quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sangue, suor e lágrimas

Pronto, foi. Como disse Churchill, foi sangue, suor e lágrimas. Acima de tudo, foi muita aporrinhação. Mudança já é uma porqueira e fica pior quando a empresa comete erros na organização. Vou sentar e escrever com muita calma uma carta com a mão bem pesada (enquanto escrevia isso, a vice-presidente de operações internacionais da empresa telefonou; acabei dizendo algumas coisas que preferiria ter guardado para a carta, mas ainda assim vou escrever).

Mas já são águas passadas. Bom que o contêiner foi embora e a casa ficou vazia (quase). Agora, se me dão licença, vou tomar um bom vinho e comer pizza, que, pelo burburinho lá em cima, deve estar chegando. Se eu não aparecer por aqui amanhã, ficam os meus votos de um 2010 extasiante. O meu vai ser.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O caso Sean Goldman

Ontem uma colega do Fundo me perguntou o que eu achava do caso, que está em todos os jornais e noticiários. Eu vejo a questão de forma bem clara, mas por dois pontos de vista diferentes.

A decisão de devolver a criança ao pai é a melhor para o menino? Não, não é. Onde ele terá uma vida melhor? Em Nova Jérsei, onde passará o dia inteiro na escola porque o pai, imagino, terá que trabalhar para sustentá-lo? Ou no Rio de Janeiro, no seio de uma família rica? A escolha é fácil. Eu prefiro o Rio.

Mas há outra questão. O que a mãe fez foi errado. Ela enganou o marido ao viajar ao Brasil para passar férias com o filho e, em seguida, decidir nunca mais retornar. Eu me coloco no lugar do pai e acho que esse erro precisa ser reparado. Ao tomar a decisão de não voltar aos Estados Unidos com o filho, a mãe nem fazia idéia da confusão em que meteria a sua família.

É claro, numa véspera de Natal, sinto pela avó do menino, que não tem culpa alguma, e se viu envolvida nisso tudo. Ela, o Sean e a irmãzinha de um ano e três meses são as maiores vítimas de um erro cometido lá atrás, há cinco anos. É uma pena que a Justiça tenha demorado tanto a resolver isso. Uma solução célere teria evitado muito da dor que se sente agora e se sentirá por muitos anos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Como virei tradutor

Um grande amigo e tradutor pediu aos colegas que escrevessem em seu blog sobre como viraram tradutores. Eu escrevi isto que segue e, por que não, resolvi colocar aqui também. A história é velha, mas ainda há um ou outro que não a conhece. Divirtam-se.

Comecei a estudar inglês aos 11 anos. Odiava! Minha mãe me deixava na Cultura Inglesa, mas eu não ficava lá. Dava a volta no prédio e ia jogar bola... devagarzinho, na sombra, claro, para não suar e chegar em casa com cara de quem não estava na aula. Tudo correu bem até chegar o primeiro boletim. Constava lá que o aluno era bom, mas apenas quando aparecia na aula. Minha mãe passou a me levar até a porta da sala, literalmente. Mal sabia ela o impacto que aquilo teria nas décadas seguintes da minha vida.

Saltemos para fins de 1993. Após voltar dos EUA, onde havia estudado música, todos me aconselharam a fazer o vestibular e buscar uma profissão de verdade, que aquele negócio de ser músico não dava futuro a ninguém. Abri um guia do vestibulando, ou coisa que o valha, da Editora Abril e fui folheando. Cheguei ao fim e a única coisa que me havia parecido razoavelmente interessante havia sido, vejam vocês, tradução. Eu já falava inglês, então meio caminho já estava andado, pensei. E lá na federal da minha cidade havia um curso.

Entrei no curso de tradução da UnB em meados de 1994, me formei em 1998 e voltei à minha alma mater em 1999, onde dei aula durante dois anos. Em 2001, veio o concurso para tradutor no FMI. Quando vim fazer a entrevista em Washington, alguém me recomendou que eu não contasse a história de como ingressei na profissão porque não ficaria bem, era muito feio aquilo. Mas é claro que eu contei, oras! Por que perderia a oportunidade?

Bom, após o que terão sido oito anos de FMI, volto de mala e cuia para o Brasil e para o mercado freelancer. É chegada a hora de começar a escrever mais um capítulo desta história, que, tenho certeza, será venturoso.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A batalha do Couto Pereira

Em agosto, quando estivemos no Brasil, visitamos Curitiba. Eu, claro, apreciador do futebol, fui assistir a um jogo lá no Alto da Glória. Passei um aperto. O Cruzeiro passou por cima do Coxa por 3 x 1 e o pau comeu. Quando o time mineiro fez 3 x 0 com 10 minutos do segundo tempo, uma das torcidas organizadas se enfureceu, derrubou um alambrado e iniciou-se a confusão. Não quis esperar para ver no que ia dar, pois não estava na minha cidade nem sabia que proporção a coisa poderia tomar. Peguei o rumo do hotel. Lamentei apenas perder o golaço marcado pelo Marcelinho Paraíba na ocasião.

Mas por que estou falando disso? Estava vendo pela Internet o caos que tomou conta do estádio após o empate que deixou o Fluminense na primeira divisão e relegou o Coxa à segundona no ano do seu centenário. Tristes cenas; o que eu passei nem se compara. O que para ser uma batalha apenas futebolística descambou para a violência. É desolador ver o estádio ser depredado pelos próprios torcedores do clube e, pior de tudo, ver aqueles pobres policiais arriscarem a pele para conter um bando de marginais. Coitados, poderiam estar em casa, curtindo o domingo ao lado da família, mas estavam ali, trabalhando. Muitos deles devem ser coxas-brancas e certamente estavam sofrendo tanto quanto os torcedores nas arquibancadas. Cadeia para esses baderneiros que tornam a ida a uma praça de esportes um programa de alto risco!

x - x - x - x

Um adendo: Tem que acabar esse negócio de o time ficar no vestiário esperando os outros jogos começarem para só então entrar em campo. Os jogadores valem-se desse expediente para saberem o desfecho dos outros jogos enquanto a bola ainda rola na sua partida (como se isso fosse ajudar em muita coisa). Que haja uma multa pesada para essa turma aprender a respeitar compromisso. Se o jogo está marcado para as 17h, tem que começar às 17h. Que tal derrota por w.o. para a equipe que não estiver lá na hora marcada? Talvez eu esteja pedindo demais, ainda mais no país do jeitinho, da acochambração. Mas que tem que ser por aí, pois brasileiro só entende e obedece na marra.

Aniversário do blog

Fui notar hoje que o blog fez um ano no dia 2 de dezembro. Não tenho dado muita atenção a ele, eu sei. Ontem, uma leitora, que eu nem sabia que me acompanhava, veio me perguntar por que eu nunca mais havia escrito nada. É, estou em falta mesmo, mas tenho um bom motivo. Estamos nos mudando e, com isso a vida está de pernas para o ar. Não vou ter muito tempo para escrever pelo menos até as coisas serem empacotadas e o caminhão de mudança sair daqui. Tenham paciência e fiquem por aí, leitores, que volto a escrever tão logo possa. Aquele abraço!

O hexa

Na última vez em que o Flamengo foi campeão brasileiro, eu morava aqui nos Estados Unidos. Não havia Internet e eu nem me lembro como fiquei sabendo da notícia. Agora, 17 anos depois, o Mengão repete a façanha. Será que eu preciso estar no exterior para o Fla ser campeão brasileiro? Oxalá não!

Não foi um jogo exatamente bonito, muito pelo contrário. Foi um jogo sem sal, sem muita emoção. E para quem imagina que estou dando pulos de alegria, não estou. Não se foi o jogo morno, a idade, a distância do Brasil. Estou feliz, claro, mas é uma felicidade contida.

Mas parabéns ao time e à torcida, pois nem o mais otimista rubro-negro imaginava um desfecho desses. A Libertadores já estaria de bom tamanho, mas deixaram o Mengão chegar. E, como vocês bem sabem, quando deixam o Mengão chegar...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dois retratos (feios) do Brasil

Estava vendo trechos do Fantástico enquanto arrumava umas coisas aqui. O negócio continua feio. Primeiro a reportagem sobre a sobrevivente do Bateau Mouche. No fim, a revelação de que, quase 21 anos após a tragédia, só uma família foi indenizada. Dois acusados foram condenados a regime semiaberto, mas fugiram do país. Eita justiçazinha morosa e ineficaz essa do Brasil, hein?! Ainda somos um país sem lei. Depois, veio a reportagem sobre a irresponsabilidade do brasileiro no trânsito, que mata 40 mil pessoas por ano.

Que ninguém me venha dizer que a Globo pinta o bicho mais feio do que ele é. Você e eu sabemos que a coisa no Brasil ainda é braba. Nessas horas, é duro pensar que vou voltar a morar aí.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ainda mais esta

Como se já não bastasse tudo o que ocorreu naquele caso da moça do vestido curto no ABC, agora me vêm esses alunos da UnB se despir para protestar contra a Uniban e o machismo (http://tinyurl.com/yhqrfm8). E logo alunos da minha ex-universidade?! É o fim da picada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Terrorismo de verdade

Quando se fala em terrorismo, pensa-se logo no ocorrido no 11 de setembro ou nos episódios recentes em Londres, um dia após o anúncio da cidade como sede das próximas olimpíadas, Madri, onde uma série de explosões no sistema de metrô mataram quase duas centenas de pessoas, e Bombaim, na Índia, onde ataques coordenados a lugares públicos como hotéis e um hospital vitimaram mais de 170. Perto desses episódios, é difícil imaginar que duas pessoas poderiam espalhar o terror e deixar uma região metropolitana inteira de joelhos. Pois foi exatamente isso o que ocorreu em 2002, provando que não é necessário seqüestrar um avião ou lançar mão de explosivos para semear o terror. Bastam dois idiotas com uma idéia errada na cabeça.

Essa história teve provavelmente o seu último capítulo. Foi executado na noite de ontem, com uma injeção letal, John Allen Muhammad, que entrou para a história por ter orquestrado uma série de atentados na região de Washington em outubro de 2002. Num período de três semanas, Muhammad e o então menor Lee Boyd Malvo mataram 10 pessoas e feriram outras três sem nenhuma ligação entre elas e aterrorizaram uma região que ainda se recuperava dos ataques terroristas de 11 de setembro do ano anterior.

Os assassinos escolhiam suas vítimas aleatoriamente e as alvejavam de dentro do porta-malas de um carro. No início, foram sete pessoas no espaço de dois dias, cinco delas no mesmo dia. O medo se espalhou rapidamente, pois os assassinos não se concentraram numa determinada área. Antes, começaram no estado de Maryland e depois seguiram para Virgínia, passando pelo Distrito de Colúmbia, onde mataram um homem. Qualquer um poderia ser uma vítima; bastava estar na rua. Dois episódios ficaram na minha memória.

Naquele ano, morávamos em Crystal City, na cidade de Arlington. Felizmente, o meu trajeto até o trabalho era bastante tranqüilo porque eu não precisava sair à rua. Nosso prédio tinha uma saída que dava para uma galeria subterrânea de lojas e serviços que levava até a estação de metrô. Eram seis estações até a minha. Para minha sorte, o prédio em que trabalhava ficava exatamente sobre a estação de metrô. Uma escada rolante fazia a comunicação entre a estação e a entrada do prédio. Em meio àquele terror, era tudo de que eu precisava.

Mas um dia, tive que ir ao prédio principal do Fundo, a dois quarteirões de onde eu trabalhava. Naquela altura, já havia ocorrido o assassinato no Distrito de Colúmbia. O que havia de comum entre as vítimas era que, no momento em que foram alvejadas, estavam paradas ou andando despreocupadamente. O negócio era não ficar parado para não dar chance ao sujeito. Ao chegar perto do cruzamento da 19th St. com a Pennsylvania, o sinal estava fechado e eu teria que esperar. Não teve outra: fiquei zanzando de um lado para o outro. Se ele tivesse que atirar em mim, eu não seria um alvo fácil.

Num sábado, iríamos a uma festa na casa de uma amiga em Germantown, Maryland, que ficava razoavelmente longe da nossa casa. O problema era que a gasolina do carro não daria para irmos e voltarmos e, ninguém esquecia, uma das vítimas havia sido morta enquanto abastecia o seu táxi. Que dureza! Não podíamos deixar de ir à festa, então não houve saída. Fomos ao posto onde costumávamos abastecer. Vale lembrar que aqui, como na maioria dos estados americanos, não há frentistas nos postos. É o próprio motorista quem abastece. Mas eu não vou me esquecer da cena nunca mais. Uma senhora parou, desceu, enfiou a mangueira de abastecimento no carro e voltou rapidinho pra dentro do veículo, onde ficou toda encolhidinha. Eu, um tantinho mais corajoso, fiquei do lado de fora, mas me vali do mesmo expediente: andei pra lá e pra cá enquanto tentava adivinhar onde o safado poderia estar escondido.

Pode-se dizer que o mais perto que os assassinos estiveram de nós foi quando mataram uma senhora no estacionamento do Home Depot da Arlington Boulevard onde fizemos compras algumas vezes. Assim como em todos os outros casos, era a pessoa errada no lugar errado. Enfim, quando John Muhammad e Lee Malvo foram presos, houve um misto de alívio, claro, e surpresa, pois ninguém imaginava as circunstâncias em que os crimes ocorreram nem que um adulto e um menor podiam ter iludido a polícia por tanto tempo. Com a morte de Muhammad, restou Malvo. Como era menor quando cometeu os crimes — atirou em três pessoas, inclusive na senhora do Home Depot —, não pôde receber a pena capital, mas passará o resto de seus dias na cadeia.

Outdoor interessante em Nova Iorque



Estava na Broadway, próximo ao Columbus Circle, quando vi este outdoor. Propaganda do filme 2012, com estréia programada para esta sexta. Mais um daqueles em que o mundo se vê à beira da destruição e por aí vai. Não esperem me ver no cinema porque não é o meu estilo de filme.

O caso Uniban

Aquela história da menina do vestido curto da Uniban está mal contada. A faculdade expulsa a menina pelos jornais e depois volta atrás. A moça, por sua vez, posa de vítima, porém só aparece com roupas insinuantes nos vídeos sobre o caso disponíveis na Web. Aquele santo tá querendo reza, viu?! O desfecho disso tudo ninguém sabe, mas as revistas masculinas nacionais já devam estar de olho na boutique dela. Não me espantaria se, nos próximos meses, ela aparecesse ao natural estampando as páginas de uma delas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Let’s play ball!

Que história é essa de play ball? Afinal de contas, isso não vai ser ouvido até o ano que vem. Ontem os Yankees, de Nova Iorque, derrotaram os Phillies, da Filadélfia, na sexta partida e fecharam a World Series, a série de sete jogos que decide o campeonato de beisebol dos Estados Unidos. Agora são 27 World Series para os Yankees, os maiores campeões da história do beisebol americano e a equipe com mais títulos entre todos as equipes de esportes profissionais disputados nos EUA.

O beisebol é mais do que um esporte para os americanos. É o national pastime, o passatempo nacional. Mas nunca me agradou. Quando morava na Califórnia, ligava a TV no começo da tarde e jogavam os Dodgers, de Los Angeles, contra uma equipe lá qualquer. Não me interessava nem um pouquinho e eu simplesmente desligava o aparelho. No fim da tarde, umas três horas depois, tornava a ligar a TV e os caras ainda estavam jogando. Já imaginou? Eu ficava pensando nos pobres que estavam lá assistindo ao jogo no estádio. Um joguinho que não acaba nunca. Mas uma vez, um colega inglês me disse que uma partida de críquete podia muito bem durar dois dias. Jesus crucificado!

Contribuía para a minha birra com o beisebol o fato de eu não entender o jogo. O arremessador pegava a bola, se punha lá naquele montinho e aí vinha aquele ritual: girava o braço, mascava sei lá o quê (fumo, descobri depois), cuspia, coçava o saco, girava de novo o braço, coçava mais uma vez e arremessava. Do outro lado, o rebatedor nem se mexia. E eu olhando aquilo. Depois de toda aquela mise-en-scène, o cara nem fazia menção de rebater a bola?! Tá louco! Tremenda perda de tempo.

Adiantemos uns bons 10 anos, até 2003. Era a noite de 15 de outubro e eu estava no Hospital George Washington. Clarissa havia nascido de manhã e eu acompanhava mamãe Érica no hospital. As luzes do quarto apagadas e eu lá, embutido num sofá-cama extremamente desconfortável. Decidi ligar a TV e ver o que passava. Num dos canais, beisebol, World Series. Resolvi assistir, com a TV quase sem som. Comecei a entender o jogo. Strikes, outs e por aí vai. Havia uma área imaginária, a zona de strike, onde a bola devia ser arremessada. Se viesse fora daquela área, o rebatedor nem precisava se preocupar. Era por isso que ele não fazia menção de rebater. Ah! Agora sim.

Entendi o suficiente do jogo para não ficar boiando, mas ainda assim não aprendi a gostar dele. Tanto que só agora, após sete anos e meio vivendo aqui em Washington e outros dois na Califórnia, resolvi ir a um ballpark, como eles chamam os estádios de beisebol. Já havia visto ao vivo todos os principais esportes deles: basquete, futebol americano, hóquei no gelo, tênis. Não poderia ir embora daqui sem ir a um jogo de beisebol. Imbuído desse espírito, peguei o metrô no dia 9 de setembro e fui ao National Park ver os Nationals, o pior time da liga, enfrentar os Phillies, os campeões de 2008. Claro, eu nem sabia que os Phillies haviam se sagrado campeões no ano anterior. Fui descobrir isso durante o jogo.



A primeira impressão foi muito boa. O National Park é muito bonito, com tudo muito limpo e organizado. Pena que eram tão poucas pessoas para o tamanho do estádio; estavam mais para testemunhas do que torcedores. Já era o fim da temporada regular e, se considerarmos que cada equipe joga 162 partidas no ano, sem contar os playoffs, os torcedores de Washington já deviam estar cansados de ver o time apanhar. Vale notar também que, conforme mencionei na semana passada, os torcedores de um e de outro time ficam misturados, sem atrito.



O jogo propriamente dito é enfadonho. É o esporte perfeito para a TV, pois é um interminável para-e-continua. E você fica ali sentado vendo aquilo. Vez ou outra o rebatedor acerta a bola e aí é aquela empolgação, que dura pouco. Os lances são muito rápidos e esses momentos não devem somar nem um terço do tempo total da partida. Enquanto isso, a turma come. E como come. E bebe também, claro. E parecem não dar a mínima bola para o que está ocorrendo no jogo. Você fica se perguntando se estão ali para ver o jogo ou para encher a pança. O pior é que nada é barato. Uma garrafinha de cerveja long neck custa 7,50 dólares. Com o que se paga por três garrafas, dá para ir ao Costco, um atacadista, e comprar uma caixa com 24 garrafas. Sai caro ir a um jogo desses. É por essas e outras que a turma aqui vive endividada.



Bom, no fim das contas, o jogo foi até disputado, porém o time da casa, como se esperava, acabou amargando mais uma derrota. Mas ainda havia outro jogo, pois eu queria conhecer mais um estádio. Mas isso é assunto pra amanhã. Boa noite.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os recatados do ABC

Fiquei mais de uma semana sem escrever porque viajei a Nova Iorque para participar do congresso anual da Associação Americana de Tradutores. Foram cinco dias longe de casa e praticamente afastado do computador, o que não foi de todo ruim. Mas o que vi por lá vai servir de inspiração para vários textos, como eu disse no Twitter há alguns dias. Mas vamos ao assunto de hoje, antes que ele caduque.

Viajei na quarta-feira e fiquei sem acompanhar o que ocorria no Brasil. Ao retornar, me espantei com aquele caso da universitária da Uniban e seu vestidinho cor-de-rosa. De onde saiu aquele recato todo? Por que a revolta com a menina? Sim, estava curto, mas precisava hostilizá-la a ponto de ela ter que sair escoltada da faculdade? Não me surpreenderia se a turma iniciasse um coro de gostosa ou coisa que o valha, mas chamá-la de "puta" foi exagero.

Que fique claro, não achei a roupa apropriada para o local. Na verdade, o vestido era curto demais para qualquer ocasião. Sempre achei que, se há muita carne à mostra, o resto não deve servir para muita coisa. E isso se aplica também aos homens. Mas voltando às mulheres, entendo que algumas põem uma roupa mais curta ou chamativa para atraírem os homens, mas será que não percebem que acabam nos atraindo pelos motivos errados? Essa aí é só pra farra, olha a roupa dela, pensamos nós. A mulher mais bonita e charmosa (charme, meninas, o negócio é charme) pode muito bem estar coberta da cabeça aos pés, sem revelar muita coisa. É esse o segredo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Praça de esportes ou praça de guerra?

Muito falou-se nessa semana sobre esse Flamengo x Botafogo. O lógico seria jogar no Maracanã, mas o Botafogo preferiu fazer diferente. Como o Fogão é o mandante, optou por levar a partida para o Engenhão, como costuma fazer quando joga contra times de fora do Rio. Felizmente a prática de ceder apenas 10% dos ingressos para a torcida do visitante não vale para este jogo. Os ingressos foram divididos meio a meio, embora, ao que parece, não será fácil dividir as duas torcidas no estádio.

Na Gávea, do lado do Flamengo, já se falava do assunto antes mesmo do jogo contra o Palmeiras no domingo passado. Reclamou-se muito que jogar no Engenhão seria, no mínimo, uma imprudência. O time está embalado, a torcida rubro-negra é grande e certamente compareceria em peso. O estádio seria pequeno para acomodar todo o mundo e haveria confusão.

Do lado das autoridades e de quem organiza a partida, mais preocupação. O efetivo policial será de mil homens, o que me parece exagerado. Trezentos desses policiais atuarão dentro do estádio. O Botafogo também contratou seguranças particulares. Haverá uma delegacia móvel e uma carceragem! Se pensarmos que o Maracanã vai ser fechado para reformas a partir do início do ano que vem e que todos os clássicos vão ser jogados no Engenhão, será que vai ser esse Deus nos acuda todas as vezes que houver um jogão?

Uma pausa para acompanhar o noticiário. Torcedores dos dois clubes brigaram e causaram tumulto em Niterói; dois acabaram presos. Já nos arredores do estádio, torcedores do Flamengo e policiais estão se enfrentando. Derrubaram cerca, a polícia mandou bomba de efeito moral e gás de pimenta, aquela esculhambação que a gente já conhece. Será que vai ser sempre assim? Será que um dia o torcedor brasileiro toma jeito? Quando é que ir a uma praça de esportes no Brasil, sobretudo para ver um clássico, deixará de ser um programa de alto risco? Pelo jeito, mil policiais vão ser pouco.

Não posso deixar de comparar essa bagunça com o que ocorre aqui nos EUA. Um evento esportivo é, antes de tudo, um programa para toda a família. Dá para levar a criançada numa boa, sem medo algum. Não se vê briga, arruaça, e olha que aqui se vende bebida nos estádios. Ah! Tampouco se ouve palavrão como se ouve aí. Costumo dizer aos estrangeiros que, para aprender palavrão em português, o melhor curso é ir a um estádio de futebol no Brasil. Após dois tempos de 45 minutos, você sai catedrático no assunto.

Há quem diga que a situação nos estádios americanos é mais fácil de manter sob controle. Salvo raras exceções, os jogos são de uma torcida só, pois cada cidade tem apenas um representante em cada esporte ou campeonato. Não é bem o caso, e dou um exemplo. Fui assistir a um jogo do Nationals, o time de beisebol daqui, e havia muitos torcedores uniformizados do Phillies, clube rival, da Philadelphia. Não foram xingados, não levaram tapa na orelha, não levaram copo de cerveja (ou de coisa pior) nas costas.

Vamos sediar a Copa e as Olimpíadas, está na hora de aprendermos a nos comportar. Já que o povão brasileiro é tão macaco de auditório dos Estados Unidos e copia tantas coisas feitas por aqui, por que não seguimos esse bom exemplo da civilidade dos americanos nos estádios? Só teríamos a ganhar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Para quem se aventura a traduzir para uma língua estrangeira

Há algum tempo eu não escrevia sobre tradução, então vamos lá. O que vem a seguir são dois tostões de prosa suscitados por um texto e respectivos comentários publicados no blog do Danilo Nogueira, amigo e colega de profissão (http://www.tradutorprofissional.com/2009/10/terceirization-e.html). O começo é meio abrupto, mas é que primeiro abordei um dos comentários para depois seguir para o texto principal.

Como disse o anônimo, essas traduções de resumo de dissertação ou tese são apenas para cumprir um requisito. Normalmente são feitas pelo próprio autor, de maneira “intercrural”, ou por um amigo que sabe (ou pensa que sabe) um pouco mais de inglês. Não raro a tradução sai porca. Olha, para ser sincero, resumo e currículo são duas das piores coisas que podem aparecer na frente de um tradutor. Sempre procurei me esquivar desses pepinos, mesmo quando estava começando. Mas não era disso que eu queria tratar.

Com relação ao assunto do texto do Danilo, há uma regrinha boa a ser seguida: Verifique se a solução encontrada vem de um texto escrito originalmente naquela língua ou de uma tradução. Se vier de uma tradução, é bem possível que o tradutor que a fez tenha passado pelo mesmo apuro que você está passando. De onde será que ele tirou aquela palavra? Será que era um tradutor competente, confiável? Quem traduziu terceirização por terceirization não tinha a mínima ideia do que estava fazendo. Um bom redator em língua inglesa não escreveria terceirization. É o texto de falantes nativos e bons redatores que você tem que tomar como base para confirmar um palpite.

Mas essa história toda me faz lembrar de um outro “causo”, que costumava citar nas minhas palestras. O sujeito estava lá traduzindo e lhe aparecia o termo fiscalização. Desatento, mandava lá um fiscalization. Pausa no causo. E agora? Será que é parente de terceirization? Numa hora dessas, o sujeito vai ao Google e faz uma busca. Mas por favor, nada de simplesmente digitar fiscalization na página inicial e mandar pau. Selecione direitinho os parâmetros da sua busca. Para verificar se o termo existe na língua inglesa, selecione a língua correta, senão vai vir resultado de tudo quanto é língua. Uma das maneiras é ir à “Pesquisa avançada” e selecionar “Inglês” no campo “Idioma – Exibir páginas escritas em”.

Retomando o causo, nosso tradutor fez sua busca no Google como manda o figurino e encontrou lá milhares e milhares de páginas em língua inglesa com fiscalization. Deu-se por satisfeito e tocou o barco pra frente. Que pena, pulou uma etapa importante. Se tivesse ido além de simplesmente se contentar com o número de páginas resultante da busca e houvesse esmiuçado algumas dessas páginas, teria percebido que havia um problema. A palavra fiscalization existe no inglês, mas tem a ver com a idéia de dar um caráter fiscal a alguma coisa, relacioná-la com tributo, finanças públicas. Ou seja, não tem nada a ver com o significado mais conhecido de fiscalização no português: inspeção, controle, vigilância.

Mas e como é que a gente traduz então essa nossa fiscalização para o inglês? Vai depender do contexto, mas enforcement, palavra pouco lembrada pelos brasileiros que se arriscam a traduzir para o inglês, é uma boa solução em muitos casos. Uma vez eu estava sentado num banco no Washington Square Park, em frente à New York University, e passou uma viatura com “Park Enforcement” escrito na porta. Olha aí! Outro exemplo? Vejo muito nas ruas por aqui uma placa com o limite de velocidade e, embaixo, outra placa com os dizeres “Photo Enforced”. É a nossa fiscalização eletrônica, que, na minha querida Brasília, chamamos singelamente de “pardal”.

P.S.: Após meu comentário, Danilo me avisou que também se usava o termo pardal em outros lugares do Brasil. Bom saber...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carro novo

Estamos de carro novo já há algumas semanas. Na verdade, nós não, o Rodrigo. Foi presente de aniversário atrasado, pois estávamos no Brasil em agosto.

Olha o sorriso dele ao ver o carro novo:


E os dois estão dividindo o carro direitinho. Cada hora, um dirige um pouco.


Parabéns pra ela!

Hoje é aniversário da minha filhotinha. Há seis anos nascia a Clarissa, para transformar nossa vida de maneiras que nem imaginávamos. Que a alegria desses poucos anos se repita pelo resto de nossas vidas.

Um beijão procê, Kika. Você será sempre a gatinha do seu papai.



Dificultar o que já não é fácil

Terça-feira é dia de ginástica do Rodrigo. Até o semestre passado, um pai ou responsável tinha que estar ali do lado, acompanhando a criança durante os exercícios. Agora que ele já completou três anos, fica lá só com as outras crianças e as professoras. A mim, resta esperar no hall de entrada, junto com os outros pais, que na verdade são em sua grandessíssima maioria mães. São sempre as mesmas, salvo uma ou outra que falta ou que leva a criança para repor uma aula perdida.

O ambiente lá é espartano. Ao redor, escaninhos onde as crianças guardam os sapatos; um freezer com picolé, dois bebedouros, uma janela que dá para a secretaria e dois lugares para os pais se sentarem. Um é uma mesa tubular com tampo de plástico e bancos de um lado e de outro, com assentos também de plástico. Deve comportar umas seis a oito pessoas. O outro é uma pequena arquibancada vazada, feita de tubos de metal e tábuas de madeira. São três níveis com apoio para os pés.

Eu estava lá sentado no nível mais alto dessa arquibancada, no canto, para ter uma visão melhor do Rodrigo e, claro, para poder me concentrar no meu livro. Mas de vez em quando uma pessoinha me tirava a atenção. Era uma menininha oriental, que, pela desenvoltura, já devia ter mais de um ano. Eu já a havia notado antes. A irmã vai fazer ginástica e a pequenininha fica lá com a mãe. E era aí que eu queria chegar.

A menininha subia nessa arquibancada e ia de um lado para o outro. Por duas vezes quase caiu entre o nível mais alto e o do meio. Na segunda vez, quase tive que acodi-la, pois a mãe estava meio distraída, de olho na filha mais velha, que se esbaldava numa cama elástica. Não tardou, a pequena perdeu o interesse pela arquibancada e passou a vaguear pelo recinto. Dava seus passinhos até um dos bebedouros e lá ia a mãe atrás para evitar que a menina se molhasse. Bulia com o freezer de sorvetes e voltava para a arquibancada. E tornava a flanar.

A mãe tentava detê-la, fazer com que se mantivesse no mesmo lugar. Vigiar cada passo da mocinha dava muito trabalho. Mas os esforços maternos eram em vão; a criança não queria nem saber. Até que, num dado momento, a coisa desandou de vez. A pequena se jogou no chão e deu um piti daqueles a que todo pai tem horror. As outras mães continuaram a conversar e fingiram que não era com elas. Fizeram muito bem. Acho que se tivessem se voltado para mirar o espetáculo, a mãe, que se limitou a olhar a filha, teria ficado ainda mais aperreada.

É duro manter ocupada e sossegada uma criança de um ano e pouco durante 45, 50 minutos, sobretudo num lugar como aquele. Quem não sentiria empatia por aquela mãe? O rosto já estampava-lhe o cansaço, e eram apenas dez e pouco da manhã do que tinha tudo para ser um longo dia. Até eu me cheguei a me apiedar da pobre, mas esse sentimento durou pouco.

Ela havia saído de casa despreparada; dificultara o que já não é fácil. Para entreter a criança, tinha apenas uma garrafinha de água e um copinho com Cheerios (um cereal que as crianças — e os adultos também — adoram). Por que não havia trazido um ou mais brinquedos? Uns livrinhos também teriam sido uma ótima idéia. Sentaria a pequena no colo e leria. Quem tem mais de um filho sabe que a concorrência pela atenção dos pais é feroz. Teria sido ótima oportunidade de dar atenção individualizada à caçula. A espera teria sido mais prazerosa, ou menos árdua, para ambas e todo o mundo teria saído de lá mais feliz.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Economical Writing


This is the very first time I post in English. I will try to do this as often as possible, but you will continue seeing mostly Portuguese here. But for sure I will use English from now on to comment on books written in this language.

Economical Writing is a short little book that grabbed my attention the other day at the Fund. The author had economists in mind, but that doesn’t mean people from other fields could not benefit from reading it. To tell you the truth, I was not terribly impressed, as you can find better books in the market (The Elements of Style comes to mind).

If you still want to give it a try, check rules 23 (on word order), 25 (on verbs, active ones), 26 (on avoiding words that bad writers love), and 28 (on being plain).

O swing do Rodrigo

Vou começar a colocar uns vídeos aqui. Para abrir a série, vai o Rodrigo, com pouco mais de um ano, já mostrando os seus dotes de dançarino.