terça-feira, 6 de abril de 2010

iPad

Daqui de longe, a olho nu, o iPad me parece mais um iPod tamanho-família, um iPodão (Touch, claro). O pior é ver a turma fazer fila e comemorar a compra como se fosse o nascimento de um filho. Já virou mania adquirir o aparelho mais moderno simplesmente para não ficar de fora. E se for da Apple, a histeria parece ser maior. Aquilo deixou de ser empresa há muito tempo. Virou um culto, uma seita. A loja de Nova Iorque, na esquina do Central Park, é a Meca deles. Olha, se o Steve Jobs engarrafasse lama, pusesse aquele logotipo da Apple no vasilhame e vendesse, acho que gente à beça compraria e os mais fanáticos ainda beberiam o conteúdo. Deixemos a poeira baixar e aguardemos uma nova versão.

Infraestrutura capenga

Na terça-feira passada, estive em Viracopos, o aeroporto de Campinas, para apanhar minha mãe. Até então, só havia estado lá uma vez, ainda na década de 80. Voltávamos de uma viagem aos EUA e não havia teto para descermos em Guarulhos. A única lembrança, desagradável, que tinha do lugar era a de que fomos parados na alfândega e tivemos que pagar uma taxa para liberar uma filmadora.

Desta vez, encontrei um aeroporto algo derrubado. Bom, o terminal até que estava arrumadinho, embora eu não tenha passado muito tempo lá para observar; apenas dei um pulo na livraria, peguei o jornal e segui para o desembarque. Mas do lado de fora, a coisa estava feia. Mato por cortar, sujeira, buracos na pista e nos estacionamentos e, o mais incrível, duas vagas para deficientes exatamente onde estava a faixa de pedestre. Coincidência a matéria de capa da Veja desta semana tratar da precária situação dos nossos aeroportos.

Enquanto isso, Dilma e Lula lançaram o PAC 2, sem nem chegarem perto de completar o PAC original. Prometeram investimentos que ultrapassam a astronômica cifra de um trilhão de reais. Só faltou explicar direito de onde virá essa dinheirama toda. Do outro lado, o Serra chegou até a inaugurar maquete e entregou ao povo do seu estado* as obras, ainda inacabadas, de ampliação da Marginal do Tietê e mais um trecho do Rodoanel, em que, segundo relatos de jornalistas, só havia iluminação nas pontes e os canteiros ainda estavam por terminar. O negócio era inaugurar antes de deixar o cargo, para depois poder bater no peito durante a campanha eleitoral e dizer, “eu fiz”.

E claro, falando de infraestrutura, não posso deixar de mencionar o caos causado pelas chuvas em São Paulo desde janeiro e as cenas de hoje no Rio e de dias atrás na minha Brasília. Claro, há outros fatores em jogo, mas esse também é um problema de infraestrutura. E assim seguimos rumo à Copa, daqui a quatro anos, e à Olimpíada, daqui a seis. Acho que imaginam que os problemas vão se resolver como num passe de mágica até lá. Vão esperando.

* Notem que escrevi estado com minúscula. Sempre me questiono por que jornais como o Estadão insistem em grafar Estado, com maiúscula, ao se referir a uma unidade da federação. Quando se fala no conjunto das instituições ou num país soberano, tudo bem, o certo é Estado; nos demais casos, é hipercorreção.

Morango

Se você gosta de morango e mora no Brasil, saiba que está no lugar errado. Ontem saí de manhã para comprar uns para a Érica fazer uma sobremesa. O que se acha por aqui são aquelas caixinhas de plástico verde pequenininhas, com duas camadas de morangos miúdos, "artesanalmente" dispostos. É difícil achar uma caixinha em que vários dos morangos de cima não estejam passados. Aí você já fica imaginando os de baixo. Bom, esses são ainda menores. Não dá nem para começar a matar a vontade. E cada caixinha dessas sai por volta de cinco reais. E não é porque a fruta está fora da estação. Estive no Brasil em agosto, época boa para morango, e era a mesma coisa. A caixinha talvez custasse um ou dois reais a menos, mas a qualidade da fruta era a mesma. Não deveria dizer isso, mas me dá saudade dos morangos que comprava lá nos EUA. Era cada caixa que não tinha mais tamanho; dava para alimentar um batalhão. E, em termos de preço, não dá nem para comparar. Pagamos muito mais caro aqui. Já avisei à Érica para começar a aprender umas receitas de sobremesa com banana e maçã. Essas não faltam e saem mais em conta.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Armando Nogueira

E lá se foi Armando Nogueira. Que perda! Um grande jornalista, um dos pais do telejornalismo no Brasil, mas, para mim, especialmente, um homem que soube unir como ninguém as palavras e a emoção do esporte. É um dos poucos que, verdadeiramente, pode ser chamado de insubstituível. Vou guardar comigo, sobretudo, a maestria de suas maravilhosas crônicas no JB e a elegância e simpatia que esbanjava em seu programa no SporTV.

Sabem, sempre desconfiei de homem que diz que não gosta de futebol. Esses precisam de uma dose de Armando Nogueira. Vão atrás de suas crônicas, de seus livros. Verão que há muito mais poesia e encantamento do que imaginam naquilo que lhes parece tão somente uma distração, uma perda de tempo. O esporte e, mais do que todos, o futebol, é uma arte tão importante e imponente como qualquer outra, e o mestre Armando soube contá-la, em verso e prosa, como ninguém.

Pra encerrar, e a mesa-redonda no céu, no próximo domingo, com Armando Nogueira, João Saldanha e Nélson Rodrigues? Dá pra imaginar? Vai ser imperdível!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Casa de ferreiro

Hoje veio uma colega da Clarissa brincar aqui em casa após a escola. A mãe veio buscar e trouxe o filho, pouco mais velho que o Rodrigo. Acabou ficando e as crianças brincaram até. Pedimos pizzas e todos jantamos. O interessante ficou para a saída. A mãe, americana do Kansas, que está há pouco mais de um ano e meio no Brasil, meteu as crianças no banco de trás do carro sem cadeirinha (o tal do car seat), sem nada. Eu e Érica, brasileiros da gema, só porque moramos oito anos nos EUA, só transportamos Rodrigo e Clarissa devidamente acomodados nas suas cadeirinhas. E agora? Fiquei sem saber que é que está errado...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Chegamos ao centésimo

Este é o centésimo texto do blog. Que venham outras centenas. Eu, por minha vez, chego hoje aos 39. O dia não está exatamente como eu gostaria que estivesse num aniversário. Por enquanto, é caixa para tudo que é lado, inclusive nos banheiros. O que mais tem é caixa em que se lê books. Haja livro! Nessas horas eu me lembro do que a minha sábia vó dizia: "Burro carregado de livro é doutor."

O grande problema é que a casa é talvez um terço menor do que aquele em que a gente morava nos EUA. Americano é exagerado e tudo lá é grande, inclusive as residências. Uma casa normal de uma família de classe média americana seria considerada uma mansão aqui. Mas não tem nada não. Já, já a gente dá um jeito naquelas caixas todas e as coisas entram nos eixos.

Agora vou correr porque o técnico da Telefônica vai à minha casa para ver se resolve a Internet. Já faz duas semanas que pedi o serviço e nada. Tudo o que eu ouvia de ruim sobre a empresa é verdade. Dêem graças a Deus vocês que não precisam do serviço deles. Como não tenho opção, fico refém daqueles vagabundos.

É isso aí. Obrigado pelas mensagens de parabéns e apareçam. Tenho muita história pra contar e espero contá-las tão logo se regularize essa situação da Internet.

terça-feira, 9 de março de 2010

Finalmente

Para quem me acompanha por aqui, nossa mudança chega hoje, finalmente. Vou passar o aniversário cercado de caixas, mas tá bom. Agora é organizar as coisas e voltar à normalidade (ou algo parecido).

terça-feira, 2 de março de 2010

Ajuda a uma colega tradutora

Denise Bottmann, uma colega tradutora e autora do blog naogostodeplagio.blogspot.com, está sendo processada por uma editora por ter denunciado plágios em tradução. Foi redigido um manifesto sobre tal processo (apoiodenise.wordpress.com). Leiam e, por favor, subscrevam-no (www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?Bottmann&1). O esforço da colega merece todo o nosso apoio, pois plágio é cachorrada.

An update

A little something I wrote to post somewhere else...

Just a little update, as I've been too quiet on this front (I'm not a big Facebook fan, I'm afraid). We've been at our new home for almost two weeks now. We're still adapting to life in Brazil, and it's not been easy at times. We do not have an Internet connection yet due to technical problems with Telefonica, the local phone company. This means I cannot set up shop yet, but I've been busy with organizing things for when the container arrives. It's expected to be here next week, so I'll probably spend my birthday (just short of 40) surrounded by boxes (not again!!). Érica went through a selection process at a local college and is now teaching a class there twice a week. It's one semester only, but we see it as an open door. The kids are all right. Clarissa still sorely misses Virginia and her former school and friends, but she's getting used to life here. Rodrigo is taking the longer hours at school (7:30 to 15:00) in his stride and seems to be enjoying himself. All in all, life's been good.

(I originally wrote this one for Facebook, but they wouldn't let me post it because it is too long. See why I'm not a big fan? So I decided to post it here.)

OAB

Hoje cedo ouvia uma entrevista na CBN com um senador do PMDB do Amapá. Ele defendia um projeto de lei no mínimo polêmico. A ideia é eximir os bacharéis em Direito da obrigação de passar na prova da OAB para poderem advogar. Será que já não basta o sem número de advogados ruins que existem por aí? Se muitos dos poucos que conseguem vencer a barreira da OAB já são fracos, mal conseguem redigir, imagine os que não passam. Em vez de zelarem para que cheguem ao mercado os profissionais com um pouquinho mais de qualificação, querem abrir a porteira e deixar todo o mundo passar. É o fim da picada...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Com ou sem nota?

Minha cunhada, a quem sou muito grato, nos passou alguns móveis para que não ficássemos sem nada, esperando nossa mudança chegar. Nessa pequena mudança que chegou aqui na semana passada, vieram sofá, colchão, mesa e cadeiras de jantar, geladeira, fogão, mas ficou faltando o tampo de vidro de uma mesa de escritório. Logo isso! E eu precisando de uma mesa para começar a montar a minha bodeguinha e voltar a trabalhar.

Telefonei para uma vidraçaria daqui da cidade para ver quanto sairia para fazer esse vidro. A moça me deu lá um preço e disse que era sem nota. Se eu quisesse com nota, o marido dela teria que acrescer uma taxa a esse valor. Depois de oito anos nos EUA sem ter ouvido uma coisa dessas, isso soa até engraçado. É bem a cara do Brasil. Como a emissão da nota fiscal obriga a emissor a pagar o imposto, não emiti-la é uma das formas que temos de driblar o fisco. Lá nos EUA, onde os impostos também causam irritação, há até quem pegue um avião e jogue-o contra o prédio da Receita de lá, como fez aquele idiota em Austin. Cada um com seu problema e com sua solução.

No fim das contas, tem-se um círculo vicioso. Procura-se evadir e elidir porque os impostos são escorchantes. Mas os impostos são altos porque pouca gente paga. Será que, se fossem mais baixos, mais gente pagaria? Tenho minhas dúvidas, sobretudo se pensarmos na índole do brasileiro e imaginarmos que talvez os impostos nunca seriam baixos o suficiente. Para piorar, é no mínimo desestimulante pagar impostos e ver onde o nosso dinheiro vai parar. Salários de servidores públicos que não servem, bolso de vagabundo e por aí vai. Um amigo nos EUA dizia que tinha prazer em pagar imposto lá, pois ao menos tínhamos um retorno do governo na forma de serviços de qualidade. Ainda falta muito para chegarmos a esse estágio.

O negócio é frouxo mesmo

No domingo de noitinha, estava eu num Carrefour bairro, na fila do caixa. À minha frente, dois rapazinhos, de piercing, barba por fazer, roupa preta meio alternativa, cara de poucos amigos. Portavam umas latas de cerveja e uma latinha de pinga. Aparentavam ter por volta de 18 anos. Fiquei esperando o procedimento da caixa. Será que ela pediria a identidade dos dois? Não fez nada; imperturbável, passou as compras. Eu quase abri a boca para chamar-lhe a atenção e perguntar se ela não verificaria a idade dos dois, mas achei por bem me calar.

Nos EUA, o caixa certamente teria inquirido os dois. Eu frequentava um supermercado em que, nos caixas, ficava afixado um aviso bem claro: se você aparentar ter menos de 35 anos, lhe pediremos identificação. Num outro, acho que o Wegmans, lhe pediam a identidade ao comprar bebida alcoólica qualquer que fosse a sua idade. Nós, macacos de auditório dos americanos, deveríamos copiar essas coisas, mas os maus exemplos parecem exercer fascínio maior. Esculhambação este Brasil.

Celular

Há umas duas semanas, fiz um tour pelas lojas das operadoras de celular para me inteirar dos planos. Enquanto ouvia a explicação de cada vendedora, não conseguia me livrar da sensação de que seria logrado. Como é caro e complicado servico de celular aqui! Lá nos EUA, pagava 90 dólares por mês. O plano era dos mais simples, mas nos atendia bem. Eram 450 minutos para dividir com a Érica, ligações gratuitas do meu celular para o dela e vice-versa e acessso ilimitado à Internet pelo iPhone (desses US$ 90, US$ 30 eram para o plano de dados). E ainda podia fazer ligações sem tarifa alguma no fim de semana e à noite e os minutos que não eram usados eram acrescidos ao saldo do mês seguinte. Ah! Não havia nada de roaming. Os minutos valiam para o país inteiro e não me cobravam mais porque eu estava ligando de Washington, Boston ou Nova Iorque. Aqui, já estou me preparando para morrer nuns 300 reais ou mais por mês. Como praticamente todo o resto que vi neste meu primeiro mês de volta ao Brasil, celular é caro, muito caro.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Coisas do Brasil

É daquelas coisas que só ocorrem aqui ou em países como o nosso. Eu estava fechando a compra de um automóvel numa concessionária lá em Campinas. Claro, faz parte do processo aparecer alguém para lhe vender acessórios para o seu novo carro. Um deles era o tal do insulfilm, a película para escurecer os vidros do carro. A mocinha me explicou que havia três tonalidades: uma mais clarinha, que quase não escurecia nada, uma intermediária e uma bem mais escura, que podia atrapalhar em dias de chuva ou à noite. Fiquei de discutir o assunto com a minha mulher e telefonar no dia seguinte para dizer qual preferiria.

No dia seguinte, telefonei e atendeu uma mocinha diferente daquela com quem eu havia conversado no dia anterior. Ela me disse, vejam só, que a tal película mais escura não era aprovada pelo Detran e podia até resultar em multa. Se eu já havia ficado cabreiro na véspera, imaginem depois de ouvir essa. Como é que uma concessionária — vejam bem, não era uma oficina de fundo de quintal, mas uma concessionária — oferece um produto que, por ser ilegal, pode levar o comprador a ser multado e que, na pior das hipóteses, diminui a visibilidade a ponto de causar um acidente? Não passa pela cabeça de ninguém que isso está errado? Se fosse nos Estados Unidos, esse pessoal provavelmente já não estaria mais vendendo essa película. O primeiro acidente, com ou sem vítima, que decorresse, direta ou indiretamente, desse produto certamente acarretaria um processo de valores astronômicos que tiraria esses picaretas do mercado.

É uma tecla em que sempre bato. O brasileiro parece não enxergar o próximo, não se dá conta de que coisas como essas podem ferir ou até matar outra pessoa. É irresponsabilidade, pura e simples. Ainda falta muito, algumas gerações talvez, para isso aqui melhorar a ponto de não vermos mais esse tipo de coisa. Fico pensando se, ao apanhar o carro amanhã, não seria minha obrigação chamar a atenção da vendedora para esses riscos. Para falar a verdade, acho que seria uma bela perda de tempo. Meu conselho entraria por um ouvido e sairia por outro, podem apostar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Tempo louco

Enquanto a gente passa um calor do cão aqui no interior paulista, a neve vem causando estragos em Washington e região. Houve uma forte nevasca da sexta para o sábado, mais forte do que a que pegamos em dezembro, pelo que sei. A cidade está “fechada” desde a sexta. Ontem uma amiga nos escreveu para contar que, em algumas casas na vizinhança dela, o telhado simplesmente havia cedido e vindo abaixo por causa do peso da neve, que havia se transformado em gelo. Uma ex-colega do trabalho me disse que havia faltado energia na casa dela por um dia inteiro. Falta de energia significa nada de aquecimento. Aí o negócio é se agasalhar da melhor maneira possível. Para agravar a situação, viria mais neve de ontem para hoje. Oxalá esse inverno passe logo.

Mas voltando ao calor, eis um negócio que eu não suporto. Costumo me queixar à beça do tempo daqui, desse calor terceiro-mundista. Mas peraí! Por que terceiro-mundista? Tudo bem, também faz calor no primeiro mundo, admitamos. Eu me lembro de uma vez em que estive em Nova Iorque, em julho de 1998, dias após aquela desastrosa final do Mundial da França. Foi verão para ninguém botar defeito. Andávemos pela cidade tentando passar por baixo das marquises para pegar uma sombrinha. Quando dava, passávamos por dentro de uma loja para podermos aproveitar um pouquinho de ar refrigerado.

Mas o ponto em que eu queria chegar é que há uma diferença crucial entre os dois calorões: lá nos EUA, você só sente calor se quiser ou se precisar. Basta entrar numa casa ou prédio ou loja, o que seja. Praticamente todo lugar tem ar condicionado, o que tem lá seus problemas, o que é assunto para outro dia. Aqui no Brasil, a gente sabe bem que não é assim. Quem tem a casa todinha à prova de calor, com todos os cômodos refrigerados? Eu não conheço. No máximo são um ou dois cômodos da casa com ar condicionado, pois a conta de luz é proibitiva. No fim, salvo raras exceções, como uma repartição ou um escritório, passa-se calor o dia inteiro. E tome ventilador e banho para aliviar. É a isso que me refiro quando falo em calor terceiro-mundista.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

E Washington ficou para trás

Deixamos Washington no sábado, 16 de janeiro. Ufa! Foi uma pedreira. Após a partida do contêiner, chegamos a imaginar que teríamos umas duas semanas tranquilas para passear e curtir a cidade que tão bem nos acolheu por oito anos. Estávamos redondamente enganados e nem imaginávamos o que teríamos pela frente. Foi um período cansativo, de muito aborrecimento e problemas com a empresa de mudança, que infelizmente ainda não chegaram todos ao fim. Mas deixemos isso pra lá.

As lembranças que queremos guardar são as dos amigos, muitos, que fizemos nesses oito anos. Pessoas que estiveram com a gente até quase o último momento. São grandes amizades, que durarão para sempre. Também guardarei com carinho a rica experiência profissional e de vida que adquiri nesses oito anos, experiência esta que vai me ajudar na minha caminhada futura. Por tudo isso e muito mais, só tenho a agradecer à cidade. Obrigado, Washington!

x - x - x - x

Em nossos dois últimos dias em Washington houve, claro, momentos de emoção. Na sexta-feira, Clarissa foi ao seu último dia na escola em que estudava. Uns dias antes, ela havia dito que não queria chorar na frente dos coleguinhas. Ao deixá-la de manhã, era eu quem pelejava para controlar as lágrimas. Imaginava o que passava pela cabecinha dela. Mas foi só ela sair do carro que eu não me segurei. Fiz o caminho de volta às lágrimas. Mas não posso pôr a culpa só na Clarissa. Também havia naquele choro emoções só minhas, que eu havia contido nos últimos dois meses.

Mas houve também um momento no mínimo cômico. No caminho de volta, passei na lavanderia, pois precisava apanhar umas camisas que enviaria na mudança que seguiria por avião. Entrei no estabelecimento, peguei as camisas e me despedi do senhor coreano que me atendia na maioria das vezes em que eu ia lá. Agradeci a ele os anos de serviços prestados e lhe disse que estava indo embora para o Brasil. Em meio a isso tudo, tive novamente que conter o choro. Já imaginaram que patético? Chorar ao se despedir do coreano da lavanderia?! É nisso que dá deixar as emoções todas para a última hora.

Já no avião, rumo a Orlando, também precisei me segurar. Clarissa certamente foi quem mais sentiu ter de deixar Washington. Ela gostava muito da escola e estava muito apegada aos colegas de classe. Enquanto o avião taxiava, Clarissa olhava pela janela, chorava e vinha se encostar no meu ombro. E eu ali, me segurando, tentando ser forte para apenas confortá-la e tentar de alguma forma fazê-la perceber que dias melhores viriam. Mas aí ela voltava para a janela e chorava mais. Isso se repetiu até um pouco depois da decolagem. Foi duro. Mas agora isso são águas passadas. Na segunda-feira que vem, na nova escola, ela descobrirá novos amigos, que se juntarão aos antigos, e tudo acabará bem.

Nos próximos dias, Orlando e a Disney, um encontro curioso e minhas primeiras impressões do Brasil. Até lá.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sangue, suor e lágrimas

Pronto, foi. Como disse Churchill, foi sangue, suor e lágrimas. Acima de tudo, foi muita aporrinhação. Mudança já é uma porqueira e fica pior quando a empresa comete erros na organização. Vou sentar e escrever com muita calma uma carta com a mão bem pesada (enquanto escrevia isso, a vice-presidente de operações internacionais da empresa telefonou; acabei dizendo algumas coisas que preferiria ter guardado para a carta, mas ainda assim vou escrever).

Mas já são águas passadas. Bom que o contêiner foi embora e a casa ficou vazia (quase). Agora, se me dão licença, vou tomar um bom vinho e comer pizza, que, pelo burburinho lá em cima, deve estar chegando. Se eu não aparecer por aqui amanhã, ficam os meus votos de um 2010 extasiante. O meu vai ser.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O caso Sean Goldman

Ontem uma colega do Fundo me perguntou o que eu achava do caso, que está em todos os jornais e noticiários. Eu vejo a questão de forma bem clara, mas por dois pontos de vista diferentes.

A decisão de devolver a criança ao pai é a melhor para o menino? Não, não é. Onde ele terá uma vida melhor? Em Nova Jérsei, onde passará o dia inteiro na escola porque o pai, imagino, terá que trabalhar para sustentá-lo? Ou no Rio de Janeiro, no seio de uma família rica? A escolha é fácil. Eu prefiro o Rio.

Mas há outra questão. O que a mãe fez foi errado. Ela enganou o marido ao viajar ao Brasil para passar férias com o filho e, em seguida, decidir nunca mais retornar. Eu me coloco no lugar do pai e acho que esse erro precisa ser reparado. Ao tomar a decisão de não voltar aos Estados Unidos com o filho, a mãe nem fazia idéia da confusão em que meteria a sua família.

É claro, numa véspera de Natal, sinto pela avó do menino, que não tem culpa alguma, e se viu envolvida nisso tudo. Ela, o Sean e a irmãzinha de um ano e três meses são as maiores vítimas de um erro cometido lá atrás, há cinco anos. É uma pena que a Justiça tenha demorado tanto a resolver isso. Uma solução célere teria evitado muito da dor que se sente agora e se sentirá por muitos anos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Como virei tradutor

Um grande amigo e tradutor pediu aos colegas que escrevessem em seu blog sobre como viraram tradutores. Eu escrevi isto que segue e, por que não, resolvi colocar aqui também. A história é velha, mas ainda há um ou outro que não a conhece. Divirtam-se.

Comecei a estudar inglês aos 11 anos. Odiava! Minha mãe me deixava na Cultura Inglesa, mas eu não ficava lá. Dava a volta no prédio e ia jogar bola... devagarzinho, na sombra, claro, para não suar e chegar em casa com cara de quem não estava na aula. Tudo correu bem até chegar o primeiro boletim. Constava lá que o aluno era bom, mas apenas quando aparecia na aula. Minha mãe passou a me levar até a porta da sala, literalmente. Mal sabia ela o impacto que aquilo teria nas décadas seguintes da minha vida.

Saltemos para fins de 1993. Após voltar dos EUA, onde havia estudado música, todos me aconselharam a fazer o vestibular e buscar uma profissão de verdade, que aquele negócio de ser músico não dava futuro a ninguém. Abri um guia do vestibulando, ou coisa que o valha, da Editora Abril e fui folheando. Cheguei ao fim e a única coisa que me havia parecido razoavelmente interessante havia sido, vejam vocês, tradução. Eu já falava inglês, então meio caminho já estava andado, pensei. E lá na federal da minha cidade havia um curso.

Entrei no curso de tradução da UnB em meados de 1994, me formei em 1998 e voltei à minha alma mater em 1999, onde dei aula durante dois anos. Em 2001, veio o concurso para tradutor no FMI. Quando vim fazer a entrevista em Washington, alguém me recomendou que eu não contasse a história de como ingressei na profissão porque não ficaria bem, era muito feio aquilo. Mas é claro que eu contei, oras! Por que perderia a oportunidade?

Bom, após o que terão sido oito anos de FMI, volto de mala e cuia para o Brasil e para o mercado freelancer. É chegada a hora de começar a escrever mais um capítulo desta história, que, tenho certeza, será venturoso.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A batalha do Couto Pereira

Em agosto, quando estivemos no Brasil, visitamos Curitiba. Eu, claro, apreciador do futebol, fui assistir a um jogo lá no Alto da Glória. Passei um aperto. O Cruzeiro passou por cima do Coxa por 3 x 1 e o pau comeu. Quando o time mineiro fez 3 x 0 com 10 minutos do segundo tempo, uma das torcidas organizadas se enfureceu, derrubou um alambrado e iniciou-se a confusão. Não quis esperar para ver no que ia dar, pois não estava na minha cidade nem sabia que proporção a coisa poderia tomar. Peguei o rumo do hotel. Lamentei apenas perder o golaço marcado pelo Marcelinho Paraíba na ocasião.

Mas por que estou falando disso? Estava vendo pela Internet o caos que tomou conta do estádio após o empate que deixou o Fluminense na primeira divisão e relegou o Coxa à segundona no ano do seu centenário. Tristes cenas; o que eu passei nem se compara. O que para ser uma batalha apenas futebolística descambou para a violência. É desolador ver o estádio ser depredado pelos próprios torcedores do clube e, pior de tudo, ver aqueles pobres policiais arriscarem a pele para conter um bando de marginais. Coitados, poderiam estar em casa, curtindo o domingo ao lado da família, mas estavam ali, trabalhando. Muitos deles devem ser coxas-brancas e certamente estavam sofrendo tanto quanto os torcedores nas arquibancadas. Cadeia para esses baderneiros que tornam a ida a uma praça de esportes um programa de alto risco!

x - x - x - x

Um adendo: Tem que acabar esse negócio de o time ficar no vestiário esperando os outros jogos começarem para só então entrar em campo. Os jogadores valem-se desse expediente para saberem o desfecho dos outros jogos enquanto a bola ainda rola na sua partida (como se isso fosse ajudar em muita coisa). Que haja uma multa pesada para essa turma aprender a respeitar compromisso. Se o jogo está marcado para as 17h, tem que começar às 17h. Que tal derrota por w.o. para a equipe que não estiver lá na hora marcada? Talvez eu esteja pedindo demais, ainda mais no país do jeitinho, da acochambração. Mas que tem que ser por aí, pois brasileiro só entende e obedece na marra.