terça-feira, 5 de maio de 2009

Natal fora de época

Foi sofrido, como foi. E o pior foi que o grito de “É campeão” ficou entalado na garganta mais de duas horas após o jogo haver terminado. A Globo Internacional e o PFC resolveram pregar uma peça nos flamenguistas e botafoguenses e transmitiram ao vivo para os EUA duas finais de campeonatos que já estavam praticamente decididos (que me perdoem os santistas e atleticanos). O jogo do Flamengo só viria depois de ser encerrada a transmissão da final paulista. E como demorou. Mostraram a festa toda, a entrega da taça, o apuro do capitão William com aquele inesperado fogo (Ronaldo reclamou, e com razão, da desorganização; coisas de Brasil misturar fogo com papel picado). Mas eu me mantive impassível e esperei. Felizmente, aqui não tem foguete nem grito do vizinho quando sai um gol. Dá muito bem para assistir ao “teipe” como se o jogo fosse ao vivo.

Mas como eu disse, foi sofrido, e o sofrimento começou na noite anterior. Sei lá o que me deu que eu sonhei que o Botafogo enfiava incríveis 8x0 no Flamengo. Acordei preocupado, com vontade de descer e ir ver o jogo. Mas aí me lembrei que ainda era sábado para domingo e a partida ainda seria jogada. Voltei a dormir. Mais tarde, sonhei que o Fla vencia por 2x1, mas o Bota igualava no finzinho, levava a decisão para os pênaltis e, pior, conquistava o título. Despertei ainda mais preocupado. Coisa de torcedor. Durante o dia, lembrei-me daquela fatídica final do estadual de 89, quando o Botafogo saiu da fila depois de 21 anos sem título. Naquela noite, havíamos ido comer um cachorro-quente lá na 106, no Neto (era bom aquele cachorro…). Já não me lembro bem quem estava comigo (Marcelo Viana?). Ao voltar para a quadra, comentei que estava com um mau pressentimento, que naquele noite ia dar bode. E pior que deu. Mas deixa isso pra lá e voltemos à tarde de ontem, que foi mais feliz.

No Brasil, a torcida já festejava o tri quando a Globo começou a passar o jogo aqui. Mas eu havia resisti e assistiria ao jogo todo para ter a mesma emoção que tiveram aí. Com os 2x0, pensei, “está no bolso”. O pênalti do Vítor Simões, defendido pelo Bruno, me deu a impressão de que ali o Botafogo se entregaria e o Flamengo ainda faria mais. Que nada! O Fogão não estava morto. No empate, me veio à memória a noite mal dormida. “Sequei o Mengão. Vai dar Botafogo nos pênaltis.” A Globo, para o Faustão poder entrar no horário, foi aos poucos cortando um pedacinho aqui e outro ali. Dos 38 do segundo tempo, pularam para os 47 e a expulsão do capita. Viriam os pênaltis e a minha profecia se tornaria realidade. E eu que já me preparava para ir cantar o “Chororô” com a Clarissa e o Rodrigo, que, como bons flamenguistas, já conhecem a letra (E ninguém cala, esse chororô…).

Mas São Bruno estava lá e fechou o gol. Eu estava uma pilha de nervos e o grito de campeão foi um alívio (tri, de novo, o terceiro que eu testemunho desde que me entendo por gente). Só não pude ver a festa toda porque a Globo tinha que seguir em frente com a sua programação “normal”. Bom, no fim das contas, dos males o menor: Perdi o campeonato (duas vezes!) no sonho, mas o pesadelo real acabou sendo dos torcedores do Glorioso.

Mas, alguns devem estar se perguntado, o que tem a ver essa história toda com Natal? Há alguns meses, o Bom Dia Brasil mostrou uma reportagem sobre como a paixão por um clube passa de pai para filho. Um sujeito do Rio definiu com rara precisão a felicidade que é ver o clube do coração ganhar um título. Parafraseando, é a sensação que você tem quando acorda no dia de Natal e sabe que o seu presente está ali te esperando. Sábias palavras. E o pior é que tem gente que não gosta de futebol. Que pena!

P.S.: Eu estava no Brasil quando o Bota ganhou o estadual de 89. Estava aqui nos EUA na conquista do Brasileirão de 92 e neste tricampeonato do Mengão. Será que em todas as finais contra o Botafogo eu vou ter que me ausentar do país para que o Flamengo se sagre campeão? Desse jeito, acho que vou ficar por aqui de vez.

P.S. 2: Num dia desses levei até um puxão de orelha porque não vinha atualizando o blog. Infelizmente o blog não tem sido uma prioridade nos últimos tempos por vários motivos, os quais não posso comentar agora (um dia o faço). Mas aos poucos retomo as coisas por aqui, estejam certos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Flertando com o socialismo ao norte e ao sul do equador

O assunto mais debatido nas últimas semanas aqui nos EUA é a possível estatização (nationalization, em inglês) dos grandes bancos do país que estão à beira da bancarrota (fiquei com vontade de pôr a vírgula e transformar a locução de restritiva para explicativa, pois acho que não há grande banco que se salve). O tema da estatização não sai das páginas de economia dos jornais e discute-se até a definição exata do termo.

Alguns alegam que, para se configurar uma estatização, o Estado precisaria, ao mesmo tempo, ser dono da empresa, tocar os negócios no dia-a-dia e planejar mantê-la sob o seu controle por um bom tempo. Outros dizem que qualquer forma de participação do governo no capital de uma empresa já constitui uma estatização. Outros ainda apontam que seria necessário deter 51% do capital. Um dado interessante é que as normais contábeis obrigam o governo a incluir no seu balanço qualquer empresa da qual tenha mais de 80% das ações. Foi por isso que, ao salvar a seguradora AIG e as gigantes do setor imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac, o governo americano assumiu o controle de 79,9% dessas empresas.

A Suécia estatizou temporariamente seus bancos no início dos anos 90 para debelar uma crise e obteve bastante êxito. Mas uma estatização, ainda que temporária, seria inaceitável para maioria da população nos EUA, pois fere os princípios do capitalismo. Assim, o governo Obama vem tentando de todas as maneiras evitar que o resgate dos grandes bancos seja feito dessa forma. Não quer de jeito nenhum o indesejado rótulo de socialista. Mas parece não haver saída.

Não resta dúvida de que os bancos precisam ser capitalizados. O povo não quer ver o Estado entregar bilhões de mão beijada aos banqueiros. O governo alega que a ajuda está sendo prestada na forma de reservas de capital. Aos olhos dos investidores, a ajuda não é capital mas sim um empréstimo que o governo vai cobrar num futuro não muito distante. A solução seria converter esse investimento público em ações ordinárias, mas aí configura-se a estatização. No fim das contas, tudo vai depender de os investidores decidirem se vale a pena voltar a investir nos bancos.

Enquanto isso, no Brasil, o governo Lula esbravejava na semana passada contra as demissões na Embraer. O presidente chegou a dizer que estava indignado com o fato. Em janeiro, o Ministro do Trabalho, Carlos Lupi, já havia pressionado as montadoras por haverem demitido funcionários.

Desde o seu primeiro mandato, Lula é elogiado nos quatro cantos do mundo por ter, contra as expectativas, adotado uma política econômica responsável, pautada pela austeridade no trato das contas públicas e voltada para o mercado. Mas vez ou outra se percebe que o Lula vermelho, socialista, aquele da porta da fábrica no ABC, continua vivo, embora reprimido.

Não cabe ao governo reclamar desta ou daquela empresa porque afastou funcionários. Não é o papel dele. Isso não tem lugar no jogo econômico (sim, jogo, para usar uma imagem bem cara ao nosso presidente). Ao governo compete, na verdade, criar as condições para que se gerem empregos.

O contraste com o que se vê aqui nos EUA é gritante. Na atual recessão, que deprime com muito mais força a economia americana do que a brasileira, quase todos os dias se lê no caderno de economia dos jornais que uma empresa demitiu funcionários. O governo daqui não costuma ir à imprensa repreender empresários por isso. Demissões são um fenômeno normal. Ora, o ciclo econômico é feito de altos e baixos. Quando passar a recessão, voltam as contratações.

Nota: Havia concluído este artigo antes de tomar conhecimento, pelo G1, que as demissões na Embraer haviam sido suspensas pelo TRT de São Paulo. Não acho que isso seja salutar. O Executivo reclama, o Judiciário toma uma medida dessas. Isso cria um ambiente desfavorável aos negócios. Manter uma empresa e ter que tolerar a ingerência desta ou daquela autoridade na forma como toco meus negócios? De jeito nenhum. Cada um sabe do seu fluxo de caixa e onde o sapato aperta. Num arrocho financeiro, a patroa dispensa a empregada e, de duas uma, vai ela mesma fazer a faxina ou aprende a viver numa casa não tão limpa. Ela se apieda da pobre serviçal? Sim, mas não a ponto de sacrificar o seu próprio bolso. É uma ilustração simples, porém clara, de uma das leis básicas que regem as contratações e demissões em todos os níveis.

Pacote de estímulo (2)

Quando eu disse que tinha tudo a ver, eu não estava brincando. Chegou ontem à tarde.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paul Krugman e a economia da depressão

Quando terminar de ler, comento.


64 contos de Rubem Fonseca


O Brasil na vanguarda do desenvolvimento

Assisti com interesse à notícia de que foi aprovada legislação para obrigar as montadoras a instalar air bags como equipamento de série nos carros novos. Como ela ainda precisa ser sancionada pelo Presidente e regulamentada pelo Contran, e a indústria automobilística terá cinco anos para se adaptar à nova regra, vai levar tempo até a mudança ser efetivada. De qualquer forma, apesar da demora, a notícia é muito bem-vinda.

Os air bags para o motorista e o passageiro da frente são equipamento de série nos carros fabricados nos EUA há dez anos. Quem quer mais proteção pode comprar um carro aqui, não necessariamente um modelo caro, com oito a dez air bags. Quando o sistema é ativado, se forma um cortina que protege, inclusive, os passageiros no banco de trás. Sabe lá Deus quando chegaremos a esse estágio. Mas isso não me preocupa tanto. Há outros problemas não tão complexos que já deveriam ter sido resolvidos no que tange à segurança dos veículos brasileiros.

Quando vamos ao Brasil, é comum alugarmos um carro, especialmente em Brasília. Normalmente, escolhemos um modelo popular, com ar condicionado e só, que é o que nosso orçamento comporta. Não dá para ir além disso, pois o que se cobra pelo aluguel de um veículo no nosso país é proibitivo. Pois bem, uma vez alugamos um Palio “quatro portas” e, num belo dia, a Clarissa, muito curiosa, abriu a porta com o carro em movimento. A sorte foi que ela estava na cadeirinha, presa pelo cinto, o que evitou um acidente grave.

É inconcebível que se venda um carro, seja ele popular ou não, sem um equipamento de segurança básico como travas à prova de crianças ou, dou outro exemplo, sem o desembaçador do vidro traseiro (como se o vidro completamente embaçado não atrapalhasse a direção). É uma irresponsabilidade que mostra como é curta a visão das montadoras. Quando morre o motorista e/ou os passageiros num acidente, lá se vão consumidores em potencial, que anos depois comprariam outros carros. As montadoras não se preocupam nem em preservar a sua base de clientes. Mas do jeito que vem crescendo a venda de automóveis nos últimos anos no Brasil, que diferença faz se morre uma (não tão) pequena fração dos compradores? Haverá muitos outros para compensar essa perda.

O principal argumento contra a instalação desses equipamentos “opcionais” (ao menos segundo pensam os fabricantes) nos carros populares é que os carros ficariam caros demais para o povão. Uma idéia: Por que o governo, de forma magnânima, não renuncia a uma parte do IPI, mais precisamente, ao valor que corresponderia à diferença de preço decorrente da instalação de itens de segurança em todos os carros? Estou certo de que a economia com a redução dos gastos hospitalares com acidentados e, acima de tudo, as vidas que se salvariam mais do que compensariam a receita não arrecadada. Está lançado o desafio.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sinal dos Tempos

A coisa está realmente preta. Um artigo do Financial Times de ontem [http://www.google.com/search?hl=en&newwindow=1&as_q=&as_epq=investment+more+effective+than+tax+cuts&as_oq=&as_eq=&num=100&lr=lang_en&as_filetype=&ft=i&as_sitesearch=&as_qdr=all&as_rights=&as_occt=any&cr=&as_nlo=&as_nhi=&safe=off], revela que o FMI já está até recomendando a "estatização" de instituições financeiras em apuros. Quem diria, hein?! É bom ir colocando as barbas de molho que o negócio ainda vai piorar mais...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Goiânia e a Copa de 2014

Que Brasília que nada! Minha torcida é para que Goiânia seja a cidade da região centro-oeste escolhida para ser uma das sedes da Copa de 2014. Mas antes que meus leitores da capital decidam me receber no aeroporto de pau e pedra na mão na próxima vez em que eu for à cidade, explico meus motivos.

Brasília tem político demais. Já imaginaram a farra que vai ser a distribuição de ingressos para camaradas, colaboradores, cupinchas e outros tantos? A secretária do senador vai certamente ganhar ingressos para ela e o marido não perderem nenhum jogo. Os assessores dos gabinetes dos deputados distritais tampouco ficarão de fora. E os empreiteiros que tocaram as obras necessárias para acolher o torneio? Claro, também serão agraciados. Não vai haver ingresso que chegue.

Pessimista, eu? De jeito nenhum! Sou, antes, um realista. Na Copa da Alemanha, a venda de ingressos foi controlada de perto pela FIFA e realizada pelo site oficial do organismo. Será que vai funcionar assim no Brasil? Fico me lembrando da confusão que foi a venda antecipada de ingressos para os shows do U2 na última visita da banda irlandesa ao Brasil. Pelas notícias que li, imperou a desorganização. Venda de ingressos no nosso país, sobretudo para partidas de futebol, me traz à mente imagens de longas filas nas bilheterias dos estádios; torcedores num sufoco danado, esperando horas e se empurrando para, não raro, saírem de mãos vazias; cambistas abocanhando a maior parte das entradas; a polícia descendo a borracha para tentar organizar a turba. Será que vai ser assim em 2014?

A Copa de 2010, na África do Sul, vai me ajudar a tirar essa teima. Se não houver problemas graves de organização, aumenta um tiquinho a minha esperança de que terei alguma chance de conseguir comprar ingressos para levar o Rodrigo a pelo menos um jogo em 2014. Mas aí surge outro problema: o preço. Vão tirar o couro da gente. Já criei um fundo para a Copa, para ir poupando um dinheirinho para não ter que ir de chapéu na mão ao banco tirar um empréstimo na véspera dos jogos.

Antes que me chamem a atenção, estou ciente de que já existem cinco cidades pré-selecionadas — Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília — e outras quatro cuja escolha é praticamente certa: Curitiba, Fortaleza, Recife e Salvador. Mesmo assim, não me deixo abater. Vai ser uma luta inglória, mas está lançada a minha campanha pessoal para tirar de Brasília a Copa e levá-la para Goiânia. Aguardo adesões.

Os óctuplos da Califórnia

Uma façanha da mãe, que deu à luz oito crianças, ou mais um feito da medicina? A notícia nos jornais dessa quarta-feira aqui nos Estados Unidos revela que a melhor palavra para descrever o nascimento dos óctuplos é irresponsabilidade.

Segundo o artigo do Post de ontem, a mãe, 33 anos, solteira, desempregada, já tinha seis filhos, com idades entre 2 e 7 anos, dois deles gêmeos. A avó dessa prole toda saiu em defesa da filha e disse que ela é obcecada por crianças e apenas queria mais uma menina. Para tanto, recorreu a uma inseminação artificial (uma não, várias).

A mãe não deu mais detalhes sobre como os bebês foram concebidos nem sobre o médico que a ajudou nessa empreitada, que, seja dito, é tão irresponsável quanto a paciente.

Copa de 2014

Tenho acompanhado pela Globo Internacional a visita dos representantes da FIFA às cidades brasileiras candidatas a sediar a Copa de 2014. Que pena que não estavam sobrevoando São Paulo quando houve aquele problema na favela de Paraisópolis, nem o Rio no momento em que os traficantes incendiavam aquele ônibus. Queria ver como o Ricardo Teixeira, presidente da CBF, e as autoridades locais explicariam aquelas cenas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vai ser um ano longo

Vi a metade do segundo tempo da estréia do Vascão da Gama contra o Americano. A coisa está (ou continua) feia. Nesse ritmo, vai ser um ano longo para o time da Colina.

Para ser sincero, não fiquei satisfeito com o rebaixamento do Vasco no Campeonato Brasileiro do ano passado. Nenhum rubro-negro deveria. No Brasileirão, você flamenguista preferiria assistir a dois Flamengo x Vasco (casa cheia, renda polpuda e toda a rivalidade do Clássico dos Milhões) ou a dois Flamengo x Santo André ou Flamengo x Avaí? Pense nisso.

Não vi nem os gols da virada da Cabofriense sobre o Fluzão, mas gostei do resultado.

E para não dizerem que sou injusto, o Friburguense merecia melhor sorte no Maracanã. O bandeirinha anulou bisonhamente o gol ao apontar aquele impedimento inexistente. É bom notar que o casal de bandeiras cometeu vários erros durante o jogo, prejudicando tanto um lado como o outro. Mas o Fla não tem nada com isso. E vamos rumo a mais um tri.

Salgando a calçada

Até há pouco eu estava salgando a calçada. Mas peraí, que história é essa? Não seria melhor salgar uma picanha para metê-la na brasa? Seria, mas é que, sem sal lá fora, vai ser mais difícil entrar em casa depois.

A previsão do tempo para esta terça é de neve durante o dia e, da terça para a quarta, o que costumam chamar aqui de wintry mix. Esse “mix invernal”, que pode ter conseqüências infernais se você não tiver atenção ao volante ou ao caminhar pela rua, é basicamente uma mistura de neve e chuva que, no meio do caminho, vira gelo. Todo o cuidado é pouco para não escorregar ou perder o controle do carro.

A palavra neve traz belas imagens à mente. É realmente bonito ver a neve caindo, cobrindo o chão, ainda mais para gente de terras tropicais que não costuma ver isso de perto. Mas, sem querer decepcionar ninguém, neve só é bem-vinda em estação de esqui. As crianças adoram, mas é um grande transtorno, principalmente em áreas onde ela não costuma cair regularmente no inverno, como aqui na região de Washington (esta será a primeira neve desta estação, e já estamos no fim de janeiro).

Para tentar descrever a situação, imaginem que choveu, mas a água não foi embora, ficou por ali. Eu sei, isso tem ocorrido nas grandes cidades brasileiras com qualquer chuvinha, mas não tarda muito ela escorre para onde deveria ter ido. Neve não; ela fica ali durante dias. Há o problema também das escolas, que abrem mais tarde ou simplesmente ficam fechadas só porque caiu uma nevinha. E aí os pais têm que se virar para arrumar alguém que fique com as crianças ou uma creche de emergência para acolhê-las. Nesses dias, não raro aparece no trabalho uma criança que não teve onde ou com quem ser deixada.

Mas falando de previsão do tempo, isso é coisa séria nos EUA. Americano parece ser fanático por previsão do tempo. Quando a gente começa a viver aqui, causa até surpresa o fato de o homem ou a moça do tempo (que via de regra perde em beleza e simpatia para as nossas moças do tempo) aparecer a cada 15 ou 20 minutos no noticiário. Uma aluna da Érica costumava dizer que é a mania do americano de querer controlar tudo, até o tempo. Mania ou não, para os incautos a previsão do tempo aqui pode ser de assustar. Ela ganha um tom quase catastrófico, e o sujeito já fica imaginando algo de proporções bíblicas. Depois que a intempérie passa, ele fica se perguntando: “Isso aí? Essa chuvinha? Lá em Belém chove assim todas as tardes!”

Teria sido melhor não ter pensado nisso. Já estou achando que salguei minha calçada em vão... Bom, melhor prevenir.

[Para quem quiser ler um pouco mais sobre wintry mix, um artigo recente do Post: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/01/14/AR2009011403608.html]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tradução de notícias

Dois tostões na esteira de uma mensagem recebida de um colega sobre uma tradução porca. O trecho em questão é este:

"A maioria dos presentes disse dar as boas-vindas à mudança de Obama, embora alguns, como o sargento retirado Israel del Toro tenham evitado fazer comentários a espera das decisões do próximo comandante-em-chefe." (http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3462308-EI12934,00.html)

Para os tradutores, a Internet é uma das melhores coisas já inventadas. Com ela, a informação está sempre acessível. Se eu me visse limitado a apenas uma ferramenta de referência, não pensaria duas vezes: Internet. Com uma boa pesquisa, se encontra (quase) tudo. Mas a Internet também cria problemas.

Hoje em dia, as notícias são dadas quase que imediatamente após o fato. Uma notícia sai em inglês na CNN, na Reuters, na AP e, em virtude da velocidade dos meios de comunicação, o público espera que ela apareça nas demais línguas logo em seguida. Quem traduz isso? Como é feita a tradução? Adoraria ver o que se passa nos bastidores de sites como G1, Terra, Uol para verificar o processo por que passa a notícia até ser transformada naquilo que tentam nos passar como português.

Costumo ler as notícias do Brasil no G1, no Estadão e, com menos freqüência, no Correio Braziliense. Como a língua portuguesa tem apanhado! Muita coisa parece ser feita com tradução automática (pelo computador), mas outras são orelhadas de gente em carne e osso, como esse "retirado" (reformado) e este trecho maravilhoso ("disse dar as boas-vindas à mudança de Obama"). O Obama mal assumiu o cargo e já vai se mudar?! Na verdade, a notícia está eivada de erros.

Tais erros são vistos com cada vez mais freqüência no noticiário e há muita gente que passa por eles naturalmente, sem se dar conta. E o pior é que eles acabam sendo incorporados nos artigos redigidos originalmente em português. Já notaram que cada vez menos se vê as palavras equipe e praticamente? No meu tempo, a Ferrari era uma equipe de Fórmula 1 e o Brasil mandava uma equipe para jogar a Copa Davis (de tênis). Hoje em dia praticamente se ouve apenas falar em time. O Ipatinga se viu “virtualmente rebaixado” no Brasileirão do ano passado, e o São Paulo, nas últimas rodadas, era o “virtual campeão”. Credo! Há quem argumente que isso é o irrefreável processo evolutivo da língua. Para mim é involução.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bank of America e Citigroup

Gostei deste artigo [http://www.ft.com/cms/s/0/6492f3c4-e57c-11dd-afe4-0000779fd2ac.html?nclick_check=1] do Frank Partnoy no Financial Times do último fim de semana. Segundo ele, o BofA e o Citi já foram pro brejo. Se os dois realmente quebrarem, a coisa vai ficar ainda mais feia. É uma das muitas encrencas que o Obama tem pela frente.

A posse de Barack Obama (5)

Acabou a cerimônia da posse. Haverá ainda uma parada, que começará no Capitólio, passará pela Avenida Pensilvânia e chegará à Casa Branca. Mas isso é para depois do almoço, que ele é presidente, mas não é de ferro. Agora resta a todas aquelas pessoas reunidas no Mall tomar o caminho de casa. Todos haviam sido avisados que seria impossível comparecer aos dois eventos (posse e parada).

A posse de Barack Obama (4)

Muito bom o discurso de Obama. Era o que se esperava dele, como grande orador. Para quem trabalha com o inglês, é um texto para ser relido e esmiuçado:

http://media.washingtonpost.com/wp-srv/politics/documents/obama_inaugural_address.html?hpid=topnews

Obama, como a maioria dos políticos, tem uma equipe encarregada de redigir seus discursos. Há pouco mais de um mês, causou surpresa o fato de que, Jon Favreau, o principal redator da equipe, é um rapaz de 27 anos (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/12/17/AR2008121703903.html). Claro, todos os discursos passam pelo crivo de Obama, mas seria interessantíssimo poder ler a primeira versão de cada um deles e compará-la com a versão final, após obama "meter sua colher".

A posse de Barack Obama (3)

A TV mostrava as autoridades e demais VIPs chegando ao local da posse. Malia e Sasha Obama desciam as escadas no interior do Capitólio, para chegar ao lugar destinado a elas. Elas ainda são muito novas para discernir a grandiosidade do momento. Qualquer que seja a etnia ou nacionalidade do meu leitor, o fato de os americanos terem elegido um presidente negro (ou mulato, como querem alguns) é notável, histórico. É o sonho de Martin Luther King se tornando realidade, diriam alguns.

Eu pessoalmente não acreditava na vitória de Obama. Tinha como certo que o conservadorismo americano prevaleceria e John McCain acabaria eleito, apesar do desastroso governo de Bush. Foi uma grata surpresa e, admito, uma grande emoção. Não imaginava que, a despeito de tudo e de todos, os Estados Unidos conseguiriam se reinventar, ainda mais dessa maneira. Fico imaginando como os negros americanos devem estar se sentindo. Um deles chegou à presidência do país. Agora tudo é possível para eles.

Claro, toda essa empolgação não significa que Obama é o salvador da pátria e resolverá todos os problemas. Vai ser uma tarefa hercúlea. A tal herança maldita de que Lula várias vezes se queixou ao se referir ao governo de FHC e das elites que o antecederam é uma "marolinha" perto do legado de George W. Bush. Naturalmente, o capital político de Obama parece não ter precedentes e o povo americano terá um pouco mais de paciência com seu novo líder do que a de costume, mas ainda assim serão anos duros. Que ele tenha sucesso.

A posse de Barack Obama (2)

Estou acompanhando a posse pela TV e a comparando com o que ocorre no Brasil. Foram gastos 150 milhões de dólares para organizar o evento. Quem tem alguma intimidade com a cultura americana sabe que não se faz nada aqui sem pompa, sem festa. Tudo tem que ser grandioso. Claro, a transmissão do poder para o presidente-eleito é um dos pontos altos, talvez o clímax, da celebrada democracia americana. Tem que ser com todos os rapapés e nove-horas a que se tem direito. Deve-se notar, porém, que a maior parte desse dinheiro foi gasto com o aparato de segurança. Há uma preocupação grande com a segurança dos milhões que estão lá para testemunhar esse acontecimento, mas principalmente com a segurança do novo presidente. Os Estados Unidos têm uma história de atentados a presidentes, e muito se falou, durante e após a campanha, sobre um possível atentado a Obama. Guardadas as devidas proporções, afinal de contas o presidente americano é (ou ainda é) o homem mais importante do mundo, prefiro a posse aí no Brasil, em que o presidente assume o poder e sobe ao parlatório para falar ao povo sem vidro à prova de balas, sem medo (ao menos, é o que transparece).

A posse de Barack Obama

Não, não fui à posse de Barack Obama. Para ser sincero, admito que tive uma pontinha de vontade, mas achei melhor não. É um momento histórico, mas seria um trabalho danado. Para chegar lá e pegar um lugar razoavelmente bom, deveria ter saído de madrugada. Teria que enfrentar fila no metrô, fila para passar pelo aparato de segurança. Depois disso, ficar em pé no frio por várias horas seria complicado. A temperatura está mais baixa do que eu imaginava -4°C, com uma sensação térmica em torno de -10°C por causa do vento. Comparando com a temperatura no fim da semana passada, quando a sensação térmica chegou a -20°C, pode-se dizer que está até agradável lá fora, mas nem tanto. Após a cerimônia, seriam mais algumas horas no frio até conseguir sair de lá. É muito pra mim.