terça-feira, 1 de junho de 2010

Chapa (adendo)

Depois de escrever o artigo anterior, recebi uma mensagem de uma estimada colega e amiga, me chamando a atenção para o fato de que os chapas têm uma função específica: ajudar os caminhoneiros, seja orientando-os no trânsito, seja cuidando da carga e descarga do caminhão.

Mas e agora, isso muda alguma coisa na minha tradução? Sim, muda. Se eu estivesse, como mencionei, passando pela estrada e um estrangeiro me perguntasse o que significava aquilo, diria a ele a mesma coisa que disse antes (He is a day laborer) e explicaria que aquela pessoa faz um serviço específico. He helps truck drivers navigate the streets of large cities and oftentimes helps with loading and unloading the truck. Esse esclarecimento seria necessário e útil, pois os day laborers que ficam postados nos estacionamentos do 7 Eleven lá nos EUA se ocupam de outras tarefas, sobretudo na construção e na jardinagem.

Mas será que os caminhoneiros de lá dos EUA não têm o seu chapa para ajudar no trânsito das grandes cidades? Têm, têm sim. Ele segue o tempo inteiro na boleia do caminhão e se chama GPS.

E aí, meu chapa

Ontem me lembrei de outra palavra que aprendi depois que me mudei para o estado de São Paulo. Há uns meses, dirigindo pela rodovia Dom Pedro I, vi num sinal bem tosco, de papelão, próximo ao acostamento. Nele se lia a palavra CHAPA. Curioso que sou, fiquei me perguntado que história de chapa era aquela, mas acabei me esquecendo dela antes de voltar para casa.

Uns dias depois, passei lá com a Érica e aí perguntei a ela do que se tratava. Descobri que chapa é simplesmente um trabalhador informal, que fica ali na beira da estrada esperando alguém que passe e lhe ofereça um serviço, normalmente um trabalho braçal. Não me lembro de ver isso em Brasília.

Para os tradutores, como é que a gente chamaria esse chapa em inglês? Se eu estivesse passando ali na hora com um estrangeiro e ele me perguntasse o que significava aquilo, eu lhe diria, “He’s a day laborer”, que é uma figura bastante comum nos EUA.

Mas é bom ter cuidado na hora de traduzir do inglês para o português. Primeiro, chapa é uma gíria, enquanto day laborer não é necessariamente parte do registro informal da língua inglesa. Antes, é uma expressão da norma padrão do inglês.

Segundo, day laborer é um conceito bem mais amplo. Pode se referir tanto aos trabalhadores informais e pouco especializados que se reúnem em esquinas ou no estacionamento de lojas de conveniência à espera de alguém que passe e lhes dê serviço (a ideia mais próxima do nosso chapa), como aos que trabalham por empreitada e conseguem serviços de curta duração, normalmente inferior a um dia, de agências de emprego ou sindicatos.

Terceiro, é bom ter em mente também que uma parcela significativa desses trabalhadores é formada por imigrantes ilegais. Por esse motivo, embora sirvam de mão-de-obra barata para uns, são alvo de preconceito de outros e chegam até a ser vistos como criminosos em potencial.

Para concluir, do português para o inglês, day laborer é uma boa tradução para chapa, mas essa equivalência não funciona no caminho inverso. Para quem ainda se lembra de matemática, não temos uma correspondência biunívoca. Trocando em miúdos, todo chapa é um day laborer, mas nem todo day laborer é um chapa. Como sempre, o contexto vai ditar a melhor opção.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fiscalização eletrônica

Para começar esses papos sobre tradução, algo que todo o mundo conhece. No fim de semana passado, fomos a Campos do Jordão visitar uns amigos. Pela Dom Pedro e Carvalho Pinto, se lia nas placas: "Fiscalização Eletrônica". Mas como se diz isso em inglês?

Se você pensou em electronic fiscalization, já comeu bola. Para começar, fiscalization não tem esse sentido do qual estamos tratando no português, como já mencionei num artigo neste blog. Mas não se aflija. As opções são várias:

Nos EUA, normalmente se vê uma placa branca com o limite de velocidade (speed limit) e, abaixo, os dizeres photo enforced. Mas e se for no sinal (ou farol, como dizem aqui em São Paulo)? Red light e, logo abaixo, photo enforced é bem comum, assim como o desenho clássico do sinal, com as três luzes coloridas, e photo enforced abaixo.

Outras expressões úteis nesse contexto são red light camera, speed camera, electronic speed tickets, e-tickets. Existe até um site, www.photoenforced.com, em que você pode verificar onde estão localizados os “pardais” nas ruas e estradas dos EUA. Evidentemente, a melhor opção no seu texto vai depender, como tudo na tradução, do contexto.

Mais tradução

Há tempos venho pensando em passar a escrever mais sobre tradução neste espaço. A partir de hoje, começo a pôr essa ideia em prática. Mas não esperem ensaios sobre teoria da tradução. Teoria não é a minha; gosto da prática. O que pretendo fazer é mais ou menos na linha do “mas como é que a gente traduziria isso?” Vou pegar coisas que encontro no dia a dia, seja na rua, no jornal, na Internet. Não fiz opção por esta ou aquela língua de partida. Também vou aproveitar para lançar um olhar crítico sobre o que se escreve por aí e mostrar que a coisa está cada vez mais feia.

É bom frisar que as sugestões de tradução a serem apresentadas são exatamente isso: sugestões, pois, com muito mais frequência do que imagina o leigo, há mais de uma forma de traduzir uma palavra, expressão, frase. Minhas traduções vão se basear na minha experiência, sobretudo com o inglês americano e os Estados Unidos, e podem diferir da sua tradução. Assim, acolherei críticas, sugestões, comentários, especialmente aqueles com soluções que funcionariam em outros países. O espaço é livre.

Por fim, antes que perguntem, os textos pessoais vão continuar, entremeados com os artigos sobre tradução. Ainda não vejo a necessidade de separar as duas coisas. Aquele abraço.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A língua nossa de cada dia

Após ter passado praticamente a vida inteira em Brasília, minha cidade natal, e os últimos oito anos nos EUA, vim morar no interior de São Paulo, a mais ou menos uma hora da capital. Nesses quatro meses que estou aqui, tenho, como sempre, prestado muita atenção no que leio e escuto. Algumas coisas têm chamado a minha atenção, umas positivas, outras nem tanto.

Logo que chegamos, mais precisamente quando a Érica começou a dar aula, descobrimos com os alunos dela que uma coisa que sempre gostei de fazer tem nome. Desde pequeno, sempre tive o costume de molhar o pão ou a torrada ou o biscoito no café com leite. Aqui na região de Campinas, chamam isso de pochar. Conheciam? Serve também quando se molha o pão na sopa, no chá, etc. Entrou, claro, para o meu vocabulário.

Outra coisa que me chama a atenção aqui é o costume das pessoas de chamar as outras apenas pela primeira sílaba do nome. Não me lembro de fazermos isso em Brasília. Aqui é muito usual. Na escola, as crianças são chamadas de Rô e Clá. Pode?! E pensa que eles gostam? Já os instruí a responder que é Rodrigo e Clarissa. Mas para ter uma ideia de como é sério isso aqui, uma frase como esta seria perfeitamente compreensível na família da minha mulher, de São José do Rio Preto: “Pá, fala pra mã que a Dá, a Mi, o Fá e a Mê vão passar o fim de semana na casa da Vã e do Ju. Será que é costume só aqui em São Paulo ou isso é usual em outras partes do Brasil?

Mas tenho visto uma também que, vamos ser sinceros, é bem feia e, por mim, deveria sumir. Que história é essa de “chupa”? Quando o Flamengo eliminou o Corínthians na Libertadores, recebi um email de um amigo são-paulino com os dizeres “Chupa timinho”. No Twitter foi um tal de “Chupa Flamengo” após a eliminação da Libertadores. Mas não é só com time de futebol. No Twitter mesmo se lê Chupa PT, Chupa Garotinho, Chupa Dilma. Quando saí do Brasil no comecinho de 2002, eu não ouvia isso. De onde veio essa besteira? Tá bom de ela voltar pra lá e não aparecer mais.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Caro carro, carro caro (2)

A título de comparação, hoje deu no G1 que a Chevrolet vai lançar o sedã Malibu aqui no Brasil (http://tinyurl.com/38pljsx). O Malibu é um carrinho normal nos Estados Unidos, não é considerado um carro luxuoso. Lá, custa a partir de 22 mil dólares (http://tinyurl.com/29q637j). Aqui, vai custar a partir de 90 mil reais e, vejam só, vai ficar posicionado entre o Vectra e o Ômega. Mais um básico americano vendido aqui como carro de luxo e por um preço exorbitante.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Caro carro, carro caro

No fim de semana, li reportagem da revista Exame sobre o porquê dos automóveis serem tão caros no Brasil, tanto em termos absolutos como em comparação a outros países emergentes como o nosso. Para mim, dois pontos se destacaram, um evidente e outro que talvez não venha de imediato à ideia.

O primeiro é que uma boa parcela do preço dos carros é imposto. O governo arrecada muito e, claro, não vai abrir mão dessa fonte de receita só porque o povão quer carro mais barato. O segundo e, para mim, o pior, é que, apesar dos preços altos e das condições de crédito escorchantes, nunca se vendeu tanto carro no Brasil. Se vende tanto, por que as montadoras e revendedoras baixariam os preços? Ora, se a demanda pela minha mercadoria é grande, posso subir meu preço ou, ao menos, mantê-lo lá em cima.

Em suma, se alguém tinha alguma esperança de um dia não ter que gastar uma fortuna na hora de comprar um carro, pode ir tirando o cavalinho da chuva porque isso não vai ocorrer tão cedo. Assim como em tantos outros casos, continuaremos a pagar caro por um bem de qualidade inferior à que se consegue, por bem menos, em outros países.

sábado, 15 de maio de 2010

Chutes e pontapés

"Quando vamos subir no palco, o espírito é sempre esse: vamos chutar uns traseiros!" (Frase extraída da entrevista com Tom Hamilton, baixista do Aerosmith, publicada no caderno C2+música do Estadão de hoje e também no site do jornal (http://tinyurl.com/3687fqf).

Você aí que me lê, mas não fala inglês, deixa eu fazer uma pergunta: Entendeu o que esse cara quer dizer com essa história de subir ao palco e aplicar pontapés na bunda dos outros? Que história amalucada, hein? Faz sentido pra você?

Claro que não faz sentido. Na verdade, quem merece uns chutes é a anta do tradutor. Num contexto como esse, quando o sujeito diz que vai kick some ass, está simplesmente dizendo que vai botar pra quebrar ou, caso você prefira usar uma palavra chula como no inglês (ass não é palavra que se diga na frente da avó), botar pra foder (ou fuder, como preferem alguns).

Essa história me fez recordar de outro erro no mesmo estilo. Uma vez li que a Madonna havia dito que uma determinada música lhe havia arrancado as meias (had knocked her socks off). Música arrancando meia é brabo, hein?! A música havia simplesmente arrebatado a Madonna, lhe agradado em cheio, só isso.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Back in the saddle

After eight years as a staff translator at the IMF, my employment relationship with the Fund finally came to an end yesterday. This means I am now free to take any job or work that comes my way. I have set up shop in the São Paulo area and, for the time being, will be pursuing a freelance translator career.

Although I started out as a freelancer, working in-house for eight years makes it fell like I’m starting afresh on a completely new job. It’s not quite like that, but it’s still an exciting challenge.

So, JV is now open for business. Bring it on!

x - x - x

Após oito anos trabalhando como tradutor concursado no FMI, meu vínculo empregatício com o Fundo foi finalmente encerrado ontem. Isso significa que agora estou livre para aceitar o trabalho ou emprego que bem entender. Por ora, vou trabalhar como tradutor freelance na região de São Paulo.

Embora tenha começado como freelance, após trabalhar oito anos fora desse mercado, tenho a sensação de que estou começando num emprego totalmente novo. Claro, não é exatamente por aí, mas ainda assim tem um gostinho de desafio.

Portanto, estou de volta ao mercado e aberto a projetos e parcerias. Vamos em frente.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A conta de luz e o frio

Na sexta-feira chegou a conta de luz. Duzentos e cinquenta e sete reais e uns quebrados! Se considerarmos que a casa em que moramos não tem calefação nem ar condicionado, uma conta dessas é uma fortuna, um disparate. Fico maluco quando penso que tenho que pagar tudo isso e, mesmo assim, passar calor no verão e frio no inverno. Gasta-se um montão e não se tem conforto, o que se aplica a vários aspectos da vida no Brasil. Nos EUA, pagava proporcionalmente menos pela energia, pois morava numa casa talvez um terço maior do que esta, com sistema de ar condicionado e aquecimento central. Mas é que somos roubados, sobretudo pelo governo. Nessa conta, só de ICMS, estão me tomando quase 65 reais.

x-x-x

Hoje amanheceu frio aqui em Vinhedo. Às 7h, fazia uns 13°. Meus amigos americanos certamente vão dizer que 13° não é frio. É, não é exatamente frio. Mas se você tem que ficar numa casa sem aquecimento, sentado à frente de um computador, batucando no teclado, aquele friozinho vai aborrecendo, vai fustigando o cristão. Encheu tanto o saco que fui calçar meias e mantive a calça jeans que pus para ir comprar o meu jornal e uma rúcula para o almoço. Olha, dá para dizer até que se sofre mais com o frio aqui do que lá onde morávamos. Mas lá fazia temperatura abaixo de zero, nevava, diriam os mais friorentos. Sim, mas dentro de casa era quentinho. Aqui, você não tem para onde correr. O jeito é se agasalhar todo, o que me desagrada. Casaco dentro de casa não dá.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Coisas que te deixam com os olhos marejados

Promessa é dívida: A tradução (livre, bem livre) do texto em inglês do dia 28 de abril.

"Acabei de receber uma mensagem da ex-professora da Clarissa do primeiro ano, lá da escola da Virgínia. Ela juntou recados enviados à Clarissa por alguns dos ex-coleguinhas. É o tipo de coisa que te deixa com os olhos marejados.

'Querida Clarissa,

A turma sente muita saudade de você! Temos umas coisinhas pra te dizer:

Espero que esteja curtindo aí no Brasil e torço para que se divirta bastante. (Caroline)

Espero que esteja se divertindo aí no Brasil. Você ainda tem aquele peixinho? (Natalie)

No Dia da Terra, demos um pulo fora da escola com os nossos colegas do quinto ano. Encontramos um monte de lixo e ajudamos a Terra. Você ainda está no meu coração e sinto muita saudade de você. Queria muito que você tentasse arrumar um voo para voltar com a sua família e vir à escola nos visitar. Queria que ficasse aqui pra sempre. Tenho certeza de que todos gostariam de te rever. (Kinsley)

Sinto tanta saudade de você! Estamos no quarto livro da Mrs. Piggle-Wiggle (Mitchell)

Espero que esteja curtindo bastante a sua nova escola. (McKenzie)

Quando estávamos catando lixo, encontramos uma canoa, mas não a jogamos fora; seria grande demais. (Christopher)

Sentimos muita saudade de você e torcemos para que volte. (Kate)

Clarissa, sentimos muita saudade de você. Esperamos que esteja se divertindo com sua família. Tem um menino novo, chamado Taylor, na nossa sala. Espero que esteja curtindo o Brasil. Adoramos quando você estava aqui conosco e ficamos tristes porque foi embora, mas ainda guardamos você no coração. Adoro você como amiga. Estamos muito felizes que você está se divertindo aí na sua nova casa. Sentimos muita saudade. Gostei pra valer de brincar com você e ainda guardo você no meu coração. (Brennan)

Espero que esteja gostando da sua nova casa. (Emily)

O tempo aí no Brasil é frio ou quente? Acho que deve ser quente porque fica perto do Equador. (Taylor)

Espero que esteja se divertindo aí no Brasil. (Eli)

Tem Dia da Terra aí no Brasil (Daniel B)

Espero que ainda esteja se divertindo aí no Brasil (Daniel F)'

O engraçado foi que, ontem à noite, a Clarissa pediu para dar uma olhada no scrapbook que deram para ela um dia antes de partirmos. Olhou detidamente cada página e, hoje de manhã, pediu para levá-lo para a escola, para mostrá-lo aos coleguinhas. Pra mim, foi uma coincidência assustadora.

Vou imprimir a mensagem da professora e deixá-la na cama da Clarissa. Vai ser uma tarde de fortes emoções."
 
Até que ela reagiu bem. Ficou felicíssima ao ler os recados. Os olhinhos brilhavam, mas não houve drama nem chororô porque queria voltar pra lá. Isso é bom.

Bem que eu queria ir

É, bem que eu queria ir ao Pacaembu logo mais, dar uma força para o meu Mengão, mas não vou. E não é porque não consegui ingresso. Na verdade, nem procurei. Achei melhor ficar em casa e ver pela TV. Afinal de contas, não é de hoje que ir a um estádio de futebol no Brasil é quase sempre um programa de índio com selo de qualidade Funai.

No comecinho de fevereiro, menos de duas semanas após voltarmos para o Brasil, estávamos hospedados na casa de uma prima da Érica, perto de Campinas. O marido da prima, corinthiano, me chamou para irmos ver o Timão enfrentar a Ponte Preta lá no Moisés Lucarelli, o Majestoso (que devia ser majestoso quando foi inaugurado; agora está de dar pena). Fomos, mas que situação. Saímos de casa como se estivéssemos indo para a guerra. As mulheres nos cobriram de recomendações e pediram que tomássemos cuidado e não sei mais o quê. Ficaram em casa preocupadas. Pode?

Eu fico me lembrando de quando ia a praças de esportes lá nos EUA. Nem passava pela cabeça da Érica que eu poderia correr algum risco lá no jogo. Corria tudo na maior tranquilidade, na maior civilidade. Não havia esse negócio de uma torcida entrar por um lado e outra por outro; nada de um torcedor intimidar o outro, dar “pescotapa”, jogar xixi. Isso é coisa de bicho. Cada um torce para o time que bem entender, ora!

Mas voltando ao clássico Macaca x Timão, que experiência! No campo, o jogo até que foi bom, bem movimentado, disputado. Mas o resto foi triste. Na chegada, você já fica preocupado com o carro. Onde estacionar? Por que dar 10 reais para um vagabundo que diz que vai “tomar de conta”, mas vai embora para casa aos 5 minutos do primeiro tempo? Será que o carro vai estar lá quando voltarmos? Mas o negócio é entregar a Deus e torcer para que nada ocorra.

Lá dentro, a coisa piorou. Acabei no meio da torcida do Corínthians, entre a Camisa 12 e a Pavilhão 9. Já imaginaram que beleza? E ai de você se der pinta de que não torce para o time deles. Você fica lá tenso, acompanhando o jogo, mas sem deixar transparecer que está ali apenas para apreciar a partida. Para salvar a minha pele, eu reclamava de um ou outro jogador, xingava o juiz. Apanhar é que eu não iria, ora! É uma pena que seja esse o clima em grande parte das arquibancadas dos estádios brasileiros. Ou você se enquadra e segue o que o chefe mandar, ou então corre sério risco de não sair dali inteiro.

Mas o pior ainda estava por vir. Em dado momento, uma das organizadas quis esticar a sua faixa ali na frente e também mostrar que estava ali seguindo o seu time. Outra, que já estava com a sua faixa colocada desde o primeiro tempo, se melindrou e não quis afastar a sua faixa para dar espaço para a da outra. Começaram a se olhar feio, e eu pensando, “Não, esses animais não me vão brigar aqui por causa de uma porcaria de uma faixa”. E enquanto isso, a polícia só olhava e o Finazzi, ex-jogador corinthiano, virava o jogo para a Ponte. Pronto, aquele gol tinha tudo para desencadear um quebra-pau generalizado. Era o programa de índio se tornando cada vez mais real.

Mas tudo acabou bem. Fomos embora rapidinho tão logo o juiz apitou o fim da partida, encontramos o carro onde o havíamos deixado e chegamos em casa sãos e salvos, para o alívio das esposas. Mas peraí? Isso é lá diversão? Duas, três horas de tensão apenas porque saímos de casa para ver um jogo? Já está mais do que na hora de as autoridades apertarem essa turma barra pesada travestida de torcedor, afugentá-los dos estádios e tornar um jogo de futebol um programa família, como o é qualquer evento esportivo nos Estados Unidos. Um dia chegamos lá.

sábado, 1 de maio de 2010

"Quando vamos subir no palco, o espírito é sempre esse: vamos chutar uns traseiros!" Frase tirada da entrevista com Tom Hamilton, baixista do Aerosmith, publicada no caderno C2+música do Estadão de hoje, bem como no site do jornal (http://tinyurl.com/3687fqf).

Você aí que me lê, mas não fala inglês, deixa eu perguntar: O que você entende por isso aí que o Hamilton disse? Que história amalucada é essa de subir no palco e chutar a bunda dos outros? Faz sentido pra você?

Claro que não faz sentido. Na verdade, quem merece uns chutes é a anta do tradutor. Num contexto como esse aí, quando o sujeito diz lá em inglês kick some ass, ele quer dizer, em bom português, botar pra quebrar ou, se você quiser usar uma expressão chula como a do inglês (ass não é palavra que se diga na frente da sua avó), botar pra foder (ou fuder, como preferem alguns).

Essa aí me fez lembrar de um outro erro no mesmo estilo. Uma vez li em algum lugar que a Madonna havia dito que determinada música lhe havia arrancado as meias (it had knocked her socks off). Em português, música arrancar meia é de lascar, hein?! A música arrebatou a Madonna, a agradou em cheio. As meias, tenho certeza, não saíram dos pés dela.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

The kind of stuff that brings tears to your eyes

Para quem não lê inglês, mais tarde traduzo.

I just received an email from Clarissa's former 1st grade teacher in Virginia. She compiled messages to Clarissa from some of her former classmates. That's the kind of stuff that brings tears to your eyes.

"Dear Clarissa,

1C misses you very much! We have some things to tell you:

I hope you are having fun in Brazil and I hope you have a great time (Caroline)

I hope you're having a good time in Brazil and do you still have your fish? (Natalie)

On Earth Day we went outside with our 5th grade buddies and we found a lot of trash and helped the earth. You are still inside my heart and I really miss you and I really would like you to try to book a flight back with your family and come back to this school to visit. I'd like you to stay here forever. I'm sure that everyone would like to see you again. (Kinsley)

I miss you so much! We are on the 4th book of Mrs. Piggle-Wiggle. (Mitchell)

I hope you are having a great time at your new school. (McKenzie)

When we were picking up trash we found a canoe but we didn't throw it out, it would be way too big. (Christopher)

We miss you so much and hope you move back. (Kate)

Clarissa, we miss you a lot. We hope you're having fun with your family and we got a new boy named Taylor in our class. I hope you're having a good time in Brazil and we all loved having you here with us and we were sad you left, but we still remember you in our heart. I love you as a friend. We are very happy that you are having a good time in your new home. I miss you a lot. I really enjoyed having a good time with you but I still see you in my heart. (Brennan)

I hope you like your new home. (Emily)

Is the weather cold or hot in Brazil? I guess it's hot because it's close to the equator. (Taylor)

I really hope you are having a good time in Brazil. (Eli)

Do you have Earth Day in Brazil? (Daniel B)

I hope you're still enjoying your time in Brazil! (Daniel F)"
 
Funny thing is last night Clarissa asked to take a look at the scrapbook that was put together and given to her the day before we left. She went carefully over each page and, this morning, asked to take it to school to show it to her friends there. As far as I am concerned, that's a scary coincidence.
 
I am going to print out her teacher's email and leave it on Clarissa's bed. We are in for an emotional afternoon.

domingo, 18 de abril de 2010

Reminiscências de um clássico

Minha primeira lembrança dos confrontos entre Flamengo e Botafogo remonta a uma aposta. Todas as vezes que os dois se enfrentavam, meu pai, fumante inveterado, apostava um pacote de cigarros Carlton com um colega de hospital (sim, o fumante inveterado era médico). Quando o Botafogo levava a melhor, meu pai era obrigado a enrolar o prêmio em jornal, branco e preto, nas cores do Fogão. Quando o Flamengo vencia, era a vez do colega enrolar o prêmio em fita de máquina de escrever, vermelha e preta, nas cores do Mengão. E eu me divertia com aquilo.

Com o passar dos anos, outros jogos inesquecíveis foram sendo guardados na memória. Houve aquele Bota 1 x 0 Fla, em que estava em jogo o recorde de invencibilidade de um clube no Brasil. Quis o destino que o Flamengo, em busca da sua quinquagésima terceira partida sem derrota, enfrentasse o Botafogo, então detentor do recorde, com 52 partidas sem perder. Renato Sá fez o gol único da partida, ainda no primeiro tempo e frustrou os flamenguistas. Numa daquelas assustadoras coincidências do futebol, o próprio Renato Sá havia sido o carrasco que encerrou a série do Botafogo, fazendo dois gols num Grêmio 3 x 2 Botafogo.

Uma lembrança que guardo daquele 1 x 0 foi que eu, então com oito anos, fiquei extremamente decepcionado com a derrota, brabo mesmo. Resolvi que não ia mais torcer para o Flamengo. Picotei poster, queria rasgar a camiseta, cortar uma bandeirinha que eu tinha. Deve ter sido terrível para o meu pai ver o filho querer se bandear para o outro lado. Mas ele interveio sabiamente e me mostrou que não era todos os dias que a gente podia ganhar. Depois de muita conversa, resolvi deixar as coisas como estavam.

No decorrer dos anos, houve outras decepções. Aquele 1 x 0, sobre o qual já escrevi aqui, em que o Maurício empurrou o zagueiro do Flamengo (empurrou sim!) antes de meter a bola nas redes e tirar o Botafogo de uma fila que parecia interminável. Houve o 1 x 0 em 1997, em que o Botafogo, com o time reserva, bateu o Flamengo de Romário e companhia e o eliminou das finais da Taça Guanabara.

Mas também há lembranças boas, muitas. O 6 x 0 de 81, com o sexto gol,marcado pelo Andrade, o camisa 6, aos 42 (4 + 2 = 6), num petardo de fora da área, vingando os 6 x 0 impostos em 1972. Até hoje guardo com carinho a revista Placar daquele jogo. Como não falar do título brasileiro conquistado em cima do Botafogo em 1992. Esse, infelizmente, eu não vi, pois morava fora do Brasil na época. Apenas tomei conhecimento por um telefonema. E claro, nos últimos anos, salvo uma Taça Guanabara e uma Taça Rio, os confrontos entre os dois clubes só têm dado alegria aos rubro-negros.

E hoje tem mais um. Haja coração. Talvez esta seja a melhor equipe que o Botafogo manda a campo nos quatro últimos estaduais. Aquele ataque com Herrera e Loco Abreu é chato e o tal do Caio, quando entra, dá trabalho. Mas tenho fé no Flamengo, mesmo sem Juan, Léo Moura, que é dúvida, e com aquele meio-de-campo que não se acerta. Vamos com força e confiantes na mística rubro-negra. Talvez o destino queira que, após o tricampeonato estadual sobre o Vasco em 1999/2000/2001, o Flamengo pare também num tricampeonato, desta vez sobre o Botafogo. Ou talvez seja a nossa hora de chegar ao inédito tetra estadual. Vejamos logo mais.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

E lá vamos nós fazer papel de bobo mais uma vez

Transcrevo, na íntegra, nota publicada hoje no caderno de esportes do Estadão. Em seguida, comento.

“Congresso pretende ouvir explicações de Blatter sobre 2014
O presidente da FIFA, Joseph Blatter, foi convidado a se explicar ao Congresso Nacional sobre a Copa de 2014 e os gastos do Brasil. O convite deve chegar hoje a Zurique. Foi aprovado pela Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara.
A comissão quer saber se o Brasil está ou não cumprindo o cronograma de responsabilidades assumidas, se há chance de exclusão de sedes e se a FIFA irá estabelecer data limite para que as obras nos estádios de fato comecem. Além disso, busca informações sobre o prazo final para as cidades serem confirmadas como sede e se há possibilidade de o País deixar de fazer a Copa.
Quem arcará com os custos em caso de prejuízo é outra pergunta a ser feita a Blatter, que deverá responder se casos de corrupção nos preparativos da Copa serão punidos ou não.
O deputado Silvio Torres, autor do requerimento da convocação, justificou dizendo que convidou o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em seis ocasiões para ir à comissão, mas sequer recebeu resposta. /Jamil Chade”

Não consigo acreditar que vão incomodar o presidente da FIFA e pedir-lhe respostas a perguntas, na maioria estapafúrdias, que deveriam ser respondidas aqui dentro, por quem está organizando o evento. Que falta de senso! Imagina o que vão pensar lá na Suíça quando tomarem conhecimento disso.
Daqui a pouco vai aparecer um para convidar o Ban Ki Moon, o chefão da ONU, para explicar se existe alguma possibilidade de os países do Conselho de Segurança se reunirem para dar um cacete no Brasil porque estamos de gracinha com o Irã. Bando de imbecis!

domingo, 11 de abril de 2010

Agora quem dá bola é o Santos

Daqui a pouco é hora de torcer para o Santos. Todos os brasileiros devem torcer para os Meninos da Vila no jogo de hoje e nos três que lhes faltariam para ganhar o Campeonato Paulista (faltariam, pois ainda estamos no campo das hipóteses). Mesmo quem é são-paulino deve virar a casaca. O título do Santos coroaria o belo trabalho realizado por aquele elenco de garotos e serviria para mostrar que ainda é possível jogar futebol bonito, ofensivo, e ganhar título. Se não levantarem o caneco, será mais um argumento a favor desse futebol moderno que se joga por aí, defensivo, cheio de cabeças-de-área, esse futebol de Josués que vamos levar para a África do Sul.

É bom ressaltar a ousadia do Dorival Júnior, treinador do Santos. Que técnico hoje em dia teria a coragem de entrar em campo com a vantagem de dois empates e, na casa do adversário, escalar dois meias ofensivos (Marquinhos e Ganso), três atacantes (Robinho, André e Neymar) e apenas um volante (Arouca)? Essa, pelo menos, foi a escalação que apareceu no Estadão de hoje. Espero que, até a hora da partida, ele não mude de ideia. Afinal de contas, contra um poder de fogo desses, quem tem que se preocupar em defender é o São Paulo.

Nota: Ficou meio sem sentido esse quadrangular para definir o campeão do interior. Se considerarmos o Santo André como equipe do interior (sei lá, está ali na Grande São Paulo), o título do interior deveria ficar para ele (segundo lugar na primeira fase) ou, na pior das hipóteses, para o vencedor da semifinal entre ele e o Grêmio Prudente. Mais uma vez, a FPF meteu os pés pelas mãos ao subestimar a força dos pequenos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

iPad

Daqui de longe, a olho nu, o iPad me parece mais um iPod tamanho-família, um iPodão (Touch, claro). O pior é ver a turma fazer fila e comemorar a compra como se fosse o nascimento de um filho. Já virou mania adquirir o aparelho mais moderno simplesmente para não ficar de fora. E se for da Apple, a histeria parece ser maior. Aquilo deixou de ser empresa há muito tempo. Virou um culto, uma seita. A loja de Nova Iorque, na esquina do Central Park, é a Meca deles. Olha, se o Steve Jobs engarrafasse lama, pusesse aquele logotipo da Apple no vasilhame e vendesse, acho que gente à beça compraria e os mais fanáticos ainda beberiam o conteúdo. Deixemos a poeira baixar e aguardemos uma nova versão.

Infraestrutura capenga

Na terça-feira passada, estive em Viracopos, o aeroporto de Campinas, para apanhar minha mãe. Até então, só havia estado lá uma vez, ainda na década de 80. Voltávamos de uma viagem aos EUA e não havia teto para descermos em Guarulhos. A única lembrança, desagradável, que tinha do lugar era a de que fomos parados na alfândega e tivemos que pagar uma taxa para liberar uma filmadora.

Desta vez, encontrei um aeroporto algo derrubado. Bom, o terminal até que estava arrumadinho, embora eu não tenha passado muito tempo lá para observar; apenas dei um pulo na livraria, peguei o jornal e segui para o desembarque. Mas do lado de fora, a coisa estava feia. Mato por cortar, sujeira, buracos na pista e nos estacionamentos e, o mais incrível, duas vagas para deficientes exatamente onde estava a faixa de pedestre. Coincidência a matéria de capa da Veja desta semana tratar da precária situação dos nossos aeroportos.

Enquanto isso, Dilma e Lula lançaram o PAC 2, sem nem chegarem perto de completar o PAC original. Prometeram investimentos que ultrapassam a astronômica cifra de um trilhão de reais. Só faltou explicar direito de onde virá essa dinheirama toda. Do outro lado, o Serra chegou até a inaugurar maquete e entregou ao povo do seu estado* as obras, ainda inacabadas, de ampliação da Marginal do Tietê e mais um trecho do Rodoanel, em que, segundo relatos de jornalistas, só havia iluminação nas pontes e os canteiros ainda estavam por terminar. O negócio era inaugurar antes de deixar o cargo, para depois poder bater no peito durante a campanha eleitoral e dizer, “eu fiz”.

E claro, falando de infraestrutura, não posso deixar de mencionar o caos causado pelas chuvas em São Paulo desde janeiro e as cenas de hoje no Rio e de dias atrás na minha Brasília. Claro, há outros fatores em jogo, mas esse também é um problema de infraestrutura. E assim seguimos rumo à Copa, daqui a quatro anos, e à Olimpíada, daqui a seis. Acho que imaginam que os problemas vão se resolver como num passe de mágica até lá. Vão esperando.

* Notem que escrevi estado com minúscula. Sempre me questiono por que jornais como o Estadão insistem em grafar Estado, com maiúscula, ao se referir a uma unidade da federação. Quando se fala no conjunto das instituições ou num país soberano, tudo bem, o certo é Estado; nos demais casos, é hipercorreção.

Morango

Se você gosta de morango e mora no Brasil, saiba que está no lugar errado. Ontem saí de manhã para comprar uns para a Érica fazer uma sobremesa. O que se acha por aqui são aquelas caixinhas de plástico verde pequenininhas, com duas camadas de morangos miúdos, "artesanalmente" dispostos. É difícil achar uma caixinha em que vários dos morangos de cima não estejam passados. Aí você já fica imaginando os de baixo. Bom, esses são ainda menores. Não dá nem para começar a matar a vontade. E cada caixinha dessas sai por volta de cinco reais. E não é porque a fruta está fora da estação. Estive no Brasil em agosto, época boa para morango, e era a mesma coisa. A caixinha talvez custasse um ou dois reais a menos, mas a qualidade da fruta era a mesma. Não deveria dizer isso, mas me dá saudade dos morangos que comprava lá nos EUA. Era cada caixa que não tinha mais tamanho; dava para alimentar um batalhão. E, em termos de preço, não dá nem para comparar. Pagamos muito mais caro aqui. Já avisei à Érica para começar a aprender umas receitas de sobremesa com banana e maçã. Essas não faltam e saem mais em conta.