sexta-feira, 10 de julho de 2009

Um sinal

Tenho recebido sinais de que está na hora de voltar para o Brasil. Hoje veio mais um.

Para morar aqui nos Estados Unidos, o cara tem que ser um pau-pra-toda-obra e saber consertar praticamente tudo em casa. Eu sou um zero à esquerda em termos de habilidades manuais. Se for bater um prego, o dedo vai invariavelmente levar umas marteladas.

Hoje fui desatarraxar um troço numa torneira e acabei cortando os polegares. Foram cortezinhos superficiais, nada sério, mas estou aqui com um dos dedos com um band-aid de homem-aranha, que foi o que estava à mão.

Olhando o serviço depois de feito, qualquer um perguntaria, “Mas como você conseguiu se cortar fazendo isso?” Pois é. Tá na hora mesmo de ir embora.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

4 de julho (antes tarde do que nunca)

Antes que o 4 de julho fique longe demais, dois comentários que eu acabei esquecendo. O dia da independência aqui também é dia de show de fogos de artifício. O principal, claro, é lá em DC, no Mall, mas deve ser o evento que reúne mais pessoas naquela região. Só perde, claro, para a posse do presidente. Seria uma operação muito complicada levar as crianças para lá na idade em que estão. Há quem leve, mas acho que é sofrimento demais para pouco retorno. Quando estiverem grandinhos, passamos as férias de julho aqui na terra deles e todo mundo vê o show. Resolvemos ficar aqui em Vienna mesmo e foi bem satisfatório. Eram centenas e centenas de pessoas num gramadão/estacionamento, algumas deitadas em cobertores ou toalhas de praia, outras nas suas cadeirinhas dobráveis. E o show durou meia hora. E nós deitados lá, olhando para o céu, sem pensar em muita coisa, o que de vez em quando é muito bom.

O outro comentário é apenas uma curiosidade. No 4 de julho, as pessoas aqui te desejam um “Happy 4th” ou um “Happy 4th of July”. Já imaginaram alguém no Brasil virar pra você e dizer “Feliz Dia da Independência” ou “Feliz 7 de setembro”? No começo, nós estranhávamos, mas agora já nos acostumamos. Afinal de contas, é o jeito deles…

sábado, 4 de julho de 2009

Patriotismo ou patriotada?

Eu sempre digo aos amigos aqui nos Estados Unidos que brasileiro só é patriota mesmo e veste as cores do país quando tem jogo da seleção na Copa. Não é que não sejamos orgulhosos do nosso torrão natal, mas não se vê no Brasil a necessidade de ostentar nosso amor à pátria.

Aqui nos EUA a situação é outra. De modo geral, o americano é notoriamente patriota e faz questão de demonstrar isso. Ele veste a camisa e estampa as cores da bandeira em tudo. Vejam, por exemplo, esta senhora que vi ontem no supermercado (a do meio):

A foto está meio desfocada, mas pode-se distinguir as cores e as estrelas da bandeira americana no casaco. Leitor, você tem um casaco com as cores da bandeira brasileira? Provavelmente não. E que tal estes pratos e guardanapos para o churrasco do 4 de julho?

Recentemente, organizou-se um churrasco num parque. Uma amiga brasileira e o marido americano se encarregaram de chegar mais cedo e arrumar tudo por lá. O marido aproveitou que era dia da bandeira aqui e decorou as mesas a contento:

Lembram-se da última vez em que trouxeram a bandeira brasileira para a mesa de refeição? A grande maioria no Brasil não deve nem se lembrar do Hino à Bandeira, o “Salve lindo pendão da esperança...”

É comum também ver a bandeira propriamente dita hasteada na frente das residências americanas (não num mastro vertical, mas diagonal, fixado à frente da casa). Alguém aí no Brasil tem a bandeira hasteada na frente de casa?

Já imaginaram como está isto aqui hoje, 4 de julho? E aí, é patriotismo ou patriotada? Talvez nós brasileiros pudéssemos nos espelhar um pouco nos americanos e estender o nosso patriotismo para o intervalo entre uma Copa e outra. Mas nada de exageros. Na minha forma de ver, esse patriotismo exagerado, quando bem manipulado, alimenta a beligerância americana, e a gente sabe muito bom no que dá.

4 de julho

Dia da independência dos Estados Unidos. Hoje é dia de acender a churrasqueira e encher a pança num barbeque, o churrasco deles. Há quem asse um salmãozinho, uma costela, um franguinho, mas o negócio mesmo é hambúrguer e cachorro quente. Eu não fugi à tradição, mas, evidentemente, como bom brasileiro, fiz um churrasco à nossa moda. Nada de salsicha, pão, ketchup e mostarda. Fomos de carne mesmo, só no sal grosso, arroz, vinagrete, cervejinha. Temos que seguir os costumes dos nossos anfitriões, ainda mais na data do aniversário do país deles, mas não precisa ser ao pé da letra, não é?

sábado, 27 de junho de 2009

Uma noite de sexta

Nós quatro reunidos na cozinha, pizza do nosso lugar favorito, uma garrafa de Chardonnay. Rimos, ouvimos música, as crianças fizeram a boa e velha bagunça delas.

Na hora de dormir, claro, o Rodrigo naquela animação. Entro no quarto dele e converso. Depois de um beijo de boa noite retribuído como só ele sabe fazer, digo (!!!): “Now you go to sleep, boy. You’re the coolest little kid in the whole wide world, did you know that? Sleep tight, OK? Sweet dreams." (Numa tradução livre, “Agora vamos dormir, gatinho. Você é o menininho mais bacana do mundo, sabia? Durma bem. Sonhe com os anjinhos.) E ele ficou quietinho, escutando, como se entendesse... e o pior é que entende. Dois segundo depois, estava dormindo.

Criança dá um trabalho imenso, só quem tem sabe. Mas criança também proporciona esses momentos especialíssimos... que só quem tem sabe.

Ia escrever também sobre o Clapton, mas vai ficar para amanhã que estou com sono e me faltam só umas seis páginas do Life Without Lawyers. Livro no finzinho não é coisa que se desperdice. Poucas sensações se igualam à de terminar um livro e poder ficar naquela gostosa indecisão na frente da estante: “E agora? O que eu vou ler?” Encerro com uma tira especialíssima da Hilary Price (www.rhymeswithorange.com). É uma daquelas situações que só entende quem já passou por ela.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

MJ

Já estava no seu ocaso, mas sua morte não deixa de ser uma grande perda. Soube escrever músicas pop como pouquíssimos. Entre as suas façanhas, gosto desta: Thriller vendeu mais de um milhão de cópias... só em Los Angeles. Se você parar pra pensar, não é pouca coisa não.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Copa das Confederações

Que beleza a falta batida pelo Daniel Alves! O Joel, raposa velha, quase apronta pra gente, mas não deu. Acredito que teremos vida mais fácil no domingo.

Agora, para ficar tudo certo, só falta a FIFA proibir aquelas cornetas na final de domingo e no ano que vem, na Copa. Tenham dó, vai?! Aquele zumbido o jogo inteiro enche o saco!

Xô, advogados!!

Life Without Lawyers é uma beleza de livro! Mostra de forma bem imparcial e objetiva um dos mais graves males, senão o mais grave, de que padecem os Estados Unidos. O advogado Philip Howard revela como a falta de bom senso e a forte inclinação dos americanos para o litígio dificultam a vida em um país doente e afetam desde as atividades mais comezinhas, como ir ao médico ou levar o filho para brincar na rua, até o ensino e as relações empregatícias. Este vai ser o meu assunto nos próximos dias.

João Vicente x Salvador Cabañas

Quem me conhece sabe bem que eu adoro a natureza. Sério! Adoro a natureza lá no lugar dela e eu aqui no meu lugar. Em inglês fala-se em “the great outdoors” para referir-se à maravilha que é estar ao ar livre, em contato com a natureza. Pois eu sempre digo: “I love the great indoors.” Escalada, caminhada no meio do mato, pescaria. Eu tô fora! Nada melhor que ficar no fresquinho do ar condicionado lendo um bom livro. Tudo bem, para não me chamarem de intransigente, pode ser na beira da piscina ou na praia. Mas falando em natureza, ela veio haver-se comigo aqui no meu quintal num dia desses.

Na sexta-feira, 5 de junho, pegamos a estrada e fomos visitar alguns lugares no nordeste dos EUA. Passamos seis dia fora e, na volta, encontramos um hóspede: uma marmota (groundhog ou woodchuck, em inglês) havia se instalado ali fora. Fizera um buraco perto de uma árvore e já tinha cavado um bocado, pois já havia um monte de terra considerável do lado de fora. Após observar o bicho por alguns minutos, resolvi batizá-lo de Cabañas, em homenagem ao centroavante gordinho e chato da seleção paraguaia. O “bicho”, como Clarissa e Rodrigo passaram a chamá-lo, se encaixava bem nessa descrição.

Cabañas passeando ao sol

Telefonei para o governo local, para a área que cuidava de animais e zoonoses, para saber se não viriam apanhar o Cabañas e levá-lo embora. Negativo. Só viriam se o bicho estivesse dentro da minha casa e, obviamente, eu não estava disposto a deixá-lo entrar. Liguei para uma firma especializada na remoção de animais e se comprometeram a vir olhar o serviço. No dia seguinte, sábado, veio a cacetada: o orçamento foi de 350 dólares. Imaginava que fosse caro, pois serviço nenhum aqui sai barato, mas 350 pratas para dar um fim no Cabañas era um pouco demais. Mas ficou acertado que viriam na segunda-feira de manhã.

Passei o fim de semana pensando numa maneira de evitar pagar aquilo tudo. Cheguei a abrir o portão lá fora, na esperança de o meu convidado resolver ir dar uma volta pela rua e aí eu correr e fechar-lhe o portão no focinho. Ele é bicho, mas não é burro, claro, e não caiu nessa. Nesse meio tempo, Clarissa me implorava que não fizesse mal ao “bicho”. No domingo, conversei com um amigo e ele me disse que a solução era mais simples do que eu imaginava. Era só comprar uma jaula/armadilha por umas 50 pratas no Home Depot, colocar meia maçã lá dentro e esperar. Antes que eu me esqueça, havia dado um jeito nas costas na quinta-feira anterior e mal podia andar. A idéia de, naquelas condições, ir caçar uma marmota fedorenta (segundo o meu amigo) e possivelmente raivosa e pulguenta não me agradava nem um pouquinho, mas todo o mundo tem seu preço. A perspectiva de economizar 300 pratas mexeu com os meus brios e resolvi topar a parada. Na manhã seguinte, liguei para a firma e cancelei o serviço. Assim que melhorasse das costas, eu mesmo despejaria o Cabañas.

O embate tardou um pouco mais do que devia porque precisei ir a Boston. Mas no último sábado, no fim da tarde, comprei a jaula e preparei tudo direitinho. Seguiu tudo conforme o roteiro. Por volta das 11 da matina o Cabañas já estava enjaulado. Não poderia soltá-lo aqui por perto porque as marmotas normalmente voltam para a sua última residência. Enfiei a gaiola num saco, forrei o porta-malas do carro com saco plástico e jornal (vai que o bicho me resolve fazer uma besteira lá no carro) e o levei embora, deixando a 66 e o Beltway entre ele a nossa casa. Abri a jaula perto de um parque e ele relutou, mas acabou saindo num pique sem nem agradecer a acolhida das últimas duas semanas. Por via das dúvidas, a jaula está lá fora preparadinha para o caso de o Cabañas ter deixado para trás um parente. Felizmente, até agora nada, mas ainda me toca consertar o estrago que ele fez. Vou ligar para uma firma de jardinagem que deixou o cartão aqui na porta outro dia. Só espero que o serviço não saia caro porque senão…

Cabañas devidamente enjaulado e, ao fundo, o monte de terra que cavou para fazer sua toca.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Motoristas nada profissionais

A notícia sobre o choque das composições no metrô de Washington não foi a única a me chamar a atenção durante o Jornal Nacional de segunda-feira. Interessou-me também o caso dos taxistas de Fortaleza que ajudam jovem motoristas embriagados a passarem incólumes pelas blitzes da polícia. Para quem não viu, a ajuda consistia no seguinte: o bêbado sai da boate e o taxista se oferece, por R$ 20, a tomar-lhe o volante do carro e passar na blitz, que normalmente está montada logo ali. No trajeto, o carro é seguido por uma moto. Após a blitz, o bêbado assume a direção do carro e o taxista volta na garupa da moto até a porta da boate para repetir o logro.

O que mais me espanta é que são motoristas de praça, motoristas ditos profissionais. Não passa pela cabeça desses sujeitos que estão sendo cúmplices de um crime? A ajudinha deles pode resultar em acidentes e até mesmo em mortes. Mereciam ter a carteira de motorista e a licença cassadas, pois demonstram não estarem minimamente preparados para exercer seu ofício. É pena que esse descaso com a vida alheia ainda seja tão comum no Brasil.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O acidente no metrô de Washington

Soube do acidente ao ver o Jornal Nacional. Levei um susto, pois reconheci imediatamente os trens. Fiquei me perguntando logo que linha era aquela. Foi na linha vermelha, a qual raramente uso. Até agora foram computados dezenas de feridos e seis mortos, inclusive a condutora do trem que bateu na traseira da outra composição. Poderia ter sido bem pior, pois os trens seguiam rumo ao centro da cidade e, naquele horário, por volta das 17h, o fluxo maior de passageiros é na direção contrária. Ainda assim, é uma tragédia.

domingo, 21 de junho de 2009

Flodar (floodar)

Acabei de entrar em um site para assistir ao Brasil x Itália e me deparei com uma nova palavra: "flodar". Estava nas instruções do chat que acompanha a transmissão. Dizia lá: "Não é permitido flodar (mandar mensagens repetidamente)." Vem do inglês flood, que significa inundar. Para mim, é um aportuguesamento desnecessário, pois existe uma forma de expressar a mesma idéia em português. Pobre da inculta e bela. Mas é isso aí, o falante faz o que bem entender com a língua e lutar contra isso é inútil.

domingo, 31 de maio de 2009

Crueldade

http://www.rhymeswithorange.com/

Copa de 2014

As cidades-sede estão escolhidas. Para termos uma Copa sem sustos, chegarmos à final e levantarmos o caneco, sugiro o seguinte: a Alemanha deve jogar no calor de Manaus. Itália, França (se chegar lá), Espanha e Inglaterra vão para as capitais do Nordeste; além de torrar no calor, vão pensar que estão de férias. No categoria calorão, ainda sobra Cuiabá, para onde podemos mandar alguma outra equipe européia mais encardida. Nigéria e Gana, supondo que serão estes os africanos mais perigosos da Copa, devem ir para Curitiba e Porto Alegre, para passarem bastante frio. Só ficou faltando uma sede para os argentinos. Se a FIFA houvesse deixado Florianópolis entre as 12, estava fácil, pois argentino só vai para lá para veranear. Mas a Argentina é freguês e não vai incomodar ninguém. Se o Uruguai não nos aprontar outro Maracanazo, a Copa é nossa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O dom da oratória

Ontem à noite, vinha da aula ouvindo a NPR (www.npr.org). Estavam transmitindo a cerimônia em que o Obama anunciou a indicação da juíza Sonia Sotomayor para a Suprema Corte americana. Primeiro, ele discursou. Que beleza é ouvir o Obama falar. Quanta eloqüência! Para um político, ser bom orador já é meio caminho andado. Carregam-se massas apenas com a palavra. Depois fiquei pensando no Lula. A imagem que me vem quando o Lula discursa é a de um equilibrista na corda-bamba, mais precisamente de um equilibrista não muito hábil. Ele chegará ao outro lado, assim como o nosso presidente chegará ao fim do seu discurso, mas haverá desequilíbrios, sobressaltos, sustos, e o português apanhará um bocado. Quanta diferença…

Memorial Day (2)

O fim de semana desse feriado também marca o início do verão nos Estados Unidos. É quando se abrem as piscinas e a turma começa a temporada do barbeque, o churrasco deles, que não lembra muito o nosso. Aqui no nosso condomínio, a piscina abriu com algumas restrições. Até que se encerre o ano letivo nas escolas públicas, a piscina só abre após as 16h (as aulas terminam às 15h). Aqui ninguém tem refresco. Outra regra, esta um pouco menos sensata, estabelece que a nossa piscina só pode abrir depois do meio-dia. No melhor horário do dia, a manhã, ficamos impossibilitados de tomar um banhozinho. Chatos!

As piscinas ficarão abertas até o Dia do Trabalho, que aqui é comemorado na primeira segunda-feira de setembro. Depois disso, só em determinados lugares, como em centros comunitários para recreação e desporto (centros esses que merecem um texto à parte, pois são um primor). O que incomodo é que, apesar de o calor continuar até o início de outubro, não se abrem exceções. Pode fazer um calor de rachar, mas as piscinas fechadas no Dia do Trabalho só poderão ser freqüentadas de novo no ano seguinte, no próximo Memorial Day. Para nós brasileiros, que crescemos habituados a temperaturas altas quase o ano inteiro, é difícil, mas acabamos nos acostumando.

Para mim, particularmente, o Memorial Day é também o feriado das motos. Nesse fim de semana prolongado, dezenas de milhares de motoqueiros vêm a Washington nas suas Harleys para homenagear os prisioneiros de guerra e os soldados desaparecidos em combate. Existe inclusive uma organização sem fins lucrativos que congrega essas pessoas, a Rolling Thunder (http://www.rollingthunder1.com).

Memorial Day (1)

A última segunda-feira foi feriado. Foi o Memorial Day, o dia reservado aqui nos EUA para lembrar os americanos mortos nas várias guerras de que o país participou. É gente que não acaba mais. Para se ter uma idéia, só no cemitério nacional de Arlington estão enterrados os corpos de mais de 300 mil.

Mas não é esse o foco deste texto. Assim como boa parte dos feriados aqui nos Estados Unidos, o Memorial Day não cai numa data específica, mas sim num dia da semana pré-estabelecido. Mas como assim? O Memorial Day cai na última segunda-feira de maio. Dessa forma, a data sempre varia. Este ano, foi 25 de maio; ano que vem, será no 31 de maio. Com a exceção do Dia de Ação de Graças (última quinta-feira de novembro) e do 4 de julho (dia da independência), do Dia de Natal e do primeiro dia do ano, todos os outros feriados caem em segundas-feiras.

Eu acho esse sistema ótimo, para ser sincero. Assim, evita-se aquela farra que a gente vê no Brasil de dias de trabalho serem enforcados porque um feriado caiu na terça ou na quinta (ou até mesmo na quarta, em certas repartições públicas). Virei caxias de repente? Não é por aí. Num país como o Brasil, que ainda está longe de ser rico, não faz sentido jogar fora tantos dias de trabalho como se costuma fazer. Pelo que tenho visto ultimamente, essa preocupação não é só minha. Eu me recordo de ter visto umas duas reportagens sobre o assunto em telejornais da Globo. Numa, chegou-se até a calcular o prejuízo (milionário, vejam vocês) que o comércio do Rio tinha num dia enforcado em virtude de um feriado.

Eu ficaria satisfeito se me aparecesse algum político disposto a adotar o sistema à americana. Coitado, provavelmente lhe pespegariam a pecha de louco. Mas não custa tentar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mais respeito com as donas de casa (ou Tributo à Érica)

O marido volta do trabalho e não raro se surpreende ao encontrar a casa praticamente do mesmo jeito que a deixou. Um ou outro, mais corajoso ou desavisado, se vira para a mulher e pergunta: “O que você ficou fazendo o dia inteiro?” Aí o tempo fecha.

Vida de dona de casa não é fácil, especialmente no caso das chamadas stay-at-home moms, ou seja, as mães que não trabalham fora e ficam em casa cuidando das crianças. E olha que essas pobres, diferentemente das mães brasileiras de classe média alta para cima, não desfrutam do luxo de contar com empregada, faxineira, babá e outras fadas-madrinhas

Como estou saindo do meu emprego, agora é a minha vez de ser um stay-at-home dad. Desde a quinta-feira passada, tenho experimentado um pouco do que essas mães vivem. É matar um leão por dia. Hoje, enquanto engolia o almoço, fiquei pensando que essa tem sido a vida da Érica nos últimos cinco anos e meio e comecei a bolar este texto. Mas voltemos umas horas no tempo.

Acordei pouco antes das seis, fiz uma hora de esteira, tomei banho e saí para deixar a Clarissa na escola. Na volta, só deu tempo de tomar um café com leite, comer um pedaço de queijo e sair correndo para deixar a Érica na faculdade, lá em DC. Chegamos às 9h, em cima da hora. Daí, foi voltar correndo para Vienna e largar o Rodrigo na escola às 9h30. De lá passei no Costco para trocar uma camisa que havia comprado na segunda e corri para Arlington para a consulta com o terapeuta às 10h30. Às 11h20, voltei para casa. Tinha que temperar o salmão que vai para o forno à noite e tentar resolver uma ou duas coisas para então ir almoçar e apanhar o Rodrigo às 13h30. Já cansaram?

Em casa, troquei os lençóis da cama e estava me preparando para descer quando tocou o telefone. Ah, o telefone! Claro, a ligação durou mais do que eu esperava e acabei ficando com o tempo mais curto. Desci, arrumei a pia que havia ficado bagunçada do café, temperei o salmão, me vesti e corri para o McDonalds (!!), munido de uma pilha de jornais para ler enquanto comia (e já eram 12h50).

Nada de sanduíche, claro. Pedi uma saladinha com frango grelhado, sem molho nem croutons. Tenho carregado uns quilos extras que não me pertencem e cheguei à conclusão que me esfalfar na esteira não vai ser o suficiente para me fazer perdê-los no prazo que estipulei. Enquanto almoçava, consegui terminar a coluna da Lucy Kellaway do Financial Times de segunda-feira, cuja leitura eu havia iniciado ontem, enquanto esperava a Clarissa fazer a aula de natação. Ia começar a ler o Post de hoje, mas aí resolvi ganhar tempo e passar logo na lavanderia para pegar umas camisas e deixar outras.

Apanhei o Rodrigo na escola e, agora, ele dorme uma sonequinha até as 14h55, quando tenho que tirá-lo do berço, sem acordá-lo, se possível, enfiá-lo no carro e sair para apanhar a Clarissa na escola. Na volta, vou dar uma passada no supermercado para comprar umas alcaparras, limão e cebola. Érica já deverá estar em casa quando chegarmos, então terei ajuda para entreter as feras até a hora da janta, banho e cama. Ih! Ia me esquecendo de que hoje à noite a Érica dá aula. A janta, banho e cama vão ser por minha conta. O pior de tudo é que, no fim do dia, estarei morto e a minha lista de coisas a fazer estará praticamente intacta.

Quem passa o dia inteiro num escritório não imagina a dureza que é cuidar de criança. Eu costumo dizer que é mais ou menos como tentar executar uma série de tarefas enquanto outras pessoas (no meu caso, duas) tentam te atrapalhar. Os chefes, gerentes de projeto, diretores têm muito a aprender com as mães. O projeto que elas tocam tem uma vida mais longa do que a de qualquer tarefa em um escritório. Além disso, o cliente não grita, não chora, não esperneia. E, mais importante, você não tem laço afetivo algum com o cliente; já com a molecada em casa...

Ficou mal arrematado, mas vai assim mesmo que já são 14h55.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Freakonomics

Já estava na minha estante há um tempo, esperando para ser lido. Embora tenha sido escrito por um economista, tem tudo para agradar em cheio até quem não gosta de economia. Os capítulos sobre pais e sobre nomes dados a bebês aqui nos EUA são ótimos.