quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Dificultar o que já não é fácil
O ambiente lá é espartano. Ao redor, escaninhos onde as crianças guardam os sapatos; um freezer com picolé, dois bebedouros, uma janela que dá para a secretaria e dois lugares para os pais se sentarem. Um é uma mesa tubular com tampo de plástico e bancos de um lado e de outro, com assentos também de plástico. Deve comportar umas seis a oito pessoas. O outro é uma pequena arquibancada vazada, feita de tubos de metal e tábuas de madeira. São três níveis com apoio para os pés.
Eu estava lá sentado no nível mais alto dessa arquibancada, no canto, para ter uma visão melhor do Rodrigo e, claro, para poder me concentrar no meu livro. Mas de vez em quando uma pessoinha me tirava a atenção. Era uma menininha oriental, que, pela desenvoltura, já devia ter mais de um ano. Eu já a havia notado antes. A irmã vai fazer ginástica e a pequenininha fica lá com a mãe. E era aí que eu queria chegar.
A menininha subia nessa arquibancada e ia de um lado para o outro. Por duas vezes quase caiu entre o nível mais alto e o do meio. Na segunda vez, quase tive que acodi-la, pois a mãe estava meio distraída, de olho na filha mais velha, que se esbaldava numa cama elástica. Não tardou, a pequena perdeu o interesse pela arquibancada e passou a vaguear pelo recinto. Dava seus passinhos até um dos bebedouros e lá ia a mãe atrás para evitar que a menina se molhasse. Bulia com o freezer de sorvetes e voltava para a arquibancada. E tornava a flanar.
A mãe tentava detê-la, fazer com que se mantivesse no mesmo lugar. Vigiar cada passo da mocinha dava muito trabalho. Mas os esforços maternos eram em vão; a criança não queria nem saber. Até que, num dado momento, a coisa desandou de vez. A pequena se jogou no chão e deu um piti daqueles a que todo pai tem horror. As outras mães continuaram a conversar e fingiram que não era com elas. Fizeram muito bem. Acho que se tivessem se voltado para mirar o espetáculo, a mãe, que se limitou a olhar a filha, teria ficado ainda mais aperreada.
É duro manter ocupada e sossegada uma criança de um ano e pouco durante 45, 50 minutos, sobretudo num lugar como aquele. Quem não sentiria empatia por aquela mãe? O rosto já estampava-lhe o cansaço, e eram apenas dez e pouco da manhã do que tinha tudo para ser um longo dia. Até eu me cheguei a me apiedar da pobre, mas esse sentimento durou pouco.
Ela havia saído de casa despreparada; dificultara o que já não é fácil. Para entreter a criança, tinha apenas uma garrafinha de água e um copinho com Cheerios (um cereal que as crianças — e os adultos também — adoram). Por que não havia trazido um ou mais brinquedos? Uns livrinhos também teriam sido uma ótima idéia. Sentaria a pequena no colo e leria. Quem tem mais de um filho sabe que a concorrência pela atenção dos pais é feroz. Teria sido ótima oportunidade de dar atenção individualizada à caçula. A espera teria sido mais prazerosa, ou menos árdua, para ambas e todo o mundo teria saído de lá mais feliz.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Economical Writing
Economical Writing is a short little book that grabbed my attention the other day at the Fund. The author had economists in mind, but that doesn’t mean people from other fields could not benefit from reading it. To tell you the truth, I was not terribly impressed, as you can find better books in the market (The Elements of Style comes to mind).
If you still want to give it a try, check rules 23 (on word order), 25 (on verbs, active ones), 26 (on avoiding words that bad writers love), and 28 (on being plain).
O swing do Rodrigo
domingo, 11 de outubro de 2009
Em outro planeta
A criminalidade aumenta... e eu acho é bom
Em agosto, quando estávamos no Brasil, um homem foi assaltado na avenida que passa em frente à nossa estação de metrô. Se bem me lembro do caso, ele voltava do trabalho quando foi abordado por dois homens, ainda com o dia claro. Deram-lhe uma ou duas pauladas e levaram-lhe a carteira, o celular e o laptop. E pensar que, durante uns bons anos, fiz esse mesmo caminho todos os dias.
Após a nossa volta, no início de setembro, uma moça foi atacada na frente do prédio onde morava. Um rapaz de origem hispânica a agarrou por trás, mas ela conseguiu se desvencilhar e correr. O local onde isso se deu fica bem próximo ao posto de gasolina em que costumamos abastecer. Aqui no nosso condomínio, roubou-se um aparelho de GPS de um carro. É bom lembrar que condomínio aqui não tem cancela, segurança armado, cerca elétrica, muro com caco de vidro em cima, aqueles itens básicos de segurança das cidades brasileiras.
Nas últimas semanas, houve duas tentativas de um outro tipo de crime que nos preocupa bem mais. Um tarado foi avistado em dois lugares diferentes tentando atrair e raptar crianças. Ele prefere lugares abertos, onde haja aglomeração. Um dos ataques foi numa aulinha de futebol, ao ar livre. Boa hora em que escolhemos para matricular o Rodrigo numa aula dessas. Mas que ninguém se preocupe porque o pai fica de olho no futuro craque, numa marcação cerrada.
Ontem, conversando com uns amigos, fiquei sabendo da última ocorrência, esta bem séria. Na última quinta-feira à noite, um funcionário graduado do FMI foi baleado na garagem de casa, ao chegar do trabalho. O bandido fugiu correndo e ainda não se tem pista dele. O que mais surpreende é que o crime tenha ocorrido em Bethesda, Maryland, uma região reconhecidamente tranqüila. Segundo as últimas notícias, a vítima continua internada, em estado grave.
Alguns desses crimes talvez sejam mais uma das indesejáveis conseqüências da crise econômica. Assim, são uma onda passageira e teremos menos ocorrências tão logo a economia entre nos eixos. Outros, claro, não têm relação direta com carestia ou penúria. Contudo, de uma forma ou de outra, consigo ver um lado bom nisso tudo. Se a situação continuar a piorar, não vou mais nem esquentar a cabeça com a iminência de uma possível volta ao Brasil, pois, em breve, a tão propalada criminalidade daí parecerá cada vez mais branda em comparação com a daqui.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Quosque tandem?
Numa segunda-feira, por volta da hora do almoço, me aparece na porta o Alexandre, meu vizinho, filho da Dona Diva. Sai logo me perguntando:
— Vamos almoçar na churrascaria nova que abriu?
Meio desligado, respondi:
— Que churrascaria é essa?
— Barriga Gaúcha…
Isso foi lá pelos idos de 1995, quando o Fluminense foi campeão estadual em cima do meu Flamengo com aquele fatídico gol de barriga do Renato (logo dele!). Quase fui ao Rio ver aquele jogo. O que evitou o pior foi uma prova de latim no dia seguinte. O latim já me salvou de outras boas também, mas isso não vem ao caso agora.
Mas voltando ao assunto, bons tempos aqueles do Fluminense. Mas no ano seguinte a coisa degringolou. Seria rebaixado, mas acabaria salvo por uma manobra política. Porém, no ano seguinte, caiu para a Segunda Divisão e, em 1998, para a terceirona. Pobre Fluminense. E não é que, mais uma vez, o time se vê muito perto dessa situação. Com a bolinha que vem jogando, não consigo ver salvação.
Contudo, quem imagina que estou feliz com isso está redondamente enganado. Em matéria de futebol, sou bairrista e torço para os times do Rio (claro, menos para o Vasco, mas isso é assunto para outra hora). Cresci vendo os clubes cariocas na TV e prefiro o futebol do Rio. Mas o principal motivo por que não gosto de ver os grandes adversários do Mengão rebaixados é outro. Quem viu o Fla x Flu do último domingo, com mais de 82 mil pessoas no Maracanã, recorde de público do ano no Brasil, sabe do que estou falando. Antes ver um clássico estadual do que um Flamengo x Santo André, Flamengo x Barueri.
Mas é uma pena que o futebol mais charmoso do Brasil, esse futebol que enche o estádio como nenhum outro, tenha um desempenho bem aquém do de seus vizinhos. Há anos os times de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, sobretudo o Cruzeiro, fazem sombra aos cariocas, que penam para se manter na primeira divisão e tentam, sem muito êxito, equacionar suas dívidas. Num esporte em que, segundo Simon Kuper, articulista do Financial Times, os clubes estão fadados a serem deficitários, seja na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, tem-se a impressão de que os cariocas vivem numa realidade só deles. Por que não conseguem aprender com os outros clubes? O que falta para “profissionalizar” o futebol? É difícil entender por que o Flamengo, em particular, não consegue transformar uma nação inteira de torcedores em receita para o clube. Quosque tandem abutere patientia nostra?
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O Flamengo vai ter uma parada dificílima logo mais contra o Vitória, lá em Salvador. O Imperador vai fazer falta. Mesmo jogando mal, ele é fonte constante de dor de cabeça para as zagas adversárias. Num lance fortuito, ele pode meter um canudo de onde estiver e decidir a partida. Vai ser duro assistir ao Dênis Marques tentando e não conseguindo fazer o que o Adriano faz. Oxalá eu queime a minha língua.
No sábado, contra o São Paulo, também vai ser uma pedreira. O tricolor vem sem o Miranda, zagueiro de Seleção, mas o Adriano é uma perda maior. Que o Mengão tire partido da vantagem de jogar em casa e possa se impor.
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Se o Ibson e o Kléberson estivessem nesse time do Flamengo, não teria pra ninguém, vocês vão me desculpar.
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Que maravilha ver o Palmeiras jogar! Está com pinta de campeão. É o Muricy rumo ao tetra. Aquele terceiro gol contra o Santos foi uma pintura, apesar do desfecho ter sido mais um lance de sorte e força do que de habilidade. Foi uma beleza ver a jogada ir se desenhando desde os pés do Diego Souza. Torci para que culminasse em gol porque seria um desperdício e tanto ver a bola cortada por um adversário ou nas mãos do goleiro. Para quem não viu, dê um pulo em http://globoesporte.globo.com/Esportes/Futebol/0,,CCF30584-9825,00.html e se delicie.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Viva o Rio, Viva o Brasil!
Que boa notícia, para os cariocas e para nós brasileiros. Quantos já não se perguntaram o que houve com o Rio para ele chegar aonde está, numa situação em que a denominação “Cidade Maravilhosa” muitas vezes parece não fazer sentido. Fico me lembrando das histórias que minha mãe me conta. Ela fez residência no Hospital do Fundão e costumava ir ao cinema com a mãe e as amigas, a pé, tarde da noite, no Largo do Machado. Hoje em dia é preciso um bocadinho de coragem para sair à noite no Rio. Os que moram lá dizem que não é bem assim, mas não é a impressão que a cidade passa.
Talvez o Rio nunca tenha se recuperado do baque de ter sido rebaixado e deixado de ser a capital da República. Será que foi isso? Muita gente até hoje não entende por que os cariocas votam do jeito que votam. Sempre seguiram uma linha própria deles. Outros acreditam que a derrocada do Rio se deve ao fato de que o povo de lá se acha mais “ixxxperrrrto” do que os demais mortais, abençoados por Deus e bonitos por natureza. Um povo que sempre pensou que não precisava se preocupar porque as coisas se arranjariam cedo ou tarde. É chegada a hora.
Que a concretização do sonho olímpico ajude o Rio a se reerguer e mostrar sua pujança. Os cariocas podem contar com a ajuda dos demais brasileiros. Oxalá o Rio possa ser mais maravilhoso do que nunca e nos encha ainda mais de orgulho. Vejo todos lá em 2016, onde estarei, espero, trabalhando.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Dia do Tradutor
E agora, quem não for tradutor, largue o computador um pouquinho e vá cumprimentar o seu tradutor favorito, pois ele merece.
sábado, 26 de setembro de 2009
Santo André
O casal não tinha autorização para operar uma loja de fogos de artifício; tampouco podia fabricá-los, o que fazia de forma clandestina, como se suspeita. Evidentemente, são os grandes culpados. Personificam o que analiso como uma certa falta de respeito do brasileiro pela vida alheia. Nas nossas ações, não nos preocupamos com o impacto sobre os outros. É a mesma negligência que demonstramos ao dirigir como dirigimos, ao jogar lixo na rua.
E as autoridades? São culpadas também. Apesar de terem sido avisadas repetidas vezes, conforme alegam as pessoas da região, não fizeram o suficiente para evitar o ocorrido. Interessante ver que, um dia depois da tragédia, a polícia saiu à rua para investigar denúncias de venda irregular de fogos. Duas lojas foram fechadas. É o proverbial cadeado após a porta ter sido arrombada.
Mas quem vai cobrir os prejuízos? Um americano que visse aquela destruição toda pensaria logo que algumas seguradoras morreriam numa grana preta. Não no Brasil. Ainda não temos essa cultura do seguro. Acho difícil que alguém ali tivesse a casa ou loja segurada. O casal que operava o “bazar” muito provavelmente não tinha seguro para cobrir os danos causados a terceiros. E agora, quem vai pagar? O governo? Se fosse aqui, já haveria gente processando as autoridades por não terem feito a parte delas, qual seja, fiscalizar e fazer cumprir as leis. Certíssimo.
Carecemos de duas coisas que fazem a diferença aqui nos EUA. A primeira é o fato de que as autoridades arrocham mais do que aí. No Brasil, a coisa corre solta. Se der uma zebra, deu. Não precisa se preocupar porque a cana, se vier, não é tão dura. A segunda, diretamente relacionada à primeira, é a responsabilização. Nos EUA, grosso modo, não existe acidente, ou melhor, dificilmente existe o acidente do qual ninguém é culpado. É preciso encontrar o culpado porque ele será responsabilizado e vai pagar, e caro, pelos danos. Claro, os americanos levaram essa idéia às últimas conseqüências e vemos processos descabidos por qualquer motivo. Mas no Brasil, temos o oposto. Ainda se tem a sensação de que pouco adianta recorrer à Justiça, pois um processo corre anos a fio nos meandros dos tribunais e a justiça nunca é feita. Precisamos nos americanizar um pouquinho e começar a ter mais responsabilidade e responsabilização.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Vítimas do mesmo mal
Nas telas, Patrick Swayze foi ótimo como dançarino, leão-de-chácara, fantasma, drag queen. Marcou a minha geração. Mas, com esse currículo todo, ele ainda perde para a Renilde. Minha prima, queridíssima, também vítima de um CA de pâncreas, nos deixou em março do ano passado. Entre tantos predicados, fazia um pato no tucupi e uma maniçoba como poucos. E tinha mais, sempre guardava o melhor pedaço do pato pra mim. Era o jeito dela.
A Nilde se foi sem saber que me ajudou a abrir os olhos e ver que a situação em que me encontrava naquela época não era um problema, mas tão somente um empecilho, um pequeno obstáculo a ser transposto. Por tudo isso, lhe serei grato pelo resto da vida.
domingo, 13 de setembro de 2009
Leite derramado
Quando vi o livro pela primeira vez, lá em Rio Preto, me aborreci. Por que os livros do Chico, do Verissimo e de vários outros autores no Brasil são paginados de forma a deixar tanto espaço em branco na folha? Para mim, é um desperdício de papel. Não estou pedindo para espremerem as linhas em cada página, mas sejamos um tantinho ecológicos, ora! Isso me faz lembrar de um conhecido que dizia que, para um livro poder ser considerado realmente um livro, não pode tombar após ser colocado em pé na mesa. Se não passar no teste, é no máximo um fascículo. Mas vamos ao Chico.
Estorvo não me arrebatou, por assim dizer, mas gostei de Budapeste. Após ler resenhas positivas sobre este livro, resolvi comprá-lo. Até o momento, é o melhor deles. A leitura é ágil e flui melhor do que a dos outros.
Na página do livro na Livraria Cultura, na guia “Saiu na imprensa”, há um vídeo de uns seis minutos com o Chico lendo um trecho do livro. Confiram.
Vou tentar terminar esta leitura logo porque chegou hoje da Amazon um outro, sobre novas idéias sobre a criação de filhos, que pulou todos os livros que estavam na fila.
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=13005475&sid=9816916121191331826134418&k5=33B89FDE&uid=
O ataque da Copa
Não vejo lugar para os dois na Seleção. Os atacantes da Copa vão ser Luís Fabiano, Robinho, Nilmar (ou Tardelli, talvez, se o Nilmar estiver machucado) e Ronaldo ou Adriano. Luís Fabiano é eminentemente um homem de área e é lá que tem que jogar, pois tem feito gol adoidado. É o homem-gol e o titular da camisa 9. Ronaldo e Adriano não se movimentam tanto, sobretudo aquele, e também jogam mais dentro da área. Para ficarmos apenas com um atacante leve, o Robinho, não dá. A Seleção fica limitada, sem muita opção. Mas e se o Dunga resolver levar um atacante a mais? Aí sim, mas não vai ser o caso.
No ano que vem, veremos uma boa disputa entre Ronaldo e Adriano. Vão fazer gol à beça, defendendo os times de maior torcida do Brasil. Nosso futebol só tem a ganhar com isso. Mas quando chegar a época da derradeira convocação, só um vai à Copa. Quem? A escolha é difícil. O Adriano é mais novo, mas o Ronaldo é mais jogador. Com os dois em forma, acho que prefiro o gordo. Ele é mais decisivo.
Comédias Brasileiras de Verão
Acabei num dia desses. Verissimo é sempre uma beleza. Mas aviso logo que não são histórias inéditas. Talvez uma ou outra seja, não sei, mas muita coisa foi tirada de um livro dele chamado Histórias Brasileiras de Verão, publicado pela própria Objetiva em 1999.
A leitura é leve e flui bem. As histórias são curtas, duas, três páginas, o que facilita parar a leitura no meio.
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=11028610&sid=9816916121191331826134418&k5=14278535&uid=
De volta à “casa”
Mas foi bom voltar pra casa. Eu ia aspear casa todas as vezes que aparecesse no texto, mas desisti. Já notei que ficou casa sem aspas logo no primeiro parágrafo. O motivo das aspas é que onde estamos agora é a nossa casa, porém não por muito tempo. Nas últimas semanas no Brasil, tinha uma sensação estranha ao pensar que voltaria para uma casa que logo deixará de ser a minha. É mais ou menos como se já não fosse.
Mas isso não significa que já, digamos assim, tenhamos jogado a toalha e desistido de vez dos EUA. É que somos realistas e sabemos mais do que ninguém o que vai por nossas cabeças, do que precisamos no momento. Só eu sei tudo o que nós passamos desde fevereiro de 2008, ou talvez eu deva puxar o início de todo esse processo para meados de 2007. Mas eu já estou fugindo do assunto.
Foi bom voltar pra casa. Claro, sempre há uns senões. Fiquei logo contrariado ao olhar pela janela e ver o matagal que havia tomado conta do meu quintal. Aquilo me abalou. Sabem que naquela noite, sonhei com o Cabañas? Lembram-se dele? No pesadelo, não era que me aparecia outra marmota no meio daquele mato. Credo! Ao ver o matagal, pensei logo: “Lá vou eu ter que cuidar disso.”
Natureza não é a minha e esse tipo de serviço não me agrada. Mas sabem quanto custa mandar alguém fazê-lo por mim? Uns cem, cento e poucos dólares. Caro? Caríssimo, sobretudo quando eu me lembro da situação de um amigo que vive numa cidade próxima a São Paulo. Ele tem um rapaz que lhe vem em casa fazer todo o tipo de serviço braçal, duas vezes por semana, por 350 reais ao mês. Que maravilha! Nesse aspecto, o Brasil dá de 10 x 0 nos EUA. Viva a mão-de-obra barata! Um conforto desses não tem preço, não apenas por você não ter de fazer o trabalho duro, mas por poder dispor desse tempo — o tempo, a mais preciosa das riquezas —, para fazer coisas mais proveitosas.
Tenho que admitir que as horinhas que passei desbastando o quintal foram boas para arejar as idéias, pensar um pouco. Claro, duas Bud Light Lime ajudaram, mas isso não vem ao caso. Um ex-professor e ex-colega meu da UnB me dizia que a melhor hora para lhe aparecerem boas soluções para problemas de tradução era quando limpava a piscina na chácara. Você está ali, fazendo um serviço que não exige muita massa cinzenta e aí a cabeça fica livre para pensar melhor. Faz sentido, mas não é por isso que eu vou passar a fazer esses serviços braçais todo lépido e faceiro. Vou sempre pensar que poderia estar lendo um bom livro.
Como era de se esperar, a casa ficou de pernas pro ar após nossa chegada. Era muita mala pra desarrumar, roupa pra lavar e, claro, duas crianças que, pela tenra idade, mais bagunçam do que arrumam. Minha mesa aqui embaixo, no meu escritório/refúgio/academia ficou uma tragédia. Haja papel. E olha que já havia coisa amontoada em julho, antes de viajarmos. Mas aos poucos fomos dando conta de tudo. Ontem à noite cheguei em casa do Fundo e tive a sensação de que havíamos conseguido finalmente dar à casa uma cara de arrumada, o que durou algumas horas, até as crianças acordarem. Coitados, os bichinhos são bonzinhos e fazem a bagunça normal que toda criança faz. Mas ainda arrumam muito pouco.
Mas eu dizia que havia chegado do Fundo. Pois é, fui lá assinar um papel que precisava assinar. Tenho procurado ir lá o mínimo possível. Acho que esta foi a terceira ou quarta vez que estive lá desde maio. Junto tudo o que tenho de fazer lá e tento dar cabo numa viagem só. Para que ir lá? O lugar me deprime. Mas não pensem que eu ainda me apoquento com aquilo ali. Já passei por todo o ciclo por que passa quem se vê na situação em que eu me vi. Mas o lugar se tornou deprimente e não há muito que eu possa fazer quanto a isso além de minimizar minhas idas até lá. Que fique claro que não são as pessoas (evidentemente, há sempre uns que destoam do resto). Tenho amigos lá e me têm em muito boa conta, tanto que as vezes em que estive lá acabaram se estendendo por muito mais tempo do que eu esperava. Mas deixemos isso pra lá.
Este foi o meu texto da volta para casa. Pretendia tê-lo escrito, exatamente, logo após a volta, mas fui me ocupando com outras coisas. Vou tentar ser mais assíduo. Tenho muito sobre o que escrever. O dia-a-dia me dá bom material e as seis semanas na Pindorama vão render muitos textos. Vi muita coisa aí que merece ser comentada e farei muitas comparações sobre a vida aí e a vida aqui. É só aguardarem.
sábado, 29 de agosto de 2009
Trocando de roupa
Num Natal, comprei uma blusa para a Érica na J. Jill do Pentagon City. Claro, errei no tamanho da peça e, após o Natal, fui trocar, desta vez, na J. Jill de outro shopping, o Fair Oaks Mall. Eu me dirigi ao balcão, expliquei o ocorrido à vendedora e ela me dirigiu para a arara onde estava aquela peça. Peguei a blusa do tamanho certo e voltei ao caixa. Agora vem o pulo do gato.
Imaginei que seria apenas uma troca, mas a vendedora me sugeriu que devolvesse a blusa que havia comprado antes do Natal. Ela me reembolsaria e aí eu compraria a blusa do tamanho certo. O porquê? O preço da blusa havia caído depois do Natal. Assim, eu economizaria uns dólares. Fiquei pasmo, olhando para ela e pensando que aquilo nunca, mas nunca mesmo, ocorreria no Brasil. E não foi só essa vez. Fato semelhante me ocorreu anos depois numa outra loja. Coisa de primeiro mundo.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Boy alone
Na verdade, é o que acabei de ler. Terminei ontem, a tempo de deixá-lo para o meu irmão. Não tenho esse apego todo por livros. Se for me servir como referência para o meu trabalho, guardo; senão, passo para a frente. Espaço para livros está em falta lá em casa.
Mas já ia me esquecendo do livro. Boy Alone é a história de um garoto autista contada pelo irmão. É uma perspectiva interessante, que me cativou muito. A história é bem contada e a recomendo para quem enfrenta na família problema semelhante.
O próximo livro da lista provavelmente será o último de crônicas do Verissimo, uma leitura leve, rápida, que desopila o fígado.
http://www.amazon.com/gp/product/0061136662/ref=s9_simz_gw_s4_p14_i1?pf_rd_m=ATVPDKIKX0DER&pf_rd_s=center-1&pf_rd_r=0FXQ3323QEZPJ3F5ZFR2&pf_rd_t=101&pf_rd_p=470938131&pf_rd_i=507846
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2636250&sid=00101756211825756264639711&k5=166A97D4&uid=
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Para ver a Seleção
Sou do tempo em que as seleções européias vinham jogar os amistosos aqui, num estádio com nome terminado em “ão”, n'alguma capital do Nordeste, sob um calor senegalês. Os gringos, acostumados com o frio europeu, mal tinham gás para um tempo e aí era goleada do Brasil na certa. Hoje, a Seleção só vem aqui nas eliminatórias da Copa. E tome ingresso caro. O futebol, a alegria do povo, virou coisa de gente abastada, que pode pagar uma pequena fortuna por um ingresso.
E na Copa de 2014, vai ser ainda pior. Estive em Curitiba na semana passada e visitei a Arena da Baixada, o estádio do Atlético Paranaense, considerado o mais moderno do país. A mocinha que serviu de guia durante a nossa visita comentou que a previsão é de o ingresso mais barato para os jogos da Copa na Baixada custar uns 400 reais. Quem quiser ver um jogo da Copa no Brasil sem ter que recorrer a favor de ninguém, pode começar a fazer uma poupança e a torcer pela sorte. É bem possível que, mesmo com dinheiro suficiente no bolso, se consiga entrar no estádio.
A importância da revisão
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terça-feira, 11 de agosto de 2009
Diplomacia e erros de tradução
Recebi um texto há pouco explicando que, na verdade, tudo decorreu de um erro do intérprete. O jovem congolês perguntou, em francês, qual era a opinião do presidente, e o intérprete, sabe Deus por que cargas d'água, mandou lá um "What does Mr. Clinton think?", misturando (ex-)presidente Clinton com presidente Obama. Claro, para começar, ele não deveria nem ter mencionado o nome do presidente, fosse ele quem fosse, mas isso são outros quinhentos.
É uma pena que esses episódios sejam logo esquecidos, pois servem para mostrar que uma tradução ou interpretação mal feita pode ter um resultado desastroso.
