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quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Copa e o tradutor

Corria o ano de 1998. Era a época da privatização das teles. Haviam montado no setor hoteleiro de Brasília, no prédio da Embratel, os chamados data rooms. Lá, as empresas interessadas em participar do leilão tinham acesso a todas as informações sobre as teles a serem vendidas. Só tinha um detalhe: nem uma folha poderia sair de lá. Então, acotovelavam-se advogados, contadores, intérpretes e tradutores para examinar tudo e depois dizer às respectivas matrizes no estrangeiro se o negócio era bom ou não. Uma colega de São Paulo me avisou que uma agência do Rio estava montando uma equipe para trabalhar lá. Eu me candidatei e entrei. Era o começo de uma aventura.

Nesse meio tempo, vivíamos a expectativa da Copa da França. O Brasil faria a partida de abertura do torneio contra a Escócia. No dia, fomos lá conversar com o nosso “feitor” para saber a que horas ele nos liberaria para irmos ver o jogo. O sujeito era americano, não fazia a mínima ideia da importância da ocasião e disse que ninguém sairia para ver jogo algum. Depois de muita conversa, conseguimos que ele nos deixasse sair uma hora antes da partida… mas com a condição de retornarmos uma hora depois do apito final. Melhor do que nada. Eu nem imaginava o trânsito que pegaria para chegar à casa da minha cunhada no Lago Sul. Parte da Avenida das Nações era estreitinha naquela época, não era como é hoje. Foi uma correria louca, quase não chego. Mas tudo bem: vitória do Brasil por 2 x 1 e lá foi todo o mundo comemorar enquanto eu, resignado, voltava ao trabalho.

E prosseguiram a Copa e as traduções nos data rooms. Era dureza, mas tive a felicidade de fazer amizade com um advogado de um grande escritório e isso logo me rendeu frutos. Na última semana da primeira fase, esse advogado me disse que tinha muito serviço de tradução e me perguntou se eu não queria dar uma passada lá no escritório deles para dar cabo disso. Ora se não! No sábado das quartas de final contra o Chile, lá fomos nós. Nós? Sim, eu, de camisa do Brasil (contrariando a recomendação de usar terno e gravata ao visitar um cliente) e um grande parceiro de muitos trabalhos na faculdade, muitas latas de marrom glacê e muitas sessões de Need for Speed antes de trabalhar. Saímos de lá carregados, com serviço para o resto da Copa.

Chegando em casa, transferi meu escritório para a sala, onde estava o TV grande que eu e minha mãe havíamos comprado quatro anos antes para ver o tetra. Computador na mesa de jantar e pau na máquina. Naquela tarde, enquanto trabalhava, vi o Brasil de Ronaldo e Rivaldo atropelar o Chile de Zamorano e Salas. Mas eu não tinha ideia do que estava por vir. Adoeci, peguei o maldito rotavírus. Foi um sofrimento só. Sofria com a Seleção (aquele jogo com a Holanda!), com o trabalho e com as dores no corpo, o febrão e as constantes idas ao banheiro (quem já teve sabe do suplício). As idas foram tantas que tive de comprar até uma boia, daquelas redondas com um buraco no meio, para poder sentar e trabalhar. O show não podia parar.

E veio a final. Acho que o fato de estar tão envolvido com o trabalho acabou sendo positivo. Estava tão lesado que não dei tanta bola para aquele acachapante 3 x 0. Felizmente, estava terminando o serviço e, no dia seguinte, viajaria para esquecer aquilo tudo. Foi uma batalha, mas consegui juntar dinheiro suficiente para dar um giro em Nova Iorque, com direito a Robert Plant e Jimmy Page no Madison Square Garden e Metallica no Giant Stadium, e trazer um laptop de primeira, novinho em folha. Ainda bem que hoje estou em casa, não precisarei enfrentar americano que não entende de futebol nem trânsito maluco. E, claro, espero me manter saudável até o fim da Copa. O sofrimento de torcer já vai ser mais do que suficiente.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Yes, we can! Not quite...

Estava lendo uma matéria no Estadão sobre o primeiro dos cinco shows que os Stones estão fazendo para celebrar os 50 anos da banda. Lá pelo meio do texto, o cidadão que traduziu o que havia sido escrito pelas agências internacionais se sai com o seguinte:

— Não podemos lhes agradecer o suficiente.
Que beleza é o inglês escrito com palavras portuguesas! Quem, em sã (ou mesmo malsã) consciência fala assim? Por que não algo mais natural em português, algo que produza o mesmo efeito?
— Não temos como agradecer a vocês.
Acho que é uma boa saída para o “we can’t thank you enough” dito pelo Jagger. Esse can traduzido como poder me mata. Para, olha, pensa. Nem sempre can é poder.
— I can’t talk right now. Não posso falar agora.
— Muito bem.
— I can’t swim. Não posso nadar.
— Não pode? Quem disse que não pode? Pode sim. Ninguém está te segurando. Pula na piscina. Se você “não sabe nadar”, até melhor. Que você se afogue para nunca mais se sair com uma tradução dessas.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Isto é anúncio que se apresente, Breitling?

"Quando somos apaixonados pela aeronáutica, partilhamos apenas os nossos voos com o mais lendário dos cronógrafos."

Gostou? Eu não. É a chamada da mais recente campanha da Breitling. Está em um anúncio no jornal e vinha me perturbando já há alguns dias. A frase original era esta:

"A man passionate about aviation and fine mechanisms only shares his flights with the ultimate chronograph legend."

Não estou me queixando da adaptação nem da eliminação desta ou daquela palavra. É que a frase em português é ruim mesmo, inclusive porque o "apenas" fora de lugar diz algo diferente do que foi dito na frase em inglês.

Abriram os cofres na hora de contratar o garoto-propaganda (o ator John Travolta), mas, pelo jeito, economizaram no tradutor. Qualquer semelhança com o que se vê por aí nas mais diversas áreas NÃO é mera coincidência.

O pior é que isso não vai afetar nem um pouco a venda dos tais cronógrafos (ou, com um português desses, cornógrafos). No fim das contas, a tradução não faz tanta diferença assim como alguns imaginam que ela faça. É triste, mas muitas vezes é essa a realidade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vida dura

Hoje me contactou uma gerente de projeto com uma proposta. Era um projeto com muitos arquivos, entrega em deferentes datas ao longo de outubro e um bom número de arquivos a serem devolvidos já nesta segunda. Para piorar, avisaram que o cliente estava com o dinheiro contado. Ou seja, além de ter que trabalhar no fim de semana, eu teria que trabalhar por pouco. A gente não tem refresco nem no nosso dia, ora! Como eu já havia planejado passar um fim de semana mais sossegado, sugeri à moça que talvez o cliente precisasse refazer seu planejamento e acrescer mais uns dias. Não me agrada nem um pouco a ideia de ficar trabalhando enquanto o cliente e a gerente de projeto passam um fim de semana tranquilo porque o trabalho está sendo feito. É só venha a nós, o vosso reino que é bom nada?!

Mas por que estou contando essa história? É a minha maneira de desejar um feliz Dia do Tradutor aos colegas (ainda não terminou; daqui a pouco vou tomar um vinhozinho para relaxar e marcar a data). Que nós tradutores saibamos nos impor, buscar sempre ganhos e condições de trabalho melhores e, acima de tudo, zelar pela nossa saúde. E que clientes com essas propostas indevidas se tornem minoria. Como diria um velho colega, a luta continua!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O time está lesionado

Ler o caderno de esportes do jornal se torna cada dia mais irritante e não é porque o meu time está mal das pernas. Antigamente, se falava em contusão, um atleta se contundia. Hoje em dia, só existe lesão. O cara vê injury, escreve lesão. Há não muito tempo, havia equipes nos mais diversos esportes. Ferrari, Williams eram equipes de F1. Agora é tudo time, mesmo longe do contexto esportivo. Ainda me lembro de quando visitei uma empresa nos EUA e a tradutora me mostrou onde ficava o "time de português". Pensei, "Sei...".

Se é para traduzir por reflexo, automaticamente, há quem o faça melhor do que nós e a um custo infinitamente menor: a máquina. Se você quer continuar a ganhar a vida traduzindo, faça-o direito porque senão vai ser alijado... e não demora muito. E não perco por esperar a substituição do bom e velho trabalho de equipe por algo mais moderno: o "trabalho de time". Safa!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Deu no Estadão: "Projeto do Senado libera contratação de professores universitários sem pós. Se aprovado, projeto de lei que deve ir à votação dia 12 alterará a Lei de Diretrizes e Bases e permitirá que graduados sem títulos deem aula em caráter temporário - status que pode ser renovado indefinidamente. Proposta agrada a instituições particulares."

Tem gente por aí que torceu o nariz, mas sabe que eu gostei da ideia? Eu me encaixaria nisso aí. Dei aula durante dois anos no curso de tradução da UnB como professor substituto e gostaria de voltar a dar aulas. Aula é uma cachaça, é bom demais. Mas como não tenho mestrado, quanto mais doutorado (não é o meu perfil), fico praticamente impedido. Mas tenho certeza de que, com a minha experiência, teria mais a oferecer aos alunos do que gente que está aí nas universidades Brasil afora apenas exibindo seu título de doutor e encangando grilo. Meu único temor é que o salário, que já é baixo, vai ser ainda menor. Se já fazem aquela safadeza de pagar a um doutor salário de mestre quando completam o mínimo de doutores exigido pelo MEC, imagina o que não farão com os pobres graduados. Vamos ver no que vai dar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Elucubrações tradutórias

Vinha eu ouvindo um artigo da Economist sobre systemically important financial institutions. Pensei comigo: quer apostar como escolheram a tradução mais feia para esse monstrengo? Fui ao Google:

Instituições financeiras sistemicamente importantes: 6270 páginas

Instituições financeiras de importância sistêmica (um pouco mais eufônico, sem o mente): 25 páginas

É nisso que dá deixar a tradução na mão do "pessoal da área" (no caso, na mão de economistas, gente, que, não raro, não tem lá muita intimidade com a inculta e bela). É por essas e outras que defendo que a tradução seja feita por um tradutor (um bom tradutor, claro, que conheça o assunto) e revisada por alguém da área. É a melhor maneira de garantir um trabalho de primeira.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Receita de sucesso

Acabei de enviar uma mensagem pelo Facebook. Surgiram na tela os dizeres: "Your message was successfully sent." Meu detector da possibilidade de tradução porca apitou. Para quem tem o Facebook em português, o que é que aparece nessa hora? Quem traduziu preferiu o simples e direto "sua mensagem foi enviada" ou ficou quebrando a cabeça para meter esse successful e produziu um monstrengo como "sua mensagem foi enviada com sucesso" ou "o envio da sua mensagem foi bem-sucedido"?

Se você ainda não percebeu, os anglofalantes são fissurados nesse negócio de sucesso e fracasso. A toda hora aparece failure ou success. He failed to do this, failed to do that. He successfully completed the task. É uma das muitas esquisitices da língua deles. Bom, de esquisitice o português também está cheio. Para que mais uma, né não? Quando aparecer successful e assemelhados, tradutor, olhe com carinho que, não raro, dá muito bem para você passar sem eles. A inculta e bela agradece.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tem de saber escrever, ora!

Minha mãe sempre teve uma bronca com o curso de tradução que fiz na universidade. Ela não entendia como a UnB podia aceitar alunos que não sabiam inglês e frequentavam o curso para aprender a língua, alguns praticamente desde o bê-a-bá. Achava que deveria ser aplicada uma prova de habilidade específica para separar o joio do trigo. Mal sabia ela que o problema não era apenas o inglês, mas também o português... Bom, ela sabia, claro, que não é boba, mas, infelizmente, os alunos não são os únicos que não sabem português. Há muitos profissionais por aí na mesma situação.

Nesta semana que se encerra, me deparei com algo escrito por um tradutor, com mais de 20 anos de janela, que parecia ainda não ter sido apresentado ao cujo (o pronome e não o cachorro do Stephen King) nem sabia pontuar direito. Depois de todo esse tempo, não aprendeu o básico? O pior, assustador até, é que ele tenha conseguido trabalho durante esses anos todos. Para mim, um tradutor que não sabe português é mais ou menos como um jogador de futebol coxo; não deveria estar em campo. Mas, no caso do nosso colega, a torcida não percebe que ele está matando o time. Ele é, como direi, um Rodrigo Alvim na lateral-esquerda do meu Flamengo.

Alguém poderia sair em defesa do colega dizendo que era apenas uma coisa informal, na Internet, que não se deve levar as coisas assim, a ferro e fogo. Acho que não devemos baixar a guarda. Muitos tradutores não se dão conta de que o que eles escrevem diariamente é um belo cartão de visitas do serviço que têm a oferecer. Quando vejo um colega cometer erros crassos, penso logo que nunca dividiria um trabalho com ele. Para quê? Para depois ter de ficar consertando vírgula, corrigindo crase, acertando a concordância? De jeito algum. E tampouco o recomendaria a um cliente meu.

Outro ponto importante pode ser depreendido desse caso. Vê-se que, assim como outros ofícios e profissões, a tradução é um negócio democrático. Você não precisa ser bom tradutor para trabalhar, ao menos em alguns nichos do mercado. Seja craque ou perna-de-pau, tem lugar para todo o mundo. É só alegria! Mas isso tem hora pra acabar. A tradução automática, o Google Translate e assemelhados estão melhorando. Para que pagar um tradutor ruim se o computador dá cabo do serviço e, cada vez mais, produz coisa melhor do que os de carne e osso? Aos poucos, essa turma da tradução “intercrural”, como diria um velho amigo e mestre, vai ser alijada do mercado. É só esperar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Verter ou não verter?

Numa troca de mensagens sobre as áreas em que me especializo e os tipos de serviço que presto, uma cliente pediu minha opinião sobre o termo "versão". Não sei exatamente o que ela tinha em mente, mas comecei a escrever. Depois de reler minha resposta, a achei até interessante e resolvi adaptá-la e transcrevê-la para cá.

Como termo, versão é apenas uma convenção. Convencionou-se, no Brasil e, se não me engano, apenas no Brasil, chamar a tradução para a língua estrangeira de versão. Poderia ser outro termo. Que tal transmudação? O que não dá é, como se vê muito por aí, tradutores e agências escreverem em seus websites coisas como "we do translations and versions" ou "we provide translation and version services". Um estrangeiro que desconheça as práticas do mercado local deve ficar sem entender.

Estou ciente de que esse é um segmento forte do mercado brasileiro. Na verdade, aqui no Brasil me aparece mais gente me pedindo para verter do que traduzir. Embora eu seja daqueles que acreditam que brasileiro não deveria estar traduzindo para o inglês, não fecho os olhos para o fato de que essa demanda acaba sendo atendida de uma forma ou de outra. Dependendo do serviço e do cliente, até encaro.

Também acredito que não é porque o sujeito é falante nativo de uma língua que ele vai fazer uma boa tradução. Não temos tradutores brasileiros fazendo trabalho porco em português? Também existem americanos cometendo barbaridades ao traduzir para o inglês. No fim das contas, o sujeito precisa ser bom tradutor. Vencida essa etapa é que vamos ver qual é a sua língua nativa.

Quando um brasileiro traduz do português para o inglês, ele tem a vantagem de entender melhor o que está sendo dito no original. Na verdade, há poucos tradutores qualificados no mundo que tenham o português como principal língua de partida. Normalmente, veem-se profissionais que já traduzem do francês ou do espanhol (há muito mais trabalho envolvendo essas línguas, claro) que aproveitam e se metem a traduzir também do português. Essa turma pena um pouco para entender o que se escreve em português e a maneira como as coisas (não) funcionam aqui. Já vi isso muito na minha carreira.

Mas tem o outro lado. Traduzir, no fim das contas, é escrever. Um falante nativo tem mais desenvoltura com a sua língua do que um estrangeiro. Sempre me lembro do Paulo Henriques Brito, tradutor de literatura e poesia que já recebeu até prêmio lá fora por suas traduções para o inglês. Ele diz que traduzir para uma língua estrangeira é difícil porque você não tem muitas saídas. Quando consegue pensar em uma solução para um problema, você se agarra nele e pronto. No português, temos mais jogo de cintura. Às vezes, conseguimos pensar em duas, três, quatro soluções. Podemos nos dar o luxo de escolher esta ou aquela porque é mais eufônica, mais longa ou mais curta.

Feliz era quem lia o que a Editora Globo produzia antigamente, ao combinar o talento de um brasileiro e um estrangeiro para produzir suas traduções. Mas isso se tornou caro demais e, claro, inviável há muito tempo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Trabalho voluntário

Chegou a mim a informação de que uma grande (grande não, enorme) multinacional da área de informática vai realizar um evento aqui no Brasil e está procurando tradutores voluntários. Alguém me lembrou de que há muita gente pelo mundo afora fazendo trabalho voluntário, mas peraí: trabalho voluntário deve ser feito para quem não pode pagar. Se fizessem uma festa após o evento, na certa procurariam um serviço de buffet voluntário, músicos voluntários, garçons voluntários... É a triste realidade da nossa profissão. Não consigo pensar em nenhum outro profissional que seja procurado numa situação dessas para trabalhar como voluntário. Nem prostituta faz serviço voluntário, se me perdoam a franqueza.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Legendagem

Sem sono, sentei para trabalhar, pus a obra-prima chamada Back in Black para tocar (no fone, claro) e vou aproveitar para escrever uma coisinha sobre legendagem e tradução.

Érica e eu acabamos de voltar do cinema. Temos que aproveitar que estamos na casa do meu sogro e que temos gente para ficar com as crianças. Cinema lá em casa é artigo de luxo. Ou vai um sozinho (normalmente eu, para ver os filmes que a Érica não quer ver) ou então vamos todos com as crianças para ver um filme dos pequenos. Lá nos EUA, era mais caro porém mais fácil irmos ao cinema, pois tínhamos uma babá e algumas suplentes. Como é difícil achar babá aqui, sobretudo confiável. Que falta fazem a Michelle, a Clarissa, a mãe da Elaine (me esqueci do nome; melhor não arriscar e deixar assim mesmo).

Mas fomos ver Atração Perigosa (The Town), com o Ben Affleck e a Rebecca Hall. Fiquei assistindo ao filme e me perguntando onde já tinha visto aquela atriz antes. Vicky Cristina Barcelona. Ela era a morena. Mas vamos deixá-la pra lá. Sabem que gostei do serviço do tradutor/legendador? Boas soluções, fluentes, naturais. É raro ver isso no cinema. Mas claro que eu não escreveria aqui simplesmente para tecer elogios. Tenho que ver o outro lado também e fazer minha crítica.

Traduzir é libertar-se dos grilhões do original. Alguém já disse isso? Talvez sim ou talvez o tenham dito com outras palavras. Tradutor é um cara preso, oprimido pelo original. Não consegue se desvencilhar das palavras, da forma da língua de partida e ater-se às palavras, à forma da língua de chegada. O resultado, por vezes, é uma coisa pouco natural, desajeitada até, que poderia ser melhorada com um toquezinho. Por exemplo, os americanos têm lá aquela coisa de dizer “Oscar Winner ou Academy Award Winner Fulano de Tal”. Peraí, vamos escolher uma atriz. Que tal “Academy Award Winner Charlize Theron”? Boa. Então, aparece em inglês:

Academy Award Winner Charlize Theron

Aí, nas telas dos cinemas do Brasil, surge:

Ganhadora do Oscar Charlize Theron

Tudo bem, pode ser chatice minha, mas custava inverter a ordem?

Charlize Theron, Ganhadora do Oscar

Não fica mais natural? Para mim fica. Também me irrito com os verbos. Por que o registro tem que ser tão formal? Um professor meu costumava nos lembrar de um exemplo ótimo. Em um filme de ação, um bandidão dizia para os seus comparsas: Peguem-no, amarrem-no e joguem-no no mar. Bandido finíssimo esse, com um português escorreito. Tudo bem, quiseram evitar o pega ele, amarra ele... , mas por que não alguma coisa mais natural como “pega esse cara, amarra e joga no mar”? Mais natural e mais curta do que o que saiu na legenda. É bom lembrar que espaço é um dos principais problemas para quem faz legendagem. Você tem um número de caracteres x para escrever numa língua tudo o que está sendo dito em outra. É tarefa das mais inglórias.

No Atração Perigosa, também aparece um exemplo bom desse (mau) uso dos verbos. O Ben Affleck está lá passando a conversa na moça e se sai com esta: “permita-me (ou deixe-me, sei lá) oferecer-lhe um drinque”. Fiquei me imaginando soltando uma dessas ao ouvido de uma menina. Eu estaria até hoje solteiro. Talvez funcione lá no chá da Academia Brasileira de Letras e olhe lá, hein?!

Mas eu queria mesmo era escrever, com o perdão da palavra, sobre o porra. Não é que apareceu um na legenda do filme que nós vimos. Isso é raro. Normalmente, os estúdios (ou sabe lá Deus quem toma essas decisões) não permitem palavrões nas legendas. Uma colega contou no Twitter que uma vez não lhe deixaram pôr um singelo e inócuo “cocô de cachorro” na legenda. E a pobre fazendo uma ginástica danada para sair dessa. Mas é assim mesmo. O cara pode soltar um monte de impropérios, mas aparece no máximo um filho da mãe na tradução. O argumento, ao que parece, é que, escritos, os palavrões poderiam causar problema. Como diz a minha mãe, as palavras faladas, o vento leva; o que está escrito fica. Tudo bem, até concordo, mas estava lá no meu filme, com todas as letras, um porra. Vibrei, e com razão.

Ora, pense bem, praticamente todas as vezes em que o americano diz lá um fuckin’, o que aparece na legenda? O correntíssimo e batidíssimo até... maldito. Stop the fuckin’ car vira “pare o maldito carro”. Lindo, não? O maldito cachorro fez cocô no tapete. Se fosse no meu tapete, eu não me referiria exatamente assim ao animal. Voltando ao filme, não me lembro da frase exata. Fiquei tão fixado no porra que já me esqueci do que o fuckin’ adjetivava, mas acho que a frase era “open the fuckin’ safe”. Na legenda, saiu “Abra a porra do cofre.” Estamos melhorando, gente. Mas ainda dá para deixar a coisa um tiquinho mais natural. Onde você costuma enfiar o seu porra? Eu prefiro no fim, enfático, forte. “Abre o cofre, porra!”, acredito eu, teria a mesma ênfase da frase original e soaria mais usual. Assim, tradutor, ao deparar-se com o fuckin’ , se permitirem, experimente meter um porra lá no fim. E, se lhe servir de incentivo, você ainda economiza dois preciosos caracteres, coisa que não se despreza na legendagem.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cada uma que me aparece

A gente descobre cada coisa quando faz tradução. Em um documento que acabei de revisar, apareceram unlawful harassment e take unfair advantage of someone. Se você for literal, tirar vantagem de uma pessoa vai ter sempre uma conotação negativa. Ninguém vai acreditar que você tirou vantagem de outrem, mas o fez direitinho, em condições justas. Talvez aí seja o caso de valer-se da ajuda, dos bons serviços da pessoa. Mas divertido mesmo é o unlawful harassment. O americano é tão pudico, conservador e moralista mas consegue enxergar lá um assédio no ambiente de trabalho e dentro da lei. O que diabo é isso? Um assédio light, uma olhadinha sem compromisso, só de esgueira? Povo estranho, hein?! Depois nós morenos é que somos esquisitos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A glimpse of the Brazilian translation market

I just came across the website of a translation agency based in São Paulo. Everything looks nice until you start poking around and reading. The list of services they provide includes “version”, a special kind of service you would be hard-pressed to find anywhere else but in Brazil. In the company’s own words, this “consists in passing a text written in Portuguese to another language.” Their São Paulo address is translated into English (So-and-so Avenue...), and they have a "center of attention" (a call center, I suppose). If that is the best English they can come up with for their website, you can only imagine what goes into the translations they produce.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Tradução biunívoca? Com certeza!

Tradução cada vez mais é uma correspondência biunívoca. Uma palavra de uma língua não raro acaba sendo traduzida sempre da mesma forma. O tradutor não para pra pensar que aquilo não é idiomático, não é o sentido do texto original ou, simplesmente, é um erro crasso. Hoje me apareceu no Estadão um 'definitivamente' mal empregado no caderno de Esportes. O contexto deixava mais do que claro que o texto em inglês dizia definitely, palavra para a qual o tradutor tinha várias opções em português: sem dúvida, decerto, é claro que… Ele tinha até o 'com certeza', que, por ser usado e abusado, já me parece de gosto duvidoso. No Brasil de hoje, se você faz uma pergunta que provavelmente receberá uma resposta afirmativa, há uma boa chance de o interlocutor mandar de lá um: “Com certeza!” Virou praga.

Mas voltando à tradução biunívoca, os tradutores não percebem que, dessa forma, estão entregando o ouro ao bandido. Ora, se basta trocar uma palavra por outra, o que, grosso modo, equivale a apertar um botão, qualquer um pode fazê-lo. A tradução por máquina se encaixa perfeitamente aí. Abram o olho, tradutores, pois, ao traduzirem mal e, em consequência, denegrirem o nosso ofício, vocês estão cavando a própria cova... e cada vez mais rápido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O que é fabuloso para você?

Há poucos dias, encontrei em duas redes sociais na Internet uma referência a uma entrevista sobre a nossa profissão, concedida por uma colega tradutora a uma rádio dos Estados Unidos. A pessoa que fazia a referência, também do nosso meio, havia usado dois adjetivos em inglês: fabulous e outstanding. Fiquei imaginando do que poderia tratar essa entrevista para merecer esses elogios. Bom, fui logo
ouvi-la. Confesso que não fiquei tão impressionado quanto a colega.
A entrevista era curta, tinha um trocadilho bem interessante (fowl e foul), chamava a atenção para alguns aspectos pitorescos do nosso métier, mas classificá-la como excelente e fabulosa era de certa forma um exagero.

Naquele mesmo dia, reparei que a colega que havia elogiado a entrevista e uma outra colega, ambas residentes nos EUA, haviam comentado sobre o último Congresso da Associação Americana de Tradutores, realizado na semana passada, em Denver. Ambos opinaram que o congresso havia sido “fabulous” (de novo?!). Concordo que esses congressos são sempre muito proveitosos. Você tem a chance de conhecer novos clientes, fazer novas amizades, assistir a uma ou outra palestra interessante e sentar com um colega, com quem só tem contato por email, para almoçar ou tomar um vinho, mas a coisa não vai muito além disso. Eu não chamaria de fabuloso nem o encontro da ABRAPT na UFMG, em 2001, ocasião que conheci a Érica, minha mulher e mãe dos meus dois filhos.

Isso tudo me fez lembrar de algo que eu havia reparado durante o período em que morei nos Estados Unidos. Os americanos tinham lá certa queda por pecar pelo exagero ao usar os adjetivos. Alguém pode argumentar que gente deslumbrada existe em tudo que é canto, mas a frequência com que eu via esse deslumbre era maior lá. Comecei a perceber que, o que aos meus olhos parecia um exagero era também uma marca do discurso deles. Uma vez, por exemplo, na escola da Clarissa, houve uma apresentação em que as crianças da primeira e segunda série cantaram duas canções tradicionais, acompanhadas pela professora, que tocava piano. Ao fim da apresentação, um dos pais, conhecido nosso, exclamou: “that was amazing”. Amazing?! Tudo bem, eram as nossas filhas lá no palco, haviam cantado direitinho, bonitinho, mas achar aquilo espantoso era demais. Eu provavelmente soltaria um “that was great”, que ficaria de muito bom tamanho. Mas isso sou eu, falante nativo de português.

O leitor deve estar se perguntando por que o chato aqui fica prestando atenção no que os outros falam e pegando no pé das pessoas. Não é (só) chatice. Digamos que é também um exercício linguístico. Quando me deparo com uma frase, uma expressão, uma palavra, me pergunto o que eu faria se tivesse de traduzi-la. Para mim, traduzir é, acima de tudo, dizer na língua de chegada o que um falante dessa língua diria caso se encontrasse na mesma situação em que se encontra o falante da língua de partida, procurando causar o mínimo de estranhamento possível. Mas aí, alguns poderiam argumentar, eu deixaria de trazer traços da cultura alheia para a cultura da língua de chegada. Alguma coisa se perde, é inevitável. Que caminho tomar? Respeitar a marca do discurso e manter o exagero, correndo o risco de causar espécie ao leitor, que poderia até achar que o tradutor errou na mão, ou simplesmente modular o texto e optar por uma solução mais inócua. Nos dois casos, das tradutoras e do pai, eu provavelmente manteria o exagero, o deslumbre, mas eis um caso em que a modulação é obrigatória.

No ano passado, eu estava assistindo a uma aula de duas professoras sobre interpretação (community interpreting, para ser mais preciso, coisa comum nos EUA, mas praticamente inexistente aqui no Brasil). Em dado momento, uma delas fez um comentário. Em seguida, a outra disse o seguinte: “I’m so glad you made that comment”. Gente, o que terá dito a primeira que proporcionou tanto prazer, tanta alegria, à colega? Não me lembro mais do comentário, mas não me esqueço de que o semblante da segunda professora não mudou absolutamente nada. Não houve essa alegria que as palavras dela poderiam levar um tradutor incauto a imaginar. Mesmo sem saber desse detalhe, um bom tradutor teria modulado a frase e escrito algo como, “que bom que você fez esse comentário”.

Para encerrar, acho que vale a pena prestarmos atenção ao nosso discurso e medirmos nossas palavras. Quando mal usadas ou usadas em excesso, as palavras perdem a sua força. Para eu me referir a algo como fabuloso, ele tem que realmente ser fabuloso. Para fazer um trocadilho, caso pudéssemos voltar no tempo, ver um show dos Beatles, The Fab Four, seria algo fabuloso. Ou então o que li hoje no Estadão, no caderno Cidades. Em São Paulo, existe um grupo de balé formado majoritariamente por meninas cegas. A Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini é o único grupo de balé clássico profissional de deficientes visuais no mundo. Isso, sim, é fabuloso. E para quem quiser ver as meninas em ação, ao vivo, elas se apresentam hoje à noite, às 20h30, no Teatro Ítalo-brasileiro, na Avenida João Dias, 2046.

sábado, 2 de outubro de 2010

O negócio é o viés

Antes que a minha mãe ou algum outro leitor reclame de eu ter escrito em inglês, segue uma tradução livre, bem livre.

Uma das principais manchetes no site da CNN hoje é “Ex-guerrilheira concorre à presidência no Brasil”. O link vai cair num artigo com o título “Ex-guerrilheira marxista concorre para ser a primeira presidente do Brasil”. Fico pensando que sensação uma frase como essa provoca ao norte do Rio Grande. Os americanos de direita podem até pensar: “Ai meu Deus, o Brasil vai virar uma Venezuela. Temos que fazer alguma coisa. Calma, o bicho não é tão feio quanto parece. É certo que a Dilma e o PT têm um quê de socialismo, o que é um eufemismo, mas os tempos são outros. O mais importante é que estou convicto de que existem pesos e contrapesos suficientes para evitar que eles transformem o país em algo que possa ser fonte de preocupação. A outra possibilidade é que a CNN estava apenas tentando atrair a atenção dos leitores. Alguma coisa como “Candidata do Lula rumo à vitória no Brasil” não teria surtido o mesmo efeito que o título escolhido, pois muitos dos americanos que apenas olham para o seu umbigo provavelmente pensariam, “Quem é esse tal de Lula? E daí?” Não, ainda acho que, mais do que qualquer outra coisa, foi viés mesmo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A remuneração dos tradutores e outras coisinhas afins

Caro leitor, este artigo está, digamos assim, um tantinho desestruturado. O que era para ser apenas respostas breves aos comentários feitos pelo colega Víctor Gonzales sobre o texto “A remuneração dos tradutores”, acabou ficando maior do que eu esperava. Assim, em vez de simplesmente dar minha resposta no campo para comentários daquele artigo, resolvi juntar os parágrafos abaixo e publicá-los como um novo texto. Além disso, minhas respostas abordam vários pontos importantes que teriam menos visibilidade se aparecessem apenas como um comentário. Então vamos a elas.

Será que a falta de união é exclusiva dos tradutores? Provavelmente não. Acredito que, em todas as profissões, vai haver um puxando o tapete do outro, um querendo roubar o cliente do outro, defender seu território. Será que se fala de preços em outras profissões tanto assim quanto se pensa? Para falar a verdade, não sei. Mas não consigo imaginar médicos se reunindo num simpósio e discutindo quanto devem cobrar por uma consulta ou escritórios de advocacia se consultando para saber quanto devem cobrar de honorários.

Cobrar por palavra, lauda, caractere (com ou sem espaço), peso, baciada, metro... Tanto faz. É apenas uma convenção. Para ser sincero, acho que saímos perdendo nessa história. Eu preferiria pegar o original, avaliar a dificuldade, estimar o tempo que vou levar para fazer o serviço e dar um preço fechado. Menos transparente? Por quê? Vamos supor que você contrate um pedreiro para construir um muro em volta da sua casa. Você o acusaria de pouco transparente se ele não te cobrasse pelo número de tijolos? Não acho que as diferentes formas de cobrança de um serviço de tradução sejam empecilho. O subjetivismo talvez seja o mesmo quando se compara um médico que cobra 150 reais e outro que cobra 300 reais por consulta.

No que diz respeito a novatos cobrarem barato, muita calma nessa hora. Coloque-se no lugar de um novato. Ao iniciar na profissão, quem tem peito para já sair cobrando caro? Você pode até entrar no mercado com seu preço lá em cima, mas quem vai decidir se aquele preço é cabível, não é você; são os clientes. Às vezes cola, mas é mais provável que você vá ouvir dos clientes que ainda está muito verde para cobrar aquilo tudo. Quanto a se valer de um revisor, lembre-se de que você precisa pagar pelo serviço dele e isso pode acabar reduzindo demais a sua margem de lucro. Você pode também trabalhar junto com um colega e um revisar o trabalho do outro, mas vão ter que dividir o que ganharem.

Os estudantes de tradução devem adotar uma postura mais ativa. Não podem esperar que as coisas vão ser dadas de mão beijada. Tem que correr atrás, se informar, ir a palestras e congressos, participar de listas de discussão, grupos virtuais, redes sociais. Isso tudo ajuda a entender como funciona a profissão e o mercado e dá visibilidade a quem está começando. Não sei lhe dizer exatamente por que havia poucos estudantes no evento do ProZ, mas não o tome como regra. Frequento eventos como esse desde 1998 e os estudantes sempre comparecem. Normalmente, são presença mais forte em eventos organizados por instituições de ensino, mas também vão aos mais voltados para tradutores.

Quanto ao problema de os tradutores da mesma língua se enxergarem como verdadeiros parceiros e não como concorrentes, é difícil separar as duas coisas, sobretudo no caso dos que ainda não se firmaram no mercado. Todos os tradutores que trabalham com a mesma língua que eu são meus concorrentes, claro, mas, acima de tudo, são parceiros e possíveis fontes de serviço. Nós somos de carne e osso e nosso dia tem apenas 24 horas. É mais comum do que alguns imaginam ver-se em situações em que é impossível dar cabo do serviço sozinho. Da mesma forma que isso ocorre com você, também ocorre com um colega, que pode lhe pedir socorro. É preciso apenas que você esteja preparado para ajudar quando esse pedido chegar.

Em minha palestra no evento do ProZ, há duas semanas, falei sobre essa questão dos pares. Admiti que é mais difícil ser recomendado por um colega que traduz para a mesma língua que a nossa, mas não é impossível. Eu, por exemplo, vou passar o nome de uma colega que estava lá no ProZ para um cliente meu. Ela se encaixa bem no perfil de tradutor de que eles precisam. Claro, vou recomendá-la porque ela me parece ser uma pessoa séria e competente. Se eu não tivesse essa percepção, não a recomendaria. Afinal, a minha reputação está em jogo também quando indico alguém. E tampouco se esqueça de que, não raro, recomendações vêm de colegas especializados em áreas que não a sua e de tradutores que trabalham com outras línguas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A remuneração dos tradutores

Há algumas semanas, estou com um texto no forno sobre esse assunto, que sempre provoca muita discussão e causa bastante polêmica. Outros compromissos, como trabalho e a participação como palestrante num evento de tradução em São Paulo não me permitiram concluí-lo antes, mas nada como um empurrãozinho para fazer você terminar um texto. Logo mais à noite, o colega e amigo Danilo Nogueira discutirá esse mesmo assunto na já tradicional reunião da Sala 7 (com repeteco no sábado). Como acredito que nós dois pensamos de forma muito semelhante sobre esse tema, é melhor publicar logo as minhas opiniões para depois não ser acusado de estar me aproveitando das ideias dele.

Há algumas semanas um comentário meu no Twitter suscitou uma breve discussão entre colegas tradutores sobre remuneração. Fiz esse comentário após ler o tweet do colega João Roque Dias, tradutor técnico português, que dizia o seguinte: “No Peanuts! for Translators: If You Are Not a Monkey, Stop Working for Peanuts: http://bit.ly/bLyagj Read and Retweet!” A ideia é que os tradutores não devem aceitar trabalhar por mixaria. Tenho comigo que circular essas mensagens para que os tradutores, ou outros profissionais, não trabalhem por mixaria é fácil. Definir o que é mixaria é que são elas.

Eis o principal problema quando se discute remuneração de tradutores. Ora, a mixaria para um pode ser o suficiente para pagar as contas do outro e manter o cobrador afastado. Fazendo um paralelo com o que dizia o folclórico Dadá Maravilha (“Não existe gol feio, feio é não fazer gol”), costumo dizer que mais feio do que trabalhar por pouco é não ter com que pagar as contas. Isto sim é um problema. Cada um sabe das suas contas, das suas dívidas, de onde o calo aperta, e ninguém deve dizer ao outro que não deve trabalhar por x ou por y reais ou dólares. Mas alguns aspectos precisam ser relevados nessa discussão.

Vamos supor que o tradutor A cobre x centavos por palavra e o tradutor B cobre x + 3 centavos. Quem ganha mais? Depende. O tradutor A pode simplesmente digitar mais rápido e produzir um número de palavras suficiente para lhe garantir um rendimento maior. Ou talvez ele seja desleixado e não pesquise o suficiente, preferindo simplesmente adotar a primeira solução que lhe vem à cabeça. Por outro lado, ele pode ser melhor tradutor ou receber trabalhos que consegue fazer bem e com facilidade, sem precisar parar a toda hora para consultar o dicionário. Cada caso é um caso.

Outro ponto que deve ser levantado diz respeito a criticar quem trabalha por pouco. Cuidado, pois é fácil cometer injustiças. Há quem trabalhe por pouco por desconhecimento do mercado, por não saber que há quem pague bem por traduções bem feitas e que a qualidade do seu trabalho poderia ser mais bem remunerada. Há quem tenha medo de aumentar seus preços e ver seus clientes irem atrás de quem cobre menos. Na minha opinião, dois tipos de tradutores merecem crítica. Um é o que traduz de graça, por diletantismo e de forma pouco profissional, se esquecendo de que muitos traduzem para garantir o pão de cada dia. O outro é o que faz dumping, ou seja, cobra pouco para derrubar os concorrentes. Este presta um desserviço à profissão e não nos ajuda em nada.

Mas então o que fazer para que todos os tradutores recebam uma remuneração justa? Vamos tabelar! Nem pensar. Isso dá bode ao sul e ao norte do Equador. Quem já foi a um congresso da ATA, a Associação Americana de Tradutores, sabe que esse assunto não se discute lá. Chegue numa rodinha e pergunte quando este ou aquele cobra. Você vai ficar falando sozinho. Aqui no Brasil, o Sintra, o Sindicato Nacional dos Tradutores, é polo passivo numa ação iniciada pela Secretaria de Direito Econômico por causa da sua “lista de valores de referência praticados”. Ou seja, lá ou cá, estabelecer preços não dá certo.

O caminho é buscar sempre aumentar seus preços e procurar trabalhar com clientes que pagam mais. Isso me remete a um artigo que li recentemente que falava em price makers e price takers, ou seja quem dita e quem aceita os preços. Segundo a autora, você tem que ditar os preços. Claro, isso é muito mais fácil na teoria do que na prática. Se você está numa situação financeira confortável, tem outras fontes de renda, seu cônjuge ganha bem, é mais fácil fazer finca-pé e exigir mais. Mas se esse não é o seu caso e, sobretudo, se você está começando na profissão, o mais provável é que o mercado, ou seja, os clientes ditem os preços.

Que tal um exemplo da vida real? Na semana passada, mantive contato com um possível cliente que me ofereceu um pagamento que provavelmente não chegaria a um quinto do que meus melhores clientes me pagariam. Como você reagiria? Nada de espinafrar o cliente. Não sabemos o dia de amanhã. Na época das vacas magras, talvez esse cliente possa me salvar. Ainda não discuti preços com ele, mas vou chegar lá, vou mostrar meu pedigree e tentar aumentar o valor por palavra. Se não conseguir, nada de ser descortês. A melhor resposta que posso dar a eles é simplesmente ir trabalhar para outro cliente que pague mais.

Para encerrar, se você consegue cobrar alto dos seus clientes, regozije-se, mas não critique o outro que ganha menos. Em vez de perdermos tempo criticando, devemos buscar aumentar nossos preços, o que ajudará a melhorar a qualidade do mercado como um todo e ajudará os demais tradutores. Se você acha que está ganhando pouco, se aperfeiçoe e busque clientes melhores. No imenso mercado de tradução, ainda há quem procure qualidade e não apenas o menor preço. E não se esqueça: a mixaria para você é o feijão com arroz na mesa do outro. Sejamos humildes e trabalhemos para melhorar as condições para todos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A crise do português

Estou muito propenso a escrever no meu currículo que sou bom de crase e regência. A coisa está feia por aí. Todo o mundo erra nisso. Jornalistas, publicitários, secretárias, professores, advogados e, claro, tradutores estão escrevendo muito mal. Tradutor, mais especificamente, se esquece de que, antes de qualquer coisa, antes de ser usuário de CAT tools, ele é, por definição, um escritor. Infelizmente, o mercado impõe sua vontade cada vez mais. Tem de usar CAT tools. Escrever bem é secundário, é um detalhe, não faz tanta falta assim. Concordo que sem as ferramentas certas não dá, mas o texto e a sua qualidade estão ficando cada vez mais para escanteio. O problema é que, assim, o tradutor se aproxima cada vez mais da máquina. E, claro, a tradução de máquina é mais barata do que a humana. Quem traduz mal vai acabar ficando para trás e sendo purgado do mercado. Quer sobreviver e pegar trabalho bom? Vai aprender português.