados americanos, não há frentistas nos postos. É o próprio motorista quem abastece. Mas eu não vou me esquecer da cena nunca mais. Uma senhora parou, desceu, enfiou a mangueira de abastecimento no carro e voltou rapidinho pra dentro do veículo, onde ficou toda encolhidinha. Eu, um tantinho mais corajoso, fiquei do lado de fora, mas me vali do mesmo expediente: andei pra lá e pra cá enquanto tentava adivinhar onde o safado poderia estar escondido.
Pode-se dizer que o mais perto que os assassinos estiveram de nós foi quando mataram uma senhora no estacionamento do Home Depot da Arlington Boulevard onde fizemos compras algumas vezes. Assim como em todos os outros casos, era a pessoa errada no lugar errado. Enfim, quando John Muhammad e Lee Malvo foram presos, houve um misto de alívio, claro, e surpresa, pois ninguém imaginava as circunstâncias em que os crimes ocorreram nem que um adulto e um menor podiam ter iludido a polícia por tanto tempo. Com a morte de Muhammad, restou Malvo. Como era menor quando cometeu os crimes — atirou em três pessoas, inclusive na senhora do Home Depot —, não pôde receber a pena capital, mas passará o resto de seus dias na cadeia.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Let’s play ball!
Que história é essa de play ball? Afinal de contas, isso não vai ser ouvido até o ano que vem. Ontem os Yankees, de Nova Iorque, derrotaram os Phillies, da Filadélfia, na sexta partida e fecharam a World Series, a série de sete jogos que decide o campeonato de beisebol dos Estados Unidos. Agora são 27 World Series para os Yankees, os maiores campeões da história do beisebol americano e a equipe com mais títulos entre todos as equipes de esportes profissionais disputados nos EUA.
O beisebol é mais do que um esporte para os americanos. É o national pastime, o passatempo nacional. Mas nunca me agradou. Quando morava na Califórnia, ligava a TV no começo da tarde e jogavam os Dodgers, de Los Angeles, contra uma equipe lá qualquer. Não me interessava nem um pouquinho e eu simplesmente desligava o aparelho. No fim da tarde, umas três horas depois, tornava a ligar a TV e os caras ainda estavam jogando. Já imaginou? Eu ficava pensando nos pobres que estavam lá assistindo ao jogo no estádio. Um joguinho que não acaba nunca. Mas uma vez, um colega inglês me disse que uma partida de críquete podia muito bem durar dois dias. Jesus crucificado!
Contribuía para a minha birra com o beisebol o fato de eu não entender o jogo. O arremessador pegava a bola, se punha lá naquele montinho e aí vinha aquele ritual: girava o braço, mascava sei lá o quê (fumo, descobri depois), cuspia, coçava o saco, girava de novo o braço, coçava mais uma vez e arremessava. Do outro lado, o rebatedor nem se mexia. E eu olhando aquilo. Depois de toda aquela mise-en-scène, o cara nem fazia menção de rebater a bola?! Tá louco! Tremenda perda de tempo.
Adiantemos uns bons 10 anos, até 2003. Era a noite de 15 de outubro e eu estava no Hospital George Washington. Clarissa havia nascido de manhã e eu acompanhava mamãe Érica no hospital. As luzes do quarto apagadas e eu lá, embutido num sofá-cama extremamente desconfortável. Decidi ligar a TV e ver o que passava. Num dos canais, beisebol, World Series. Resolvi assistir, com a TV quase sem som. Comecei a entender o jogo. Strikes, outs e por aí vai. Havia uma área imaginária, a zona de strike, onde a bola devia ser arremessada. Se viesse fora daquela área, o rebatedor nem precisava se preocupar. Era por isso que ele não fazia menção de rebater. Ah! Agora sim.
Entendi o suficiente do jogo para não ficar boiando, mas ainda assim não aprendi a gostar dele. Tanto que só agora, após sete anos e meio vivendo aqui em Washington e outros dois na Califórnia, resolvi ir a um ballpark, como eles chamam os estádios de beisebol. Já havia visto ao vivo todos os principais esportes deles: basquete, futebol americano, hóquei no gelo, tênis. Não poderia ir embora daqui sem ir a um jogo de beisebol. Imbuído desse espírito, peguei o metrô no dia 9 de setembro e fui ao National Park ver os Nationals, o pior time da liga, enfrentar os Phillies, os campeões de 2008. Claro, eu nem sabia que os Phillies haviam se sagrado campeões no ano anterior. Fui descobrir isso durante o jogo.
A primeira impressão foi muito boa. O National Park é muito bonito, com tudo muito limpo e organizado. Pena que eram tão poucas pessoas para o tamanho do estádio; estavam mais para testemunhas do que torcedores. Já era o fim da temporada regular e, se considerarmos que cada equipe joga 162 partidas no ano, sem contar os playoffs, os torcedores de Washington já deviam estar cansados de ver o time apanhar. Vale notar também que, conforme mencionei na semana passada, os torcedores de um e de outro time ficam misturados, sem atrito.
O jogo propriamente dito é enfadonho. É o esporte perfeito para a TV, pois é um interminável para-e-continua. E você fica ali sentado vendo aquilo. Vez ou outra o rebatedor acerta a bola e aí é aquela empolgação, que dura pouco. Os lances são muito rápidos e esses momentos não devem somar nem um terço do tempo total da partida. Enquanto isso, a turma come. E como come. E bebe também, claro. E parecem não dar a mínima bola para o que está ocorrendo no jogo. Você fica se perguntando se estão ali para ver o jogo ou para encher a pança. O pior é que nada é barato. Uma garrafinha de cerveja long neck custa 7,50 dólares. Com o que se paga por três garrafas, dá para ir ao Costco, um atacadista, e comprar uma caixa com 24 garrafas. Sai caro ir a um jogo desses. É por essas e outras que a turma aqui vive endividada.
Bom, no fim das contas, o jogo foi até disputado, porém o time da casa, como se esperava, acabou amargando mais uma derrota. Mas ainda havia outro jogo, pois eu queria conhecer mais um estádio. Mas isso é assunto pra amanhã. Boa noite.
O beisebol é mais do que um esporte para os americanos. É o national pastime, o passatempo nacional. Mas nunca me agradou. Quando morava na Califórnia, ligava a TV no começo da tarde e jogavam os Dodgers, de Los Angeles, contra uma equipe lá qualquer. Não me interessava nem um pouquinho e eu simplesmente desligava o aparelho. No fim da tarde, umas três horas depois, tornava a ligar a TV e os caras ainda estavam jogando. Já imaginou? Eu ficava pensando nos pobres que estavam lá assistindo ao jogo no estádio. Um joguinho que não acaba nunca. Mas uma vez, um colega inglês me disse que uma partida de críquete podia muito bem durar dois dias. Jesus crucificado!
Contribuía para a minha birra com o beisebol o fato de eu não entender o jogo. O arremessador pegava a bola, se punha lá naquele montinho e aí vinha aquele ritual: girava o braço, mascava sei lá o quê (fumo, descobri depois), cuspia, coçava o saco, girava de novo o braço, coçava mais uma vez e arremessava. Do outro lado, o rebatedor nem se mexia. E eu olhando aquilo. Depois de toda aquela mise-en-scène, o cara nem fazia menção de rebater a bola?! Tá louco! Tremenda perda de tempo.
Adiantemos uns bons 10 anos, até 2003. Era a noite de 15 de outubro e eu estava no Hospital George Washington. Clarissa havia nascido de manhã e eu acompanhava mamãe Érica no hospital. As luzes do quarto apagadas e eu lá, embutido num sofá-cama extremamente desconfortável. Decidi ligar a TV e ver o que passava. Num dos canais, beisebol, World Series. Resolvi assistir, com a TV quase sem som. Comecei a entender o jogo. Strikes, outs e por aí vai. Havia uma área imaginária, a zona de strike, onde a bola devia ser arremessada. Se viesse fora daquela área, o rebatedor nem precisava se preocupar. Era por isso que ele não fazia menção de rebater. Ah! Agora sim.
Entendi o suficiente do jogo para não ficar boiando, mas ainda assim não aprendi a gostar dele. Tanto que só agora, após sete anos e meio vivendo aqui em Washington e outros dois na Califórnia, resolvi ir a um ballpark, como eles chamam os estádios de beisebol. Já havia visto ao vivo todos os principais esportes deles: basquete, futebol americano, hóquei no gelo, tênis. Não poderia ir embora daqui sem ir a um jogo de beisebol. Imbuído desse espírito, peguei o metrô no dia 9 de setembro e fui ao National Park ver os Nationals, o pior time da liga, enfrentar os Phillies, os campeões de 2008. Claro, eu nem sabia que os Phillies haviam se sagrado campeões no ano anterior. Fui descobrir isso durante o jogo.
A primeira impressão foi muito boa. O National Park é muito bonito, com tudo muito limpo e organizado. Pena que eram tão poucas pessoas para o tamanho do estádio; estavam mais para testemunhas do que torcedores. Já era o fim da temporada regular e, se considerarmos que cada equipe joga 162 partidas no ano, sem contar os playoffs, os torcedores de Washington já deviam estar cansados de ver o time apanhar. Vale notar também que, conforme mencionei na semana passada, os torcedores de um e de outro time ficam misturados, sem atrito.
O jogo propriamente dito é enfadonho. É o esporte perfeito para a TV, pois é um interminável para-e-continua. E você fica ali sentado vendo aquilo. Vez ou outra o rebatedor acerta a bola e aí é aquela empolgação, que dura pouco. Os lances são muito rápidos e esses momentos não devem somar nem um terço do tempo total da partida. Enquanto isso, a turma come. E como come. E bebe também, claro. E parecem não dar a mínima bola para o que está ocorrendo no jogo. Você fica se perguntando se estão ali para ver o jogo ou para encher a pança. O pior é que nada é barato. Uma garrafinha de cerveja long neck custa 7,50 dólares. Com o que se paga por três garrafas, dá para ir ao Costco, um atacadista, e comprar uma caixa com 24 garrafas. Sai caro ir a um jogo desses. É por essas e outras que a turma aqui vive endividada.
Bom, no fim das contas, o jogo foi até disputado, porém o time da casa, como se esperava, acabou amargando mais uma derrota. Mas ainda havia outro jogo, pois eu queria conhecer mais um estádio. Mas isso é assunto pra amanhã. Boa noite.
domingo, 25 de outubro de 2009
Praça de esportes ou praça de guerra?
Muito falou-se nessa semana sobre esse Flamengo x Botafogo. O lógico seria jogar no Maracanã, mas o Botafogo preferiu fazer diferente. Como o Fogão é o mandante, optou por levar a partida para o Engenhão, como costuma fazer quando joga contra times de fora do Rio. Felizmente a prática de ceder apenas 10% dos ingressos para a torcida do visitante não vale para este jogo. Os ingressos foram divididos meio a meio, embora, ao que parece, não será fácil dividir as duas torcidas no estádio.
Na Gávea, do lado do Flamengo, já se falava do assunto antes mesmo do jogo contra o Palmeiras no domingo passado. Reclamou-se muito que jogar no Engenhão seria, no mínimo, uma imprudência. O time está embalado, a torcida rubro-negra é grande e certamente compareceria em peso. O estádio seria pequeno para acomodar todo o mundo e haveria confusão.
Do lado das autoridades e de quem organiza a partida, mais preocupação. O efetivo policial será de mil homens, o que me parece exagerado. Trezentos desses policiais atuarão dentro do estádio. O Botafogo também contratou seguranças particulares. Haverá uma delegacia móvel e uma carceragem! Se pensarmos que o Maracanã vai ser fechado para reformas a partir do início do ano que vem e que todos os clássicos vão ser jogados no Engenhão, será que vai ser esse Deus nos acuda todas as vezes que houver um jogão?
Uma pausa para acompanhar o noticiário. Torcedores dos dois clubes brigaram e causaram tumulto em Niterói; dois acabaram presos. Já nos arredores do estádio, torcedores do Flamengo e policiais estão se enfrentando. Derrubaram cerca, a polícia mandou bomba de efeito moral e gás de pimenta, aquela esculhambação que a gente já conhece. Será que vai ser sempre assim? Será que um dia o torcedor brasileiro toma jeito? Quando é que ir a uma praça de esportes no Brasil, sobretudo para ver um clássico, deixará de ser um programa de alto risco? Pelo jeito, mil policiais vão ser pouco.
Não posso deixar de comparar essa bagunça com o que ocorre aqui nos EUA. Um evento esportivo é, antes de tudo, um programa para toda a família. Dá para levar a criançada numa boa, sem medo algum. Não se vê briga, arruaça, e olha que aqui se vende bebida nos estádios. Ah! Tampouco se ouve palavrão como se ouve aí. Costumo dizer aos estrangeiros que, para aprender palavrão em português, o melhor curso é ir a um estádio de futebol no Brasil. Após dois tempos de 45 minutos, você sai catedrático no assunto.
Há quem diga que a situação nos estádios americanos é mais fácil de manter sob controle. Salvo raras exceções, os jogos são de uma torcida só, pois cada cidade tem apenas um representante em cada esporte ou campeonato. Não é bem o caso, e dou um exemplo. Fui assistir a um jogo do Nationals, o time de beisebol daqui, e havia muitos torcedores uniformizados do Phillies, clube rival, da Philadelphia. Não foram xingados, não levaram tapa na orelha, não levaram copo de cerveja (ou de coisa pior) nas costas.
Vamos sediar a Copa e as Olimpíadas, está na hora de aprendermos a nos comportar. Já que o povão brasileiro é tão macaco de auditório dos Estados Unidos e copia tantas coisas feitas por aqui, por que não seguimos esse bom exemplo da civilidade dos americanos nos estádios? Só teríamos a ganhar.
Na Gávea, do lado do Flamengo, já se falava do assunto antes mesmo do jogo contra o Palmeiras no domingo passado. Reclamou-se muito que jogar no Engenhão seria, no mínimo, uma imprudência. O time está embalado, a torcida rubro-negra é grande e certamente compareceria em peso. O estádio seria pequeno para acomodar todo o mundo e haveria confusão.
Do lado das autoridades e de quem organiza a partida, mais preocupação. O efetivo policial será de mil homens, o que me parece exagerado. Trezentos desses policiais atuarão dentro do estádio. O Botafogo também contratou seguranças particulares. Haverá uma delegacia móvel e uma carceragem! Se pensarmos que o Maracanã vai ser fechado para reformas a partir do início do ano que vem e que todos os clássicos vão ser jogados no Engenhão, será que vai ser esse Deus nos acuda todas as vezes que houver um jogão?
Uma pausa para acompanhar o noticiário. Torcedores dos dois clubes brigaram e causaram tumulto em Niterói; dois acabaram presos. Já nos arredores do estádio, torcedores do Flamengo e policiais estão se enfrentando. Derrubaram cerca, a polícia mandou bomba de efeito moral e gás de pimenta, aquela esculhambação que a gente já conhece. Será que vai ser sempre assim? Será que um dia o torcedor brasileiro toma jeito? Quando é que ir a uma praça de esportes no Brasil, sobretudo para ver um clássico, deixará de ser um programa de alto risco? Pelo jeito, mil policiais vão ser pouco.
Não posso deixar de comparar essa bagunça com o que ocorre aqui nos EUA. Um evento esportivo é, antes de tudo, um programa para toda a família. Dá para levar a criançada numa boa, sem medo algum. Não se vê briga, arruaça, e olha que aqui se vende bebida nos estádios. Ah! Tampouco se ouve palavrão como se ouve aí. Costumo dizer aos estrangeiros que, para aprender palavrão em português, o melhor curso é ir a um estádio de futebol no Brasil. Após dois tempos de 45 minutos, você sai catedrático no assunto.
Há quem diga que a situação nos estádios americanos é mais fácil de manter sob controle. Salvo raras exceções, os jogos são de uma torcida só, pois cada cidade tem apenas um representante em cada esporte ou campeonato. Não é bem o caso, e dou um exemplo. Fui assistir a um jogo do Nationals, o time de beisebol daqui, e havia muitos torcedores uniformizados do Phillies, clube rival, da Philadelphia. Não foram xingados, não levaram tapa na orelha, não levaram copo de cerveja (ou de coisa pior) nas costas.
Vamos sediar a Copa e as Olimpíadas, está na hora de aprendermos a nos comportar. Já que o povão brasileiro é tão macaco de auditório dos Estados Unidos e copia tantas coisas feitas por aqui, por que não seguimos esse bom exemplo da civilidade dos americanos nos estádios? Só teríamos a ganhar.
domingo, 11 de outubro de 2009
Em outro planeta
Aproveito o gancho do texto anterior para comentar um fato curioso. Todas as quintas-feiras, o Washington Post traz um suplemento com notícias locais de cada área administrativa daqui da região. No meu caso, recebo o caderno de Fairfax. Entre as várias notícias, vem uma relação das ocorrências criminais da semana. A maioria são crimes corriqueiros, que decerto não figurariam na crônica policial do Brasil. O que chama a atenção, sobretudo aqui em Vienna, é que todas as semanas há uns três ou quatro casos de objetos roubados do interior de veículos que haviam sido deixados destrancados. Parece que estamos em outro planeta. A sensação de segurança, ou a ingenuidade das pessoas, é tanta que nem se preocupam em trancar o carro. O difícil é explicar para esse povo que, no Brasil, mesmo se estacionarmos numa garagem privativa, instalarmos alarme e trancarmos o carro, vagabundo ainda assim acha um jeito de roubar-lhe o carro ou levar o que está dentro. Nessas horas, fica difícil pensar em voltar.
A criminalidade aumenta... e eu acho é bom
Para quem mora no Brasil, crime e violência são uma constante. Vive-se sobressaltado, torcendo, ou rezando, para não ser a próxima vítima. Aqui na região metropolitana de Washington, essa não é exatamente uma das minhas preocupações. A região é conhecida por ter áreas bastante tranqüilas, ao menos para nossos padrões tupiniquins, e um ou outro bolsão de violência, sobretudo onde predomina a população negra. De uns meses para cá, porém, temos tido notícias de um número crescente, embora ainda pequeno, de crimes aqui pelas redondezas.
Em agosto, quando estávamos no Brasil, um homem foi assaltado na avenida que passa em frente à nossa estação de metrô. Se bem me lembro do caso, ele voltava do trabalho quando foi abordado por dois homens, ainda com o dia claro. Deram-lhe uma ou duas pauladas e levaram-lhe a carteira, o celular e o laptop. E pensar que, durante uns bons anos, fiz esse mesmo caminho todos os dias.
Após a nossa volta, no início de setembro, uma moça foi atacada na frente do prédio onde morava. Um rapaz de origem hispânica a agarrou por trás, mas ela conseguiu se desvencilhar e correr. O local onde isso se deu fica bem próximo ao posto de gasolina em que costumamos abastecer. Aqui no nosso condomínio, roubou-se um aparelho de GPS de um carro. É bom lembrar que condomínio aqui não tem cancela, segurança armado, cerca elétrica, muro com caco de vidro em cima, aqueles itens básicos de segurança das cidades brasileiras.
Nas últimas semanas, houve duas tentativas de um outro tipo de crime que nos preocupa bem mais. Um tarado foi avistado em dois lugares diferentes tentando atrair e raptar crianças. Ele prefere lugares abertos, onde haja aglomeração. Um dos ataques foi numa aulinha de futebol, ao ar livre. Boa hora em que escolhemos para matricular o Rodrigo numa aula dessas. Mas que ninguém se preocupe porque o pai fica de olho no futuro craque, numa marcação cerrada.
Ontem, conversando com uns amigos, fiquei sabendo da última ocorrência, esta bem séria. Na última quinta-feira à noite, um funcionário graduado do FMI foi baleado na garagem de casa, ao chegar do trabalho. O bandido fugiu correndo e ainda não se tem pista dele. O que mais surpreende é que o crime tenha ocorrido em Bethesda, Maryland, uma região reconhecidamente tranqüila. Segundo as últimas notícias, a vítima continua internada, em estado grave.
Alguns desses crimes talvez sejam mais uma das indesejáveis conseqüências da crise econômica. Assim, são uma onda passageira e teremos menos ocorrências tão logo a economia entre nos eixos. Outros, claro, não têm relação direta com carestia ou penúria. Contudo, de uma forma ou de outra, consigo ver um lado bom nisso tudo. Se a situação continuar a piorar, não vou mais nem esquentar a cabeça com a iminência de uma possível volta ao Brasil, pois, em breve, a tão propalada criminalidade daí parecerá cada vez mais branda em comparação com a daqui.
Em agosto, quando estávamos no Brasil, um homem foi assaltado na avenida que passa em frente à nossa estação de metrô. Se bem me lembro do caso, ele voltava do trabalho quando foi abordado por dois homens, ainda com o dia claro. Deram-lhe uma ou duas pauladas e levaram-lhe a carteira, o celular e o laptop. E pensar que, durante uns bons anos, fiz esse mesmo caminho todos os dias.
Após a nossa volta, no início de setembro, uma moça foi atacada na frente do prédio onde morava. Um rapaz de origem hispânica a agarrou por trás, mas ela conseguiu se desvencilhar e correr. O local onde isso se deu fica bem próximo ao posto de gasolina em que costumamos abastecer. Aqui no nosso condomínio, roubou-se um aparelho de GPS de um carro. É bom lembrar que condomínio aqui não tem cancela, segurança armado, cerca elétrica, muro com caco de vidro em cima, aqueles itens básicos de segurança das cidades brasileiras.
Nas últimas semanas, houve duas tentativas de um outro tipo de crime que nos preocupa bem mais. Um tarado foi avistado em dois lugares diferentes tentando atrair e raptar crianças. Ele prefere lugares abertos, onde haja aglomeração. Um dos ataques foi numa aulinha de futebol, ao ar livre. Boa hora em que escolhemos para matricular o Rodrigo numa aula dessas. Mas que ninguém se preocupe porque o pai fica de olho no futuro craque, numa marcação cerrada.
Ontem, conversando com uns amigos, fiquei sabendo da última ocorrência, esta bem séria. Na última quinta-feira à noite, um funcionário graduado do FMI foi baleado na garagem de casa, ao chegar do trabalho. O bandido fugiu correndo e ainda não se tem pista dele. O que mais surpreende é que o crime tenha ocorrido em Bethesda, Maryland, uma região reconhecidamente tranqüila. Segundo as últimas notícias, a vítima continua internada, em estado grave.
Alguns desses crimes talvez sejam mais uma das indesejáveis conseqüências da crise econômica. Assim, são uma onda passageira e teremos menos ocorrências tão logo a economia entre nos eixos. Outros, claro, não têm relação direta com carestia ou penúria. Contudo, de uma forma ou de outra, consigo ver um lado bom nisso tudo. Se a situação continuar a piorar, não vou mais nem esquentar a cabeça com a iminência de uma possível volta ao Brasil, pois, em breve, a tão propalada criminalidade daí parecerá cada vez mais branda em comparação com a daqui.
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