terça-feira, 8 de julho de 2014

E as lágrimas me correram pelo rosto

E as lágrimas me correram pelo rosto. Eu não chorava por uma derrota numa Copa desde 1986. E como chorei naquela Copa, durante toda a prorrogação e os pênaltis. Tinha 15 anos e via o último suspiro de uma geração maravilhosa, seguramente a melhor desde o tricampeonato; para alguns, a melhor que já tivemos. Mas hoje foi duro, está sendo duro, a dor não supera a de 86, mas algumas coisas vão ficar comigo para o resto da vida. Perder faz parte do jogo, mas perder como perdermos não é fácil. Gols de pelada de churrasco, linha de passe dentro da nossa área. Se nos serve de consolo, redimimos o Barbosa e os jogadores de 50, diminuímos, se nos perdoam os uruguaios, a importância do Maracanazo, se isso era possível. Quando entrou o sexto gol, a goleada clássica, me lembrei dos 6 x 0 que o Botafogo nos impôs e que lhes devolvemos, na mesma moeda, nove anos depois. Mas a lembrança mais amarga que vou guardar desta derrota é a carinha da Clarissa, minha filhotinha, olhando o pai de soslaio, o pai com lágrimas no rosto. Daqui a 10, 20, 30 anos, ela certamente vai dizer: "Eu me lembro daquele jogo, me lembro do meu pai, lágrimas nos olhos, naquela poltrona no canto da sala onde ele gostava de ver o futebol." Não queria deixar essa lembrança para ela, mas há emoções que a gente não segura. Sorte do Rodrigo, que absorto no seu Minecraft, não presenciou esse sofrimento todo. Mas bola pra frente que, amanhã, a vida continua.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Vai ter Copa

Nem o mais pessimista poderia imaginar que um clima tão ambivalente se abateria sobre o país do futebol num momento como este. Esperamos 64 anos para tornar a organizar uma Copa e agora estamos assim? Alguns revoltados, dispostos a quebrar o pau e tudo mais que vier pela frente. Muitos envergonhados, enrustidos, com medo de assumir que vão torcer pelo Brasil. Quem poderia imaginar? Chega a ser surreal. Mas ainda é hora de darmos um jeito nisso.

O problema é que misturaram futebol, a melhor coisa que já inventaram, como diz um caro amigo, com política, ou melhor, com politicagem, corrupção, safadeza, coisas que poderiam muito bem ter ficado sem ser inventadas. Nesses sete anos desde 2007, vimos os bastidores da organização de uma Copa e tudo de pior que ela enseja. Isso maculou a nossa paixão, nos toldou a visão. Será que deixamos de gostar da Seleção? No fundo, no fundo, acho que não.

O gigante adormecido parece começar a se lembrar de que o futebol está no nosso sangue, de que o jogo de bola é paixão nacional, de que a Seleção, embora menos próxima por seus jogadores desfilarem em gramados que não os nossos, ainda faz parte da nossa cultura, da nossa arte. Na última semana, passei a ver mais bandeiras, mais verde e amarelo, um ou outro carro enfeitado, um comércio aqui e ali exibindo as nossas cores. Mas ainda é um movimento tímido. Parece que deixamos para a última hora até o ato de torcer.

Vejo dois motivos para essa timidez: medo e vergonha. Medo de uma represália mais forte, de ter o seu carro danificado ou o vidro do seu comércio quebrado por quem é radicalmente contra a Copa. Vergonha de aderir a tudo isso de ruim que testemunhamos, de passar uma imagem de que somos a favor de governantes que conduziram tão mal um processo que não poderia ter acabado assim, com as coisas inacabadas. Saibamos separar as coisas. Futebol é uma coisa, política é (deve ser) outra.

Eu sei, estamos meio envergonhados porque vem gente de fora e a casa não ficou pronta a contento. A parede está mal pintada, a mancha de xixi da criança continua no sofá, as cadeiras da sala de jantar estão meio bambas. Agora é tarde. Vamos manter a classe e sermos hospitaleiros. É o que nos resta. Torço para que corra tudo bem. Que os jogos sejam bons, os turistas não saiam daqui muito tosquiados e não haja nenhum acidente nessas obras feitas a toque de caixa. Em outubro, a gente se entende com quem muito prometeu, mas não fez o que deveria ter feito.

Numa crônica recente, o Luis Fernando Verissimo dizia que, em 1970, a torcida contra a Seleção, representante da ditadura militar na ideia de muitos, não resistiu à primeira investida do Jairzinho pela ponta direita contra a zaga adversária. Quando o Neymar abrir pela ponta hoje à tarde e for para dentro do João croata (salve Garrincha!), espero ver o mesmo efeito. Que o Brasil inteiro grite junto no primeiro gol. Não podemos deixar que Blatter, Dilma, Valcke, Lula, Aldo Rebelo nem ninguém estraguem esse momento. Vamos juntos rumo ao hexa!

P.S.: Meu palpite para o jogo de hoje? Brasil 2 x 1 Croácia, um do Fred e um do Paulinho, que tem uma sorte danada e vai fazer um gol na nova casa do ex-clube.

A Copa e o tradutor

Corria o ano de 1998. Era a época da privatização das teles. Haviam montado no setor hoteleiro de Brasília, no prédio da Embratel, os chamados data rooms. Lá, as empresas interessadas em participar do leilão tinham acesso a todas as informações sobre as teles a serem vendidas. Só tinha um detalhe: nem uma folha poderia sair de lá. Então, acotovelavam-se advogados, contadores, intérpretes e tradutores para examinar tudo e depois dizer às respectivas matrizes no estrangeiro se o negócio era bom ou não. Uma colega de São Paulo me avisou que uma agência do Rio estava montando uma equipe para trabalhar lá. Eu me candidatei e entrei. Era o começo de uma aventura.

Nesse meio tempo, vivíamos a expectativa da Copa da França. O Brasil faria a partida de abertura do torneio contra a Escócia. No dia, fomos lá conversar com o nosso “feitor” para saber a que horas ele nos liberaria para irmos ver o jogo. O sujeito era americano, não fazia a mínima ideia da importância da ocasião e disse que ninguém sairia para ver jogo algum. Depois de muita conversa, conseguimos que ele nos deixasse sair uma hora antes da partida… mas com a condição de retornarmos uma hora depois do apito final. Melhor do que nada. Eu nem imaginava o trânsito que pegaria para chegar à casa da minha cunhada no Lago Sul. Parte da Avenida das Nações era estreitinha naquela época, não era como é hoje. Foi uma correria louca, quase não chego. Mas tudo bem: vitória do Brasil por 2 x 1 e lá foi todo o mundo comemorar enquanto eu, resignado, voltava ao trabalho.

E prosseguiram a Copa e as traduções nos data rooms. Era dureza, mas tive a felicidade de fazer amizade com um advogado de um grande escritório e isso logo me rendeu frutos. Na última semana da primeira fase, esse advogado me disse que tinha muito serviço de tradução e me perguntou se eu não queria dar uma passada lá no escritório deles para dar cabo disso. Ora se não! No sábado das quartas de final contra o Chile, lá fomos nós. Nós? Sim, eu, de camisa do Brasil (contrariando a recomendação de usar terno e gravata ao visitar um cliente) e um grande parceiro de muitos trabalhos na faculdade, muitas latas de marrom glacê e muitas sessões de Need for Speed antes de trabalhar. Saímos de lá carregados, com serviço para o resto da Copa.

Chegando em casa, transferi meu escritório para a sala, onde estava o TV grande que eu e minha mãe havíamos comprado quatro anos antes para ver o tetra. Computador na mesa de jantar e pau na máquina. Naquela tarde, enquanto trabalhava, vi o Brasil de Ronaldo e Rivaldo atropelar o Chile de Zamorano e Salas. Mas eu não tinha ideia do que estava por vir. Adoeci, peguei o maldito rotavírus. Foi um sofrimento só. Sofria com a Seleção (aquele jogo com a Holanda!), com o trabalho e com as dores no corpo, o febrão e as constantes idas ao banheiro (quem já teve sabe do suplício). As idas foram tantas que tive de comprar até uma boia, daquelas redondas com um buraco no meio, para poder sentar e trabalhar. O show não podia parar.

E veio a final. Acho que o fato de estar tão envolvido com o trabalho acabou sendo positivo. Estava tão lesado que não dei tanta bola para aquele acachapante 3 x 0. Felizmente, estava terminando o serviço e, no dia seguinte, viajaria para esquecer aquilo tudo. Foi uma batalha, mas consegui juntar dinheiro suficiente para dar um giro em Nova Iorque, com direito a Robert Plant e Jimmy Page no Madison Square Garden e Metallica no Giant Stadium, e trazer um laptop de primeira, novinho em folha. Ainda bem que hoje estou em casa, não precisarei enfrentar americano que não entende de futebol nem trânsito maluco. E, claro, espero me manter saudável até o fim da Copa. O sofrimento de torcer já vai ser mais do que suficiente.

Farão falta

Honestamente, tenho me emocionado muito nos últimos dias ao pensar no desprendimento e humildade da nossa “presidenta” Dilma e do nosso ex-presidente Lula. Se oportunistas fossem, poderiam muito bem se aproveitar do evento de hoje à tarde no Itaquerão para se jactarem de terem organizado, com tamanha competência, evento tão grandioso: a Copa das Copas. Sim, graças ao esforço dos dois e de suas equipes, tudo — estádios, aeroportos, obras de mobilidade urbana (transportes?) — ficou pronto dentro do prazo e, mais importante, pouco se gastou. Mas Lula e Dilma não vão aparecer no estádio, não querem os holofotes. Para que roubar as atenções? O trabalho está feito. Hoje é a vez dos meninos que vão entrar em campo envergando a camisa amarelinha. Eu realmente me emociono e, com os olhos cheios de suor, penso: Oxalá Deus dê saúde e vida longa a esses dois grandes estadistas para que se alternem no poder e governem o Salvelindo por décadas e décadas.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Cada coisa no seu devido lugar

Já vou avisando: os adeptos da teoria da conspiração e os que não conseguem separar futebol do resto das coisas podem ficar bem longe. Não preciso de gente chata.

Ah! Foi igual ao que ocorreu em 1998, quando o Brasil entregou a Copa para a França. Prefiro acreditar que o Brasil é freguês da França em mundiais e que os caras jogaram melhor do que a gente naquele dia. Não me venham convencer do contrário. E se você acha que ontem já estava tudo armado, que era mesmo para o Brasil ganhar, que era para apaziguar os ânimos da população, me poupe. Não preciso ouvir isso. Eu e você pensamos de forma diferente e pronto. Respeite isso.

Quanto à turma que não consegue separar futebol do resto... Olha, futebol é só uma diversão. Pulei, torci, gritei, sofri, vibrei, xinguei. Acabou o jogo, acabou. É vida que segue. Temos de trabalhar, temos de continuar a protestar, a tentar consertar o que precisa ser consertado. O Gigante tira as chuteiras e segue na sua luta. E não me venham com aquela história batida de que “é, mas vai ver a educação, a saúde, a segurança na Espanha”. Isso é outro departamento. Se você não consegue separar uma coisa da outra, você é um tonto.

Por último, não acho que esteja tudo pronto para a Copa. Jogamos um partidaço e soubemos enfrentar a Espanha. Luiz Gustavo foi um monstro no meio-campo, Neymar foi Neymar, Fred foi decisivo e nossa dupla de zaga evitou os erros das partidas anteriores. Mas os espanhóis vão querer dar o troco. E ainda tem a Alemanha, a Argentina e a Itália, que mostrou que tem time e fibra para jogar contra qualquer um. A conquista serviu para restabelecer a Seleção como um dos grandes, pois andávamos meio caidinhos, mas falta consolidar essa equipe e o nosso jogo. Que saibamos conter a soberba e não nos esqueçamos de que o caneco importante mesmo é o do ano que vem.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria


Assustadores alguns comentários que li na Internet sobre a tragédia de Santa Maria. Destaco o que li de pior. Uma ou outra pessoa fala em acidente. Se há uma coisa que aprendi nos EUA, foi que não existe acidente. Existe irresponsabilidade, imperícia, desinformação, despreparo, falta de cuidado, falta de preocupação com a vida alheia, uso de material de pior qualidade para economizar. Quando essas coisas se combinam, os efeitos são desastrosos, trágicos, como vemos mais uma vez.

Também me chama a atenção a veemência com que alguns (muitos) saem atirando para todos os lados. Atacam as autoridades estabelecidas. “Isso é culpa dos bombeiros e da polícia que não fiscalizam, que não arrocham!” “São esses políticos vagabundos!” “É culpa da Dilma” (que, por sinal, fez uma coisa digna ao ir a Santa Maria e torna a mostrar uma face humana que raramente se vê no governo). Mas o pior são os brados de que “isso só ocorre no Brasil”. Quem me conhece sabe que, se o negócio é meter o pau no Brasil, tenho sempre uma ou duas coisas a dizer. Critico porque ainda me preocupo, porque moro aqui (aí) e porque gostaria de ver melhorias mais sólidas e rápidas. Mas hoje não.

A culpa não é só do Brasil. Essas tragédias ocorrem em outros lugares, até no chamado primeiro mundo. A primeira coisa que me veio à cabeça quando soube do ocorrido no Sul foi “Great White, Rhode Island”. Há dez anos, em um mês de fevereiro, um incêndio matou 100 pessoas em uma casa noturna naquele estado da costa nordeste americana. As semelhanças são gritantes. A queima do material de isolamento acústico, portas trancadas (só a banda pode sair por aqui), gente pisoteada. Infelizmente não aprendemos com, nesse caso, os erros dos outros. Oxalá aprendamos desta vez, que a tragédia foi no nosso quintal.

Para quem não lê inglês, pega o texto deste link (http://edition.cnn.com/2013/01/28/world/rhode-island-brazil-nightclub-fires/?hpt=hp_t1) e põe no Google Translate. Para isso a tradução automática serve. Vale a pena também dar uma olhada no artigo da Wikipedia sobre o incêndia e o desfecho do processo todo: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Station_nightclub_fire.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Casa, comida e… saudade

Na cidade onde moro, há um restaurante de onde costumo pedir comida. Quando pego o telefone para ligar para lá, já vou meio ressabiado. É que lá tem um senhor que não é fácil. Vou discando os números e torcendo para que não seja ele quem atenda. Às vezes a torcida não dá certo e aí se segue um diálogo iniciado mais ou menos assim. Ele atende o telefone e eu digo:

— Boa tarde.

— Como é que é?!

E aí vai mais de um minuto para eu fazer o homem entender que a minha quentinha é pequena, com arroz integral, sem farofa... Houve um dia até em que ele já ia desligando o telefone sem nem pegar nome e endereço. Não sei se ele é moco ou meio devagar mesmo, mas só sei que estou com saudade dele. Não, na verdade estou com saudade da quentinha do restaurante, mas não me importaria se o senhor me fizesse chegar aqui a Santiago uma quentinha daquelas com carne de panela que eles servem às sextas.

Sabe, nesse período aqui, já se vão quase dois meses, descobri que o que faz a nossa casa é exatamente isso: a nossa comida, a que estamos acostumados a comer no dia a dia. Vou tomar a liberdade de modificar aquele velho ditado americano que diz que “home is where home is”. Não é não. “Home is where our food is”, “our food”, claro, no sentido que mencionei. Você pode estar no conforto que for, mas não é a mesma coisa sem a sua comidinha. Agora entendo bem o que sofriam a minha mãe, o meu sogro, a minha sogra quando iam visitar a gente lá nos EUA e saíamos para jantar. Coitados.

Mas não foi hoje que me bateu isso (bateu foi a vontade de escrever). Essa ideia me veio à cabeça fazia 10 dias que eu estava aqui e só tem sido reforçada. E olha que não tenho me alimentado mal. Tenho comido muita coisa de que gosto, peixe, mariscos, empanadas, ceviches, cerejas e nectarinas maravilhosas, mas falta uma coisa. Talvez o problema seja agravado pelo fato de que vamos ficando mais velhos e menos tolerantes. Nosso organismo já não aguenta aventuras e novidades gastronômicas como aguentava antes, quando éramos (mais) jovens. E como ainda sou um “velho” prestes a completar apenas 42 anos, ainda sobra muito tempo para a coisa piorar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O sorriso


E assim que saí do prédio hoje de manhã, uma loura alta, bonita, sorriu para mim. Que devaneio! Sorriu na minha direção, só podia ser para outro alguém. Mas um sorriso não é coisa que se ignore. Era o início de mais um dia me sorrindo, me dizendo, “segue em frente, cara”. Sorri comigo mesmo, pois um sorriso lava a alma, inspira, e tomei o caminho do trabalho.

Tenho passado noites ruins, dormido mal. Sou daqueles que dorme e só acorda no dia seguinte. Tenho acordado várias vezes à noite. Sonho com trabalho, já me peguei traduzindo no sonho mais de uma vez. Noite passada, sonhei com beija-flor (com o passarinho, não com a escola de samba, que sou mangueirense), conversei com o Obama. A cabeça anda meio atrapalhada. Tenho trabalhado muito.

Um pouco mais à frente, outro motivo para sorrir: os cachorros espalhados pela rua. Tem uma cachorrada danada solta pelas ruas de Santiago. Lá estavam dois, um macho cortejando uma fêmea, daquele jeito que eles fazem, seguindo e cheirando. Um pouco mais atrás, um pulguento, se coçando. Abri um sorriso porque aqueles três teriam dado uma foto ótima. Há semanas que estou pensando em tirar fotos desses caras. Perdi a oportunidade, mas haverá outras.

Meti uma música no iPod. Grey Street (http://www.youtube.com/watch?v=3sHmx4EgTDo) é, por assim dizer, a música da Clarissa. Na verdade, há várias músicas que me fazem lembrar imediatamente da minha filhota, mas Grey Street foi a primeira. Eu me lembro bem de escutar essa música no carro, dirigindo por Washington, naquele 15 de outubro de 2003, horas depois de ela ter nascido. Passou a ser a música dela.

E continuei minha caminhada para o trabalho, pensando que eu tinha muitos motivos para sorrir. Apesar de uma notícia não muito boa que recebi ontem, segui em frente. Estou cansado, com saudade de casa, do Brasil (imagina?!), mas tenho que estar feliz porque tenho muito trabalho, estou fazendo o que gosto de fazer e as perspectivas são ótimas. E saí pensando naquela inveja boa que bate quando vemos uma pessoa sorridente na rua e não temos a mínima ideia do porquê de tanta alegria. Pois hoje foi dia de os outros sentirem inveja.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Yes, we can! Not quite...

Estava lendo uma matéria no Estadão sobre o primeiro dos cinco shows que os Stones estão fazendo para celebrar os 50 anos da banda. Lá pelo meio do texto, o cidadão que traduziu o que havia sido escrito pelas agências internacionais se sai com o seguinte:

— Não podemos lhes agradecer o suficiente.
Que beleza é o inglês escrito com palavras portuguesas! Quem, em sã (ou mesmo malsã) consciência fala assim? Por que não algo mais natural em português, algo que produza o mesmo efeito?
— Não temos como agradecer a vocês.
Acho que é uma boa saída para o “we can’t thank you enough” dito pelo Jagger. Esse can traduzido como poder me mata. Para, olha, pensa. Nem sempre can é poder.
— I can’t talk right now. Não posso falar agora.
— Muito bem.
— I can’t swim. Não posso nadar.
— Não pode? Quem disse que não pode? Pode sim. Ninguém está te segurando. Pula na piscina. Se você “não sabe nadar”, até melhor. Que você se afogue para nunca mais se sair com uma tradução dessas.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Cada vez pior

Muita gente pronuncia gratuito como se houvesse um hiato ali no meio, como em cuíca ou suíte (está errado; pronuncia-se como circuito, fortuito). Até aí nenhuma novidade. Mas não é que hoje me apareceu gratuíto, assim, com acento agudo no "i". Transformaram o erro de pronúncia em erro de grafia. O pior é que estava em uma mensagem da escola dos meus filhos e, como se não bastasse, foi grafado por uma estudante de Letras. Alguns dizem que não é assim, mas a minha impressão é de que a coisa só piora.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Isto é anúncio que se apresente, Breitling?

"Quando somos apaixonados pela aeronáutica, partilhamos apenas os nossos voos com o mais lendário dos cronógrafos."

Gostou? Eu não. É a chamada da mais recente campanha da Breitling. Está em um anúncio no jornal e vinha me perturbando já há alguns dias. A frase original era esta:

"A man passionate about aviation and fine mechanisms only shares his flights with the ultimate chronograph legend."

Não estou me queixando da adaptação nem da eliminação desta ou daquela palavra. É que a frase em português é ruim mesmo, inclusive porque o "apenas" fora de lugar diz algo diferente do que foi dito na frase em inglês.

Abriram os cofres na hora de contratar o garoto-propaganda (o ator John Travolta), mas, pelo jeito, economizaram no tradutor. Qualquer semelhança com o que se vê por aí nas mais diversas áreas NÃO é mera coincidência.

O pior é que isso não vai afetar nem um pouco a venda dos tais cronógrafos (ou, com um português desses, cornógrafos). No fim das contas, a tradução não faz tanta diferença assim como alguns imaginam que ela faça. É triste, mas muitas vezes é essa a realidade.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Faça, seja, tenha

Hoje me deparei com uma notinha aqui no feicibu de uma pessoa atrás de um tradutor para “realizar um trabalho”. Pedia também que entrasse em contato quem se interessasse em “realizar um orçamento”. Duas vezes de uma tacada só é duro. Abusam do realizar. Qual é o problema com o bom e velho “fazer”? Acho que o sujeito deve pensar: “Fazer um trabalho? Que pobre! Vou é realizar um trabalho. Assim ele sai mais bem feito... Opa? Feito? Ah! Sei lá!”

E já que estamos falando disso, de vez em quando vejo por aí agências de tradução que anunciam orgulhosas: “efetuamos traduções”. Efetuamos?! Se o cliente fosse eu, já perderia o interesse e procuraria outra. Deixe o efetuar para operações aritméticas e para pagamentos (que já é uso corrente) e faça traduções.

E antes que eu me esqueça, dê uma chance ao ser e ao ter. Isso constitui a causa do problema. De jeito algum. Isso é a causa do problema. A casa possui sala, dois quartos… Nessa eu não moro. A casa tem sala, dois quartos… Da próxima vez que for escrever, faça, seja, tenha. São mais simples, poupam tinta, papel e tempo do leitor, e dão conta do recado direitinho.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Irresponsabilidade não é fatalidade

Não consigo tirar da cabeça esse caso da menina que foi atropelada e morta por um jet ski numa praia do litoral paulista no fim de semana. Estive na praia com meus filhos há uns meses e fico pensando que, como ocorreu com essa criança, poderia ocorrer com um dos meus. Porém, como disse o nobre advogado, foi "um fatídico acidente". Ora, o jet ski não se materializou ali do nada. Alguém o entregou a uma pessoa que não estava habilitada a ligá-lo, que dirá conduzi-lo. Pronto, não há o que justificar.

Mas no Brasil é quase sempre assim. Irresponsabilidade, imperícia, incompetência, imprudência viram apenas um acidente, uma fatalidade. Nessas horas, chego a achar justificável o exagero que impera nos Estados Unidos, onde não existe acidente, onde alguém tem que ser responsabilizado sempre que alguma coisa de ruim ocorre. São os dois extremos, aqui e lá, mas o gosto da impunidade, que não nos sai da boca, é mais amargo do que qualquer outro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ela está de olho...

Dona Dilma está de olho nos bancos e quer meter-lhes um freio, pois estão faturando demais. Se ela vai realmente fazer alguma coisa, não sei, mas a iniciativa é boa e tem todo o meu apoio. Quem acompanha o caderno de Economia dos jornais lê a cada trimestre notícias de lucro recorde deste E daquele banco. Os nossos bancos oferecem um serviço bem ruinzinho e ganham muito, mas muito dinheiro em cima da gente. Fico pensando na entrevista de um americano que li há uns anos. Ele dizia que seu sonho era abrir um banco aqui. Nas palavras dele, "o melhor negócio no Brasil é um banco bem administrado. O segundo melhor? Um banco mal administrado." É por aí.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ah, Brasil...

Após o desabamento dos prédios no Rio, ontem à noite, foram fechadas quatro estações de metrô nas imediações. Hoje li que havia taxistas se aproveitando da situação e rodando sem taxímetro. É isso, é prefeito que embolsa o dinheiro que deveria ser usado para ajudar os desabrigados pelas chuvas, é político que desvia praticamente toda a verba para o seu estado. O que me dá uma tristeza imensa é saber que isso tudo não é exceção, é regra. Brasileiro é assim. Quer ser esperto, tirar vantagem em tudo, passar a perna nos outros. Se ninguém tá vendo, qual é o problema? Isso não se faz? Faz sim, bobo, todo o mundo faz. É por isso que o país, embora avance, o faça de forma lenta. Isto aqui poderia ser bem melhor, mas ainda falta muito. E eu morro e não vejo o tão propalado futuro chegar. E não adianta reclamar dos políticos. São gente que nem os que votaram neles. Ah, Brasil...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Herança maldita

E a Dilma insiste nesse negócio de simplesmente sacar o ministro e deixar o ministério na mão de um partido que está mais interessado em mamar nas tetas da viúva. Tudo em nome da tal governabilidade. Trocando em miúdos, para governar, se é que se pode chamar assim, é preciso fazer vista grossa e deixar a turma se locupletar. Dividamos o butim entre nossos aliados para podermos ter maioria no Congresso e aprovar... Aprovar o que mesmo? O Congresso tem efetivamente aprovado alguma coisa relevante para melhorar a vida das pessoas e pôr o país no rumo do crescimento sustentado? E o Lula passou oito anos bradando contra uma tal herança maldita. Estou para ver herança mais maldita do que essa que ele legou à Dilma.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vida dura

Hoje me contactou uma gerente de projeto com uma proposta. Era um projeto com muitos arquivos, entrega em deferentes datas ao longo de outubro e um bom número de arquivos a serem devolvidos já nesta segunda. Para piorar, avisaram que o cliente estava com o dinheiro contado. Ou seja, além de ter que trabalhar no fim de semana, eu teria que trabalhar por pouco. A gente não tem refresco nem no nosso dia, ora! Como eu já havia planejado passar um fim de semana mais sossegado, sugeri à moça que talvez o cliente precisasse refazer seu planejamento e acrescer mais uns dias. Não me agrada nem um pouco a ideia de ficar trabalhando enquanto o cliente e a gerente de projeto passam um fim de semana tranquilo porque o trabalho está sendo feito. É só venha a nós, o vosso reino que é bom nada?!

Mas por que estou contando essa história? É a minha maneira de desejar um feliz Dia do Tradutor aos colegas (ainda não terminou; daqui a pouco vou tomar um vinhozinho para relaxar e marcar a data). Que nós tradutores saibamos nos impor, buscar sempre ganhos e condições de trabalho melhores e, acima de tudo, zelar pela nossa saúde. E que clientes com essas propostas indevidas se tornem minoria. Como diria um velho colega, a luta continua!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O time está lesionado

Ler o caderno de esportes do jornal se torna cada dia mais irritante e não é porque o meu time está mal das pernas. Antigamente, se falava em contusão, um atleta se contundia. Hoje em dia, só existe lesão. O cara vê injury, escreve lesão. Há não muito tempo, havia equipes nos mais diversos esportes. Ferrari, Williams eram equipes de F1. Agora é tudo time, mesmo longe do contexto esportivo. Ainda me lembro de quando visitei uma empresa nos EUA e a tradutora me mostrou onde ficava o "time de português". Pensei, "Sei...".

Se é para traduzir por reflexo, automaticamente, há quem o faça melhor do que nós e a um custo infinitamente menor: a máquina. Se você quer continuar a ganhar a vida traduzindo, faça-o direito porque senão vai ser alijado... e não demora muito. E não perco por esperar a substituição do bom e velho trabalho de equipe por algo mais moderno: o "trabalho de time". Safa!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Deu no Estadão: "Projeto do Senado libera contratação de professores universitários sem pós. Se aprovado, projeto de lei que deve ir à votação dia 12 alterará a Lei de Diretrizes e Bases e permitirá que graduados sem títulos deem aula em caráter temporário - status que pode ser renovado indefinidamente. Proposta agrada a instituições particulares."

Tem gente por aí que torceu o nariz, mas sabe que eu gostei da ideia? Eu me encaixaria nisso aí. Dei aula durante dois anos no curso de tradução da UnB como professor substituto e gostaria de voltar a dar aulas. Aula é uma cachaça, é bom demais. Mas como não tenho mestrado, quanto mais doutorado (não é o meu perfil), fico praticamente impedido. Mas tenho certeza de que, com a minha experiência, teria mais a oferecer aos alunos do que gente que está aí nas universidades Brasil afora apenas exibindo seu título de doutor e encangando grilo. Meu único temor é que o salário, que já é baixo, vai ser ainda menor. Se já fazem aquela safadeza de pagar a um doutor salário de mestre quando completam o mínimo de doutores exigido pelo MEC, imagina o que não farão com os pobres graduados. Vamos ver no que vai dar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Elucubrações tradutórias

Vinha eu ouvindo um artigo da Economist sobre systemically important financial institutions. Pensei comigo: quer apostar como escolheram a tradução mais feia para esse monstrengo? Fui ao Google:

Instituições financeiras sistemicamente importantes: 6270 páginas

Instituições financeiras de importância sistêmica (um pouco mais eufônico, sem o mente): 25 páginas

É nisso que dá deixar a tradução na mão do "pessoal da área" (no caso, na mão de economistas, gente, que, não raro, não tem lá muita intimidade com a inculta e bela). É por essas e outras que defendo que a tradução seja feita por um tradutor (um bom tradutor, claro, que conheça o assunto) e revisada por alguém da área. É a melhor maneira de garantir um trabalho de primeira.